Resenha: A Mão Esquerda da Escuridão

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 Um clássico é um livro que ainda não terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Essa máxima de Ítalo Calvino poderia ter sido pensada para o livro A Mão Esquerda da Escuridão. Um clássico da literatura nerd, escrito por uma mulher nos anos 60 e considerado um dos livros mais importantes da década. Saiba mais sobre esse clássico da ficção científica na resenha de A Mão Esquerda da Escuridão

"Escrito há 50 anos, A mão esquerda da escuridão é um marco na literatura de fantasia e ficção científica, vencedor do Hugo e do Nebula, mantendo-se até hoje como uma voz precursora e potente nas discussões da humanidade.

Enviado em uma missão intergaláctica, Genly Ai, um humano, tem como missão persuadir os governantes do planeta Gethen a se unirem a uma comunidade universal. Entretanto, Genly, mesmo depois de anos de estudo, percebe-se despreparado para a situação que lhe aguardava. Ao entrar em contato com uma cultura complexa, rica, quase medieval e com outra abordagem na relação entre os gêneros, Genly perde o controle da situação. É humano demais, e, se não conseguir repensar suas concepções de feminino e masculino, correrá o risco de destruir tanto a missão quanto a si mesmo.

Em capa dura, com pintura inédita de Marcela Cantuária e prefácio de Neil Gaiman, esta edição celebra o aniversário desta obra magistral. A mão esquerda da escuridão propõe ricas discussões sobre assuntos polêmicos e atemporais - gênero, feminismo, alteridade, filosofia e antropologia -, sendo considerado pela crítica especializada não só um dos mais importantes livros de ficção científica já escritos como também uma verdadeira obra-prima da literatura moderna."

FICHA TÉCNICA
Título: A mão esquerda da escuridão
Autora: Ursula K. Le Guin 
Ano: 2019
Páginas: 304
Idioma: Português
Editora: Aleph
Nota: 4
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA

A Mão Esquerda da Escuridão é um livro diferente de tudo o que já li, tanto dentro da ficção científica quanto na literatura em geral. A androginia é abordada de forma bem interessante e extremamente criativa, deixando o leitor curioso ao longo de todo o texto. Além da própria narrativa ser bem prazerosa, gostei bastante as reflexões levantadas pela autora por meio do olhar dos personagens. Uma delas, a respeito da própria androginia, ficou comigo ao longo de toda a leitura: “eles não são neutros. São potencialidades”. 



É interessante citar uma fala de Neil Gaiman, já no prefácio, porque situa bastante o leitor e mostra o que esperar do livro: “Li A mão esquerda da escuridão aos 11 ou 12 anos, e isso mudou o modo como eu olhava o mundo. Até então eu tinha certeza de que havia garotas e garotos, homens e mulheres, e eles satisfaziam os papéis que lhes foram atribuídos, porque era simplesmente o modo como as coisas são: as diferenças entre os sexos eram reais e imutáveis. Depois de ler este livro, papéis sexuais, suposições de gênero, o modo como nos relacionamos uma com os outros como homem ou mulher - todas essas coisas pareceram subitamente arbitrárias.” 

“Foi com esta inquietação [o que é ser mulher?], em plena década de 1960, que a autora escreveu A mão esquerda da escuridão, que propõe um profundo debate sobre sexualidade e os papéis convencionais que cada sexo assume em nosso mundo ao despir a sociedade do binarismo dos gêneros.” 


Dentro da universalidade de A Mão Esquerda da Escuridão podemos observar a divisão política e a polaridade de culturas e pensamentos, a tentativa de se encaixar em uma sociedade que se torna hostil por meio da diferença entre os povos, os conflitos e dramas familiares, e a busca por conexões e laços, independente do lugar. A Mão Esquerda da Escuridão também é a história de um estrangeiro tentando se adaptar a um mundo culturalmente e biologicamente diferente, dividido em dois governos e com uma tensão palpável e latente, um panorama extremamente atual.

O livro aborda de forma interessante como nos relacionaríamos com os outros sem a barreira de gênero imposta por uma sociedade binária. Um mundo sem rótulos, mas que mantém algumas das estruturas inerentes à condição humana e/ou de indivíduos pensados de forma semelhante aos humanos. 

Além disso, é interessante observar como, mesmo em um mundo onde a ideia de masculino e feminino cai por terra, ainda existem conflitos familiares, disputas de poder e desavenças, mas como isso tudo pode acontecer sem a influência da visão binária de gênero. A partir daí, os conflitos surgem mais como uma questão relacionada à diversidade de comportamentos e pensamentos, o que sinto particularmente como um refresco em meio a tantas histórias pautadas por visões binárias e estereótipos nocivos às discussões do século XXI. Como é mencionado no livro: "julga-se ou respeita-se uma pessoa apenas como ser humano. É uma experiência espantosa"


A sensação de movimento é constante ao longo de toda a leitura. Isso porque a narrativa se passa em vários lugares, estamos constantemente nos movendo com os personagens, migrando de um lugar para o outro e viajando pelo tempo de acordo com flashbacks e flashforwards que a autora escolhe nos presentear para podermos viver a história com os personagens. 

Mesmo tendo em mãos uma narrativa inteligente e completa, as histórias paralelas foram o que mais me interessou no livro. A jornada de Ali e Estraven, os dois narradores principais, é bem interessante, principalmente quando acontecem os diálogos a respeito das diferenças entre os indivíduos na Terra e em Gethen, ainda mais em relação à gêneros. Mas me sentia mais envolvida quando, entre esses capítulos, podia ter acesso a contos, mitos e histórias desse povo e desse mundo tão ímpar. Fiquei curiosa para entender mais sobre a mitologia desse planeta e suas ancestralidades. 


Um dos pontos altos do livro é, sem dúvidas, o mundo polarizado de Gethen. A Mão Esquerda da Escuridão é um belíssimo passeio por paisagens inóspitas, digno de um excelente cli-fi. O cenário ganha muito espaço na historia e é basicamente o que conduz a narrativa. Sempre me interesso bastante por livros que conseguem trazer a atmosfera para perto do leitor e A Mão Esquerda da Escuridão foi uma surpresa muito agradável nesse sentido. 

A não ser por alguns diálogos que tratam de forma estereotipada o que representa o feminino e o masculino (algo comum principalmente se pensarmos no contexto em que a história foi escrita e dentro do segmento literário no qual ela está inserido), o livro continua extremamente atual e é difícil lembrar que foi escrito há mais de 50 anos.

“Era um dos pequenos choques que eu sempre levava. Choque cultural não era quase nada comparado ao choque biológico que sofri como um macho humano em meio a seres que eram, oitenta por cento do tempo, hermafroditas assexuados.” Página 64


A Mão Esquerda da Escuridão é um marco da ficção científica e é, além disso, uma referência para a discussão de gênero dentro da literatura moderna. O livro tem como elemento mais marcante e como diferencial a androginia, mas ela não é o foco do livro. Assim como todo clássico, A Mão Esquerda da Escuridão traz universalidades que fazem com que todo leitor, não importa a época ou o lugar, se identifique de alguma forma.  

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“Luz é a mão esquerda da escuridão
e escuridão, a mão direita da luz. 
Dois são um, vida e morte, unidas
como amantes no kemmer,
como mais entrelaçadas,
como o fim e a jornada.” Página 234


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2 comentários

  1. Oi Laura, tudo em?
    Amei saber que é um clássico da literatura nerd, eu não conhecia mas, fiquei encantada por essa edição toda colorida e muito bem trabalhada.
    Beijos.




    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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  2. Que legal! Muito bom,suasresenhas são ótimas, dá até vontade de ler o livro hahahah parabéns!


    Bela sem a Fera

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