Resenha: Flores para Algernon

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Você já quis poder sair da sua vida só para poder observá-la de longe, de fora? Flores para Algernon relata a experiência de um homem, ao sair de si, “experienciar” a vida de uma forma completamente diferente daquela que ele já estava acostumado, longe de tudo o que ele conhecia. Então ele consegue, como se fosse outra pessoa diferente, refletir sobre sua própria vida, sobre as pessoas que fizeram parte de sua infância como a mãe, o pai e a irmã, as pessoas que fazem parte de sua vida no presente, e sobre ele próprio, quem ele é e o que ele poderia ser.

Quer entender melhor a profundidade que esse lindo incrível guarda? Então confira a resenha de Flores para Algernon!

"Aos 32 anos, Charlie trabalha na padaria Donners, ganha 11 dólares por semana e tem 68 de QI. Porém, uma cirurgia revolucionária promete aumentar a sua inteligência, considerada gravemente baixa. O problema? Enxergar o mundo com outros olhos e mente pode trazer sacrifícios para a sua própria realidade. E resta saber se Charlie Gordon está disposto a fazê-los."



FICHA TÉCNICA
Título
: Flores para Algernon
Autor: Daniel Keyes
Ano: 2018
Páginas: 288
Idioma: Português
Editora: Aleph
Nota: 4,5/5
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Flores para Algernon narra a experiência de Charlie Gordon ao ser submetido a uma cirurgia que promete aumentar o QI do paciente. Como ele sofre de uma deficiência mental séria, é visto pelos cientistas como o candidato humano perfeito para seguir o procedimento realizado inicialmente em Algernon, um rato de laboratório que desempenha um papel importante na construção da narrativa.

"Uma das coisas que me confunde quando surge algo do meu passado é nunca saber se aquilo realmente aconteceu daquela maneira, se aquela era a maneira que parecia para mim naquele momento ou se estou inventando. Sou como um homem que passou a vida inteira semiadormecido, tentando descobrir como ele era antes de acordar. Tudo está estranhamente borrado e em câmera lenta." Página 82


O livro é todo escrito por meio dos relatórios de progresso que Charlie, como cobaia do experimento, precisa ir preenchendo diariamente. Ou seja, é um livro escrito na forma de diário e esse foi o melhor recurso narrativo que o autor poderia ter escolhido. Um narrador onisciente ajuda a ampliar as percepções de determinada realidade e enredo. Entretanto, o objetivo da história é mostrar para o leitor as experiências através dos olhos de Charlie.

Ao optar por uma narrativa de diário, o leitor tem mais acesso às sensações e percepções do protagonista e, principalmente, ao seu progresso. O desenvolvimento de Charlie começa de maneira tão sutil e vai se tornando mais intensa e isso é perceptível para o leitor. Essa escolha narrativa foi perfeita para a proposta do livro e para a própria experiência do leitor, que se envolve mais, entende melhor tudo o que Charlie passa e ainda faz a leitura fluir bem melhor.


Ao mesmo tempo em que Daniel Keyes mostra a inocência e o pensamento genuíno de uma criança e sua forma de “experienciar” o mundo, ele traz os impulsos e questionamentos que vêm com o amadurecimento. É um choque de realidades de um homem que sempre teve um determinado filtro sobre os olhos e que de repente precisa se acostumar com outra realidade que o enxerga e o trata de forma diferente.

É muito interessante observar a relação do protagonista com “Charlie”, como se fossem duas pessoas diferentes. A própria forma como ele fala do seu “eu anterior” demonstra certo descaso e deboche, ao mesmo tempo em que ele tem medo da sombra de quem era e busca se proteger das pessoas que fizeram mal ao Charlie menos inteligente. Ele não aceita ouvir que foi criado porque acredita que não é possível varrer o passado, mas não consegue sentir que ele e aquele Charlie são a mesma pessoa.

"Essa inteligência tinha gerado uma cisão entre mim e todas as pessoas que conhecia e amava, me arrancando da padaria. Agora, estou mais sozinho que nunca. Eu me pergunto o que aconteceria se colocassem Algernon de volta na gaiola grande com alguns dos outros ratos. Eles se voltariam contra ele?" Página 104


A conexão extremamente perturbada com Rose, sua mãe, também se faz presente ao longo de todo o texto e mostra como isso reflete na sua relação com as mulheres. Seja na maneira como ele via o sexo feminino quando era mais novo e ainda vivia sob o teto dos pais, seja na forma como ele, depois do experimento e já adulto, se relaciona com outras mulheres.

Outro ponto que chama a atenção no livro é a relação de Charlie com Algernon, o rato, e como ele vê o rato como um companheiro de experimento, alguém que entenderia exatamente o que ele passa. Algernon se revela como um espelho de quem Charlie se tornou. Ele também se liga emocionalmente ao rato e vê tudo o que acontece com o bichinho como um presságio do que pode acontecer a ele mesmo. São detalhes sutis, jogados ao longo do texto com delicadeza.

"Tenho de perceber que, quando eles continuamente me incomodam para falar e escrever apenas para que as pessoas lessem esses relatórios me entendam, eles falam de si mesmos também. Mas é assustador compreender que meu destino está nas mãos de homens que não são os gigantes que um dia imaginei, homens que não têm todas as respostas." Página 145


Flores para Algernon também traz reflexões sobre real x imaginário, passado x percepção do presente x construção de um futuro, inteligência x retardo, e até mesmo sobre a forma como lidamos com o diferente, debochando daquilo que nos parece inferior e hostilizando o que foge à compreensão. É um livro que nos faz olhar para dentro também, nos coloca na posição de expectadores, com um belo gostinho do que seria ser protagonista de uma história que não é sua.

É um livro que também fala muito sobre possibilidades. Aborda a possibilidade de ser uma pessoa diferente, a possibilidade de uma vida que ele poderia ter tido, a possibilidade de vínculo com as pessoas, a possibilidade de ter um outro presente e outro futuro, a possibilidade de consertar o passado de alguma forma etc. É um livro que aborda essa questão de maneira sutil, mas poderosa, com o protagonista tendo que enfrentar, também, a possibilidade de perder tudo aquilo que ele nem sabia que poderia ter.


É um livro com diversas camadas. Além das referências em alguns momentos pontuais da narrativa, o livro em si também se remete ao mito da caverna de Platão, com Charlie sendo agraciado com o dom da sabedoria e o privilégio de poder sair de si para ver o mundo tal qual ele realmente é.

O livro foi publicado originalmente em 1959, mas mesmo assim é possível vê-lo como uma narrativa extremamente atual e muito bem colocada no contexto que vivemos. Como o livro trata te questionamentos pessoais e universais, é difícil não se identificar com o protagonista e toda a ambientação. A própria busca pela perfeição nunca esteve tão em alta e trabalhá-la na forma de uma ficção científica como Flores para Algernon é revigorante e acolhedora.


Flores para Algernon é um livro bem delicado, que explora assuntos complexos nos detalhes, de maneira bem sutil. É um livro que pode muito bem servir como entretenimento rápido, porque seu formato, linguagem e enredo contribuem para isso, como também pode despertar sentimentos diversos no leitor. Foi uma leitura que havia me deixado ansiosa e que me surpreendeu muito positivamente. Um livro para ler, reler e refletir.

E aí? Gostou da resenha? Então não deixe de conhecer também a resenha de A Cor Púrpura!

"Que estranho é o fato de pessoas de sensibilidade e sentimentos honestos, que não tirariam vantagem de um homem que nasceu sem braços ou pernas ou olhos, não verem problema em maltratar um homem com pouca inteligência. Enfureci-me ao lembrar que não fazia muito tempo que eu, com esse garoto, tinha sido o tolo que fazia o papel de palhaço." Página 185



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