Resenha: A Cor Púrpura

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Poucos livros conseguem causar impacto e continuar tão atuais mesmo 30 anos depois de seu lançamento. A Cor Púrpura faz um retrato perfeito de uma mulher negra dentro de uma sociedade racista, machista e misógina e poderia muito bem ser um espelho da nossa época. Escrito nos anos 80 por Alice Walker, o livro traz reflexões extremamente atuais fazendo uso de uma narrativa em forma de cartas. Uma leitura difícil de largar e com diversas camadas que geram reflexões infindáveis.

Confira a resenha de A Cor Púrpura de Alice Walker e saiba porque é um livro atemporal e extremamente necessário na sua lista de leituras!

"Vencedor do Prêmio Pulitzer em 1983 e inspiração para a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg, o romance A cor púrpura retrata a dura vida de Celie, uma mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Pobre e praticamente analfabeta, Celie foi abusada, física e psicologicamente, desde a infância pelo padrasto e depois pelo marido. Um universo delicado, no entanto, é construído a partir das cartas que Celie escreve e das experiências de amizade e amor, sobretudo com a inesquecível Shug Avery. Apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder, em uma sociedade ainda marcada pelas desigualdades de gêneros, etnias e classes sociais."


FICHA TÉCNICA
Título
: A Cor Púrpura
Autora: Alice Walker
Ano: 2016
Páginas: 336
Idioma: Português
Editora: José Olympio
Nota: 5/5
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A Cor Púrpura é um livro que estava na minha lista de desejados há algum tempo e fiquei muito feliz em finalmente lê-lo no clube do livro que organizo. Escrito por Alice Walker, A Cor Púrpura nos leva para o sul dos Estados Unidos no período entre guerras, mas nos devolve a uma sociedade que poderia muito bem ter parado no tempo.

O racismo é um elemento extremamente presente ao longo de toda a narrativa, mesmo no convívio de Celie com outras pessoas negras. Toda a estrutura da sociedade e do sistema no qual ela está inserida foram feitos para reprimí-la e violenta-la. Mesmo quando pouco se discutia a respeito, A Cor Púrpura traz a discussão da solidão da mulher negra, mais um fator que torna esse livro um tesouro para a literatura de ficção.

"Querido Deus,
Eu tenho quatorze ano. Eu sou. Eu sempre fui uma boa menina. Quem sabe o senhor pode dar um sinal preu saber o que tá acontecendo comigo.
Na primavera passado, depois que o nenê Lucious chegou, eu iscutei o barulho deles. Ele tava puxando o braço dela. Ela falou Inda é muito cedo, Fonso, eu num tô bem. Até que ele deixou ela em paz. Uma semana depois, ee foi e puxou o braço dela outra vez. Ela falou Não, eu num vou. Você num vê que já tô meio morta, e todas essas criança." Página 9


Um ponto extremamente presente ao longo de todo o livro é a a normalidade e naturalidade ao narrar acontecimentos assustadores e muito graves. A gravidez na infância, por exemplo, é abordada de forma sutil, com a expressão “estava de barriga” e sem muitos detalhes sobre os eventos que levaram a isso ou a forma como a personagem se sentiu, tudo é narrado por alto. A autora deixa o próprio leitor se indignar com as situações e isso é um recurso bem interessante. Alice Walker não precisa fazer uso de descrições excessivas para transmitir mensagens claras e poderosas. Ela não subestima o leitor e, em troca, oferece uma narrativa densa, mas imperdível.


O amor também é um elemento marcante em toda a narrativa de A Cor Púrpura. Mesmo que o livro narre a vida extremamente conturbada e cheia de tragédias de Celie, o amor é extremamente presente na forma como ela se relaciona com os outros e consigo mesma. Seus dilemas pessoais estão diretamente relacionados com a forma como ela mesma se vê e como ela foi criada para se ver. A falta de amor durante grande parte de sua vida traz um gosto amargo e forte. A presença do amor se faz marcante na relação de Celie e de sua irmã Nettie e em seu relacionamento com Shug Avery. Por um lado temos o amor incondicional pela irmã, que é o que dá sentido à vida da protagonista e serve como catalisador de seus sonhos e angústias. Do outro lado temos o amor que ela sente em relação à sua confidente, Shug Avery. Além de ser um amor que desperta uma atração inegável, ela ama de uma forma que também preza pela liberdade da amada, que vive a vida nos braços de outras pessoas, principalmente homens.

"Aí eu escutei meu nome.
Shug falando Celie. Dona Celie. E eu olhei pra onde ela tava.
Ela falou meu nome outra vez. Ela falou que essa música queu vou cantar chama música da dona Celie. Porque foi ela que tirou essa música da minha cabeça quando eu tava duente."

É nesse ponto que se mostra a construção da sexualidade de Celie. Com um pano de fundo de abusos e violência, a protagonista não teve nenhuma experiência de prazer sexual até conhecer Shug Avery. Pelo contrário, o sexo sempre foi associado a violência, uma forma de poder agressiva e "necessária" (de acordo com o que ela foi levada a acreditar). Celie nunca viu o sexo de outra forma além de uma obrigação para servir de satisfação ao seu marido.

A Cor Púrpura é um livro muito à frente de seu tempo em diversos níveis. Sexualidade e atração entre duas mulheres no período entre guerras pode parecer algo pouco explorado, e de fato é, mas Alice Walker traz, com delicadeza e realidade, a forma como Celie e Shug Avery desenvolvem um relacionamento em meio ao contexto histórico da época e os papéis que desempenham na sociedade da época.


O contexto histórico é outro ponto que me chamou a atenção. Alice Walker se mostra uma rainha das sutilezas ao dizer sem precisar falar. Por exemplo: ela contextualiza historicamente o período entre guerras sem precisar dizer que aquele é o período, essas informações se fazem presente nos diálogos dos personagens, em comentários esporádicos e pensamentos. E mesmo sem deixar nada muito explícito, o leitor consegue ter plena ciência de onde acontecem os eventos, em que tempo e o entorno de tudo aquilo que é apresentado, mesmo que rapidamente.

A narrativa é toda feita em forma de cartas que nunca seriam enviadas e a relação com Deus como único companheiro em um mundo que a trata com violência e desprezo. A fé se apresenta não como uma forma de salvação, mas como uma companhia desejada em meio a pessoas que não a amam. A fé da protagonista a ajuda a ter alguém com quem conversar, como um confidente no qual ela pode despejar suas mágoas e questionamentos sem necessariamente esperar por uma salvação. Em alguns momentos ela comenta o fato de que não tem esperanças de que sua vida melhoraria, mas que ela precisaria passar por esses tormentos para chegar a um lugar melhor. Com o decorrer da narrativa, até essa questão é posta em xeque e sua relação com Deus também é abalada, tudo mostrado de forma sutil para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões.



Alice Walker tem uma narrativa objetiva, sem muita adjetivação ou descrição, o que dá a impressão de ser uma narrativa confusa e um pouco desconexa. Mas a verdade é que o leitor é um mero espectador. A história é escrita para registro e não para entretenimento ou compreensão do leitor, isso se mostra presente com a falta de explicações. Alice não escreve um livro para o leitor. Ela escreve um livro que o leitor tem o privilégio de poder lê-lo. Isso faz ainda mais sentido quando descobrimos que Alice Walker é médium. Ao final do livro ela agradece “às pessoas por terem vindo”, o que demonstra que o livro teria um propósito maior que mero entretenimento ou experiência de leitura.
Ao final do livro somos apresentados a uma informação sutil, mas poderosa dependendo de quem a lê e a absorve. Alice Walker é médium e agradece às pessoas “por terem vindo” para que essa história pudesse nascer. Essa característica sobrenatural dá um toque ainda maior de realismo para a narrativa porque demonstra, caso você acredite, que o que está sendo contado veio de alguém que realmente viveu tudo aquilo. Essa pequena, mas extremamente importante revelação, pode explicar a própria forma que Alice Walker escolheu para narrar os acontecimentos do livro. A falta de explicações detalhadas, sutilezas ao longo de todo o livro, linguagem e narrativa confusa, representam um relato oral de outra pessoa que não tinha a intenção de exemplificar e enfeitar o texto. As palavras são o que são, da forma que são.

"Antes que eu me desse conta, lágrima correram pelo meu queixo.
E eu fiquei confusa.
Ele adora olhar pra Shug. Eu adoro olhar pra Shug. 
Mas Shug só adora olhar pra um de nós. Ele.
Mas é desse jeito que deve ser. Eu sei. Mas se é assim, por que meu coração dói tanto?" Página 93



Fica a minha dica para também assistir ao filme, que explora um pouco mais a personalidade de Celie e sua relação consigo mesma. Whoopi Goldberg está simplesmente extraordinária no papel e consegue dar vida a essa personagem difícil de ler. Além disso, apesar de ser uma história difícil, o filme consegue captar bem a essência dos personagens e apresenta-los com uma roupagem melhor definida, além de exemplificar de forma sensacional o contexto e a ambientação apresentados de forma mais rasa no livro.

Acredito que alguns dos melhores livros são aqueles que conseguem usar a realidade para trabalhar a ficção e que, ao mesmo tempo, trazem a ficção para a realidade. A Cor Púrpura faz exatamente isso. Um livro atemporal que traz mais questões do que somos capazes de absorver em apenas uma leitura e um clássico da literatura que todos deveriam ter na estante.

E se você gosta de livros com protagonistas inquietantes, não pode deixar de conhecer a biografia de Michelle Obama: Minha História!

"Querido Deus,
É isso, a Shug falou. Arruma sua trouxa. Você vem comigo para o Tenessee.
Mas eu me sinto tonta.
Meu pai foi linchado. Minha mãe era louca. Todos meus meio-irmão e irmã num são meus parente. Meus filho num são minha irmã nem meu irmão. O Pai num é o pai.
Você deve tá dormindo."



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