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Nostalgia Cinza


 Um clássico é um livro que ainda não terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Essa máxima de Ítalo Calvino poderia ter sido pensada para o livro A Mão Esquerda da Escuridão. Um clássico da literatura nerd, escrito por uma mulher nos anos 60 e considerado um dos livros mais importantes da década. Saiba mais sobre esse clássico da ficção científica na resenha de A Mão Esquerda da Escuridão! 

"Escrito há 50 anos, A mão esquerda da escuridão é um marco na literatura de fantasia e ficção científica, vencedor do Hugo e do Nebula, mantendo-se até hoje como uma voz precursora e potente nas discussões da humanidade.

Enviado em uma missão intergaláctica, Genly Ai, um humano, tem como missão persuadir os governantes do planeta Gethen a se unirem a uma comunidade universal. Entretanto, Genly, mesmo depois de anos de estudo, percebe-se despreparado para a situação que lhe aguardava. Ao entrar em contato com uma cultura complexa, rica, quase medieval e com outra abordagem na relação entre os gêneros, Genly perde o controle da situação. É humano demais, e, se não conseguir repensar suas concepções de feminino e masculino, correrá o risco de destruir tanto a missão quanto a si mesmo.

Em capa dura, com pintura inédita de Marcela Cantuária e prefácio de Neil Gaiman, esta edição celebra o aniversário desta obra magistral. A mão esquerda da escuridão propõe ricas discussões sobre assuntos polêmicos e atemporais - gênero, feminismo, alteridade, filosofia e antropologia -, sendo considerado pela crítica especializada não só um dos mais importantes livros de ficção científica já escritos como também uma verdadeira obra-prima da literatura moderna."

FICHA TÉCNICA
Título: A mão esquerda da escuridão
Autora: Ursula K. Le Guin 
Ano: 2019
Páginas: 304
Idioma: Português
Editora: Aleph
Nota: 4
Compre: Amazon
Comprando por esse link você ajuda e incentiva o Nostalgia Cinza
LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA

A Mão Esquerda da Escuridão é um livro diferente de tudo o que já li, tanto dentro da ficção científica quanto na literatura em geral. A androginia é abordada de forma bem interessante e extremamente criativa, deixando o leitor curioso ao longo de todo o texto. Além da própria narrativa ser bem prazerosa, gostei bastante as reflexões levantadas pela autora por meio do olhar dos personagens. Uma delas, a respeito da própria androginia, ficou comigo ao longo de toda a leitura: “eles não são neutros. São potencialidades”. 



É interessante citar uma fala de Neil Gaiman, já no prefácio, porque situa bastante o leitor e mostra o que esperar do livro: “Li A mão esquerda da escuridão aos 11 ou 12 anos, e isso mudou o modo como eu olhava o mundo. Até então eu tinha certeza de que havia garotas e garotos, homens e mulheres, e eles satisfaziam os papéis que lhes foram atribuídos, porque era simplesmente o modo como as coisas são: as diferenças entre os sexos eram reais e imutáveis. Depois de ler este livro, papéis sexuais, suposições de gênero, o modo como nos relacionamos uma com os outros como homem ou mulher - todas essas coisas pareceram subitamente arbitrárias.” 

“Foi com esta inquietação [o que é ser mulher?], em plena década de 1960, que a autora escreveu A mão esquerda da escuridão, que propõe um profundo debate sobre sexualidade e os papéis convencionais que cada sexo assume em nosso mundo ao despir a sociedade do binarismo dos gêneros.” 


Dentro da universalidade de A Mão Esquerda da Escuridão podemos observar a divisão política e a polaridade de culturas e pensamentos, a tentativa de se encaixar em uma sociedade que se torna hostil por meio da diferença entre os povos, os conflitos e dramas familiares, e a busca por conexões e laços, independente do lugar. A Mão Esquerda da Escuridão também é a história de um estrangeiro tentando se adaptar a um mundo culturalmente e biologicamente diferente, dividido em dois governos e com uma tensão palpável e latente, um panorama extremamente atual.

O livro aborda de forma interessante como nos relacionaríamos com os outros sem a barreira de gênero imposta por uma sociedade binária. Um mundo sem rótulos, mas que mantém algumas das estruturas inerentes à condição humana e/ou de indivíduos pensados de forma semelhante aos humanos. 

Além disso, é interessante observar como, mesmo em um mundo onde a ideia de masculino e feminino cai por terra, ainda existem conflitos familiares, disputas de poder e desavenças, mas como isso tudo pode acontecer sem a influência da visão binária de gênero. A partir daí, os conflitos surgem mais como uma questão relacionada à diversidade de comportamentos e pensamentos, o que sinto particularmente como um refresco em meio a tantas histórias pautadas por visões binárias e estereótipos nocivos às discussões do século XXI. Como é mencionado no livro: "julga-se ou respeita-se uma pessoa apenas como ser humano. É uma experiência espantosa". 


A sensação de movimento é constante ao longo de toda a leitura. Isso porque a narrativa se passa em vários lugares, estamos constantemente nos movendo com os personagens, migrando de um lugar para o outro e viajando pelo tempo de acordo com flashbacks e flashforwards que a autora escolhe nos presentear para podermos viver a história com os personagens. 

Mesmo tendo em mãos uma narrativa inteligente e completa, as histórias paralelas foram o que mais me interessou no livro. A jornada de Ali e Estraven, os dois narradores principais, é bem interessante, principalmente quando acontecem os diálogos a respeito das diferenças entre os indivíduos na Terra e em Gethen, ainda mais em relação à gêneros. Mas me sentia mais envolvida quando, entre esses capítulos, podia ter acesso a contos, mitos e histórias desse povo e desse mundo tão ímpar. Fiquei curiosa para entender mais sobre a mitologia desse planeta e suas ancestralidades. 


Um dos pontos altos do livro é, sem dúvidas, o mundo polarizado de Gethen. A Mão Esquerda da Escuridão é um belíssimo passeio por paisagens inóspitas, digno de um excelente cli-fi. O cenário ganha muito espaço na historia e é basicamente o que conduz a narrativa. Sempre me interesso bastante por livros que conseguem trazer a atmosfera para perto do leitor e A Mão Esquerda da Escuridão foi uma surpresa muito agradável nesse sentido. 

A não ser por alguns diálogos que tratam de forma estereotipada o que representa o feminino e o masculino (algo comum principalmente se pensarmos no contexto em que a história foi escrita e dentro do segmento literário no qual ela está inserido), o livro continua extremamente atual e é difícil lembrar que foi escrito há mais de 50 anos.

“Era um dos pequenos choques que eu sempre levava. Choque cultural não era quase nada comparado ao choque biológico que sofri como um macho humano em meio a seres que eram, oitenta por cento do tempo, hermafroditas assexuados.” Página 64


A Mão Esquerda da Escuridão é um marco da ficção científica e é, além disso, uma referência para a discussão de gênero dentro da literatura moderna. O livro tem como elemento mais marcante e como diferencial a androginia, mas ela não é o foco do livro. Assim como todo clássico, A Mão Esquerda da Escuridão traz universalidades que fazem com que todo leitor, não importa a época ou o lugar, se identifique de alguma forma.  

Gostou do livro e quer conhecer outra referência da ficção científica? Então conheça Flores para Algernon! 

“Luz é a mão esquerda da escuridão
e escuridão, a mão direita da luz. 
Dois são um, vida e morte, unidas
como amantes no kemmer,
como mais entrelaçadas,
como o fim e a jornada.” Página 234


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10:56 2 comments

Escrito em 1966, em meio a uma poderosa onda feminista pela luta de mais direitos para mulheres, Mulheres, mitos e deusas é uma bela homenagem a alguns dos grandes nomes femininos que fizeram história, seja ela real ou mitológica, em forma de coletânea. Recentemente, o livro chegou em uma edição belíssima pelo selo Goya, da Aleph! Saiba mais sobre Mulheres, mitos e deusas!

Algumas mulheres conheceram o céu, outras o inferno; umas foram enaltecidas, santificadas, outras demonizadas; mas todas tocaram as profundezas do próprio ser, chegaram ao limite de sua condição e de seu tempo e se eternizaram na história.
Ao tomar contato com a história e os dilemas vividos por figuras como Afrodite, Cinderela, Simone de Beauvoir e Virginia Woolf, a autora nos guia em uma viagem de resgate da essência perdida ao ressignificar o papel feminino no mundo.
O livro revela uma análise inteligente dos arquétipos, dos mitos e das lendas construídos em torno da mulher, demonstrando como eles acabaram por reafirmar o machismo na cultura ocidental.



FICHA TÉCNICA
Título
: Mulheres, mitos e deusas
Autora: Martha Robles
Páginas: 448
Ano: 2019
Editora: Aleph
Nota: 3,5
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA




Mulheres, mitos e deusas é um riquíssimo trabalho de organização de histórias e origens de figuras femininas. Escrito em 1966, em meio a uma poderosa onda feminista pela luta de mais direitos para mulheres, o livro é uma bela homenagem a alguns dos grandes nomes femininos que fizeram história, seja ela real ou mitológica, em forma de coletânea. Para quem gosta de mitologia, por exemplo, Mulheres, mitos e deusas é um prato cheio. Como escrito na nota à edição brasileira, a obra "escrita por uma mulher, sobre mulheres e sua subjacência na história; mas não se dirige somente a elas. Narra e discute a grande aventura humana sob a óptica particular do olhar feminino".

“Dentre centenas de versões infantis, multiplicadas em todas as línguas, ninguém poderia dizer qual é a variante mais fiel à versão inicial nem como essa delicada donzela pôde se elevar a tantos e tão contraditórios símbolos do feminino, relacionados com o trabalho esmerado e a ausência de recompensa. O certo é que. Em torno de um drama desenvolvido a partir da rivalidade entremeada pela inveja, descobrimos que, além de protagonizar uma intrincada trama de abnegação abjeta, típica da mulher degradada, sua infelicidade demonstra que, em um caso de tamanha perversidade como esse, somente a magia é capaz de modificar a condenação doméstica das mulheres.” Página 253


O livro é dividido em partes pensadas de acordo com alguns temas e momentos históricos. São elas: "As origens", que fala sobre algumas das mais antigas figuras mitológicas; "Da tragédia à história", que trata de mulheres com narrativas de superação que fizeram história dentro da mitologia grega e romana; "O amor", que reúne algumas mulheres cuja história está diretamente relacionado a narrativas amorosas e românticas; "As fadas", cujo próprio nome do capítulo já explica de quem vai se tratar; "Rainhas", uma das partes mais interessantes e que abordam figuras reais que venceram o tempo da vida; “Caminho de Deus”, parte dedicada às figuras femininas relacionadas a algumas religiões, com atenção especial às algumas figuras católicas e cristãs cuja expressividade se faz presente no México; e "Nosso tempo", parte que conhecemos algumas escritoras e ativistas contemporâneas.

O livro em si e as escolhas feitas pela autora possuem um caráter bem ocidental. Não existem referências a figuras femininas do oriente e acredito que isso deixe o livro um pouco superficial e, mesmo entendendo que seria impossível contemplar absolutamente todas as figuras femininas, o livro perde um pouco da riqueza cultural que poderia ter ao abordar outras figuras femininas orientais, como representações da cultura hindu, por exemplo, que trazem um leque gigantesco que poderia ter sido explorado. Entretanto, é interessante observar a presença de mulheres mexicanas, tendo em vista a nacionalidade da autora.


Eu particularmente não conhecia a maior parte dessas figuras, então o livro se tornou uma boa referência tanto para me apresentar a novas mulheres que deixaram sua marca na história, seja ela real ou mitológica, quanto para servir de base para futuras pesquisas e ensaios. Mulheres, mitos e deusas não serve tanto como material de análise e sim material de consulta sobre diversa figuras femininas através dos tempos.

As primeiras páginas cumprem esse papel de análise e trazem reflexões bem interessantes sobre o que alguns mitos e imagens de mulheres trazem para a representação do feminino e dos arquétipos das mulheres. Entretanto, por um bom tempo a autora se limita a apenas narrar a história das célebres figuras, mencionando vez ou outra a questão da mulher como forma de propor reflexões ou fazer pontuações, mas sem chamar a conversa e o diálogo a respeito dessas questões uma vez que ela logo passa para o próximo capítulo e a próxima mulher escolhida.

Ao contrário do que eu pensei e do espera-se pela sinopse, Mulheres, mitos e deusas não é um livro que estuda os arquétipos femininos contidos nas deusas e nos mitos femininos como faz Mulheres que Correm com os Lobos, por exemplo. Mulheres, mitos e deusas traz um catálogo de figuras femininas contidas em mitos, histórias bíblicas, lendas e no imaginário popular, apresentando sua história de forma resumida. Confesso que criei expectativas erradas, pensando que existiria uma parte maior de análise e menos de objetividade e apresentação de cada mulher. Entretanto, isso não tira o mérito do livro de ser uma excelente referência para quem quer conhecer mais sobre figuras femininas ao longo do tempo. Enquanto lia Mulheres que Correm com os Lobos, por exemplo, algumas figuras citadas em Mulheres, mitos e deusas aparecem e usei o livro como referência para essa leitura também. É o caso da história de Malinche, por exemplo.


A linguagem do livro é, por muitas vezes, bem acadêmica, levando em conta o fato de ter sido publicado pelo selo Goya, mesmo de História da Bruxaria. Para os leitores do gênero, é uma leitura bem fácil, mas para quem busca uma linguagem mais mastigada com informações mais sutis, pode ser uma leitura mais complexa e menos fluida. Além disso, por muitas vezes o livro adquire um caráter bem mais histórico e explicativo do que analítico.

Existem alguns detalhes que destoam na linguagem do livro, como, por exemplo, ao falar de Elizabeth I a autora de repente mudar a narração para a primeira pessoa. Acho que teria sido um recurso interessante se tivesse sido feito ao longo de todo o livro, de maneira padronizada. Entretanto, apenas com essa figura icônica em específico, ficou algo bem jogado e estranho, quase como um texto intruso no livro.

“Desejar tudo e desejar intensamente, com a plenitude que somente é inspirado pela rara combinação de poder e apetite pelo entendimento absoluto, não foi coisa muito frequente na história, especialmente em uma mulher.” Página 279


Mulheres, mitos e deusas também vem com uma edição bem caprichada, com capa dura, uma imagem que combina bastante tanto com o enfoque do livro, quanto no fato de chamar a atenção logo de cara ao já apresentar uma figura conhecida. Além disso, a diagramação do livro é bem elegante, com um espaçamento entre linhas bem agradável, com divisões de capítulos bem pensadas e uma estruturação inteligente.

“Trata-se dessas passagens que vão se rasgando sobre o papel como pequenos áulicos da memória, aprendizes do verbo, apenas eco da palavra fugidia e que acabam por calar a própria individualidade ou por desnudar a fibra imperceptível do espírito.” Página 388


Mulheres, mitos e deusas é um excelente livro para apresentar figuras femininas e suas histórias e conquistas. Não conhecia a maior parte dessas mulheres e isso é um ponto altíssimo. Com toda certeza é um livro para ser pensado como referência de estudo e coletânea de perfis de algumas das figuras ocidentais mais ilustres da história. É um livro que usarei para consultas futuras e é um belo acréscimo à minha coleção de livros escritos por mulheres e que falam sobre mulheres.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro do selo Goya? Então confira a reseha de História da Bruxaria!

“Delas a Virgem Maria herdou culturalmente a função única de intermediária entre os crentes e a bondade divina; porém, os demais atributos foram excluídos por uma civilização monoteísta que se atreveu a negar radicalmente a completude feminina, incluídas aí também suas veleidades. Daí a dupla importância, social e religiosa, desse arquétipo por excelência da vida terrenal incorruptas, cuja passagem na Terra, até o ponto em que sabemos pelo favor da fé, entregou-se à missão de consagrar a mais perfeita obra purificadora por uma humanidade castigada pelo pecado original desde a queda ancestral de Eva.” Página 298


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12:28 No comments

Durante as perseguições às bruxas, entre 1450 e 1750, aproximadamente 110 mil pessoas foram torturadas, sob a acusação de bruxaria, sendo que 40 mil a 60 mil foram executadas. A bruxaria sempre foi envolta por mistério e preconceito, medo e fascínio. Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander reúnem, em um único livro, a história da bruxaria desde a feitiçaria antiga até os movimentos neopagãos atuais. Lançado pela Editora Goya, agora parte da Aleph, o livro é um guia para os apaixonados pelos mitos e verdades acerca das bruxas e da bruxaria.

Quer saber mais sobre esse lançamento incrível? Então confira a resenha de História da Bruxaria!

"Da feitiçaria antiga aos recentes movimentos neopagãos, a história da bruxaria está nas entrelinhas da própria História. As bruxas são um estereótipo duradouro e mutável na mentalidade coletiva.

Sua tradição, repleta de perseguições e reviravoltas, tem uma trajetória silenciosa, mas não por isso menos verdadeira e devastadora. História da Bruxaria é o mais abrangente estudo sobre o tema, e o discute de forma lúcida e estimulante, sob diferentes perspectivas.

Os autores examinam a gênese, o auge e o declínio da caça às bruxas e revelam como a bruxaria sobreviveu, ressurgiu, se reciclou e atua na sociedade contemporânea."


FICHA TÉCNICA
Título
: História da Bruxaria
Autores: Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander
Páginas: 280
Ano: 2019
Editora: Goya
Nota: 4
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA




Uma mulher montada em uma vassoura com um chapéu pontudo e um gato preto em seu encalço. Uma idosa com aparência maléfica. Uma jovem sedutora que esconde um pacto com o demônio. Uma seita de pessoas adoradoras de Satã. Esses e outros estereótipos fazem parte do imaginário popular há séculos. A bruxaria sempre foi envolta por muito preconceito e receio, e muitos têm uma imagem hollywoodiana de como seria uma bruxa "de verdade".

História da Bruxaria é um livro que desmistifica a forma como entendemos a bruxaria e seus praticantes. Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander trazem um relato histórico bem completa que ajuda a entender melhor o que há por trás de uma narrativa que atravessa os séculos.


Um dos principais objetivos do livro é trazer informações precisas, incluindo conceitos. Os autores começam o livro apresentando a diferença entre dois conceitos-chave: feitiçaria e bruxaria. Além disso, eles fazem uso de lendas e mitos para ajudar a contar a história de como a bruxaria se tornou motivo para medo e preconceito, até culminar em uma caça às bruxas sanguinária e aterrorizante, cujos reflexos podem ser percebidos até hoje no imaginário popular. Seguindo nesse raciocínio, eles também mencionam a criação do Halloween.

Um ponto interessante abordado por Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander diz respeito à associação entre bruxaria e religião e como isso foi um dos motivos determinantes para a inquisição durante a Idade Média. A caça às bruxas ganha destaque em determinados momentos do livro e é interessante ler a respeito desse frenesi de uma forma mais objetiva e quase filosófica. História da Bruxaria também apresenta e estabelece as diferenças entre a bruxaria na Europa continental, Grã-Bretanha, América do Norte e colônias inglesas, há séculos.  História da Bruxaria é um livro quase acadêmico do ponto de vista da linguagem.


Além das menções históricas e explicações a respeito de conceitos envolvendo a bruxaria, um ponto levantado pelos autores me chamou a atenção e acredito que poderia render um livro apenas sobre isso. Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander mencionam o fato de as bruxas serem vistas majoritariamente como mulheres. É praticamente impossível associarmos homens à bruxaria de forma tão instantânea como é feito com as mulheres. Apesar de o conceito de bruxa ter atravessado os séculos e ter se transformado, sendo redefinido e visto até mesmo como um termo empoderador em determinados contextos, o fato de a bruxaria ser vista como algo quase unicamente feminino é carregado de machismo e misoginia.

“A razão pela qual a bruxaria era praticada predominantemente por mulheres, asseverou Institoris, é que elas são mais estúpidas, volúveis, levianas, mais frágeis e mais carnais que os homens.” página 102

História da Bruxaria levanta até mesmo a provocação de que mesmo que as bruxas sejam vistas majoritariamente como mulheres, o diabo, figura comumente associada à bruxaria, é um homem. Isso porque, mesmo que seja a representação do mal, uma divindade só poderia ser masculina, enquanto seus servos e submissos, as bruxas, são mulheres. Essa é apenas mais uma das formas explícitas de misoginia que moldaram a história da humanidade.


História da Bruxaria tem um foco bem interessante na bruxaria moderna. É interessante pensar que existem pessoas que têm a bruxaria como uma religião Nos dias de hoje. A bruxaria é algo tão envolto por preconceitos e estereótipos que parece quase impossível acreditar que ela se mostra presente em pleno século 21. Apesar de compartilharem o mesmo nome, existe uma grande diferença entre a bruxaria antiga e a moderna/contemporânea, chamada de neopagã e isso é abordado também.
É interessante perceber como diversos elementos da contemporaneidade contribuem para que a bruxaria continue sobrevivendo e se adaptando à modernidade. Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander apresentam o início da relação da bruxaria com a política feminista e citam até mesmo a contribuição da internet para a bruxaria moderna e como ela aproxima indivíduos.

“A bruxaria transforma culpa em desgraça partindo de uma força abstrata e inescrutável para uma força identificável, punível e individualizada.” página 136

Por mais que História da Bruxaria seja um livro denso e com muito conteúdo histórico, a diagramação repleta de ilustrações ajuda a deixar a leitura mais fluida e a escolha de fontes também tira um pouco do peso de um livro que se remete bastante aos títulos acadêmicos. Entretanto, a escrita cheia de referências pode deixar a leitura um pouco menos fluida em determinadas partes do livro. Essas referências, no entanto, podem ser usadas para aprofundar os estudos do tema para aqueles que se interessarem.


História da Bruxaria é um livro enriquecedor, que ajuda a ampliar o diálogo a respeito da bruxaria moderna e mostrar novos pontos de vista a respeito de um capitulo tão conhecido da história da humanidade. Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander trazem um livro acessível e rico, para aqueles que procuram entender mais a fundo a história da bruxaria e para quem quer saber mais sobre uma ancestralidade que sobrevive.

Gostou da resenha e quer mais uma indicação de leitura? Então leia a resenha de Medicina dos Horrores!

“A feitiçaria ainda persiste; a bruxaria diabólica encontra-se essencialmente morte; os bruxos modernos criaram uma nova religião. A bruxaria não é um conceito coerente, mas um termo que abrange grande variedade de fenômenos frouxamente interligados. Mas a magia conserva seu apelo, e a bruxaria não desaparecerá tão cedo desta Terra” página 246



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15:39 No comments

Você já quis poder sair da sua vida só para poder observá-la de longe, de fora? Flores para Algernon relata a experiência de um homem, ao sair de si, “experienciar” a vida de uma forma completamente diferente daquela que ele já estava acostumado, longe de tudo o que ele conhecia. Então ele consegue, como se fosse outra pessoa diferente, refletir sobre sua própria vida, sobre as pessoas que fizeram parte de sua infância como a mãe, o pai e a irmã, as pessoas que fazem parte de sua vida no presente, e sobre ele próprio, quem ele é e o que ele poderia ser.

Quer entender melhor a profundidade que esse lindo incrível guarda? Então confira a resenha de Flores para Algernon!

"Aos 32 anos, Charlie trabalha na padaria Donners, ganha 11 dólares por semana e tem 68 de QI. Porém, uma cirurgia revolucionária promete aumentar a sua inteligência, considerada gravemente baixa. O problema? Enxergar o mundo com outros olhos e mente pode trazer sacrifícios para a sua própria realidade. E resta saber se Charlie Gordon está disposto a fazê-los."



FICHA TÉCNICA
Título
: Flores para Algernon
Autor: Daniel Keyes
Ano: 2018
Páginas: 288
Idioma: Português
Editora: Aleph
Nota: 4,5/5
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA




Flores para Algernon narra a experiência de Charlie Gordon ao ser submetido a uma cirurgia que promete aumentar o QI do paciente. Como ele sofre de uma deficiência mental séria, é visto pelos cientistas como o candidato humano perfeito para seguir o procedimento realizado inicialmente em Algernon, um rato de laboratório que desempenha um papel importante na construção da narrativa.

"Uma das coisas que me confunde quando surge algo do meu passado é nunca saber se aquilo realmente aconteceu daquela maneira, se aquela era a maneira que parecia para mim naquele momento ou se estou inventando. Sou como um homem que passou a vida inteira semiadormecido, tentando descobrir como ele era antes de acordar. Tudo está estranhamente borrado e em câmera lenta." Página 82


O livro é todo escrito por meio dos relatórios de progresso que Charlie, como cobaia do experimento, precisa ir preenchendo diariamente. Ou seja, é um livro escrito na forma de diário e esse foi o melhor recurso narrativo que o autor poderia ter escolhido. Um narrador onisciente ajuda a ampliar as percepções de determinada realidade e enredo. Entretanto, o objetivo da história é mostrar para o leitor as experiências através dos olhos de Charlie.

Ao optar por uma narrativa de diário, o leitor tem mais acesso às sensações e percepções do protagonista e, principalmente, ao seu progresso. O desenvolvimento de Charlie começa de maneira tão sutil e vai se tornando mais intensa e isso é perceptível para o leitor. Essa escolha narrativa foi perfeita para a proposta do livro e para a própria experiência do leitor, que se envolve mais, entende melhor tudo o que Charlie passa e ainda faz a leitura fluir bem melhor.


Ao mesmo tempo em que Daniel Keyes mostra a inocência e o pensamento genuíno de uma criança e sua forma de “experienciar” o mundo, ele traz os impulsos e questionamentos que vêm com o amadurecimento. É um choque de realidades de um homem que sempre teve um determinado filtro sobre os olhos e que de repente precisa se acostumar com outra realidade que o enxerga e o trata de forma diferente.

É muito interessante observar a relação do protagonista com “Charlie”, como se fossem duas pessoas diferentes. A própria forma como ele fala do seu “eu anterior” demonstra certo descaso e deboche, ao mesmo tempo em que ele tem medo da sombra de quem era e busca se proteger das pessoas que fizeram mal ao Charlie menos inteligente. Ele não aceita ouvir que foi criado porque acredita que não é possível varrer o passado, mas não consegue sentir que ele e aquele Charlie são a mesma pessoa.

"Essa inteligência tinha gerado uma cisão entre mim e todas as pessoas que conhecia e amava, me arrancando da padaria. Agora, estou mais sozinho que nunca. Eu me pergunto o que aconteceria se colocassem Algernon de volta na gaiola grande com alguns dos outros ratos. Eles se voltariam contra ele?" Página 104


A conexão extremamente perturbada com Rose, sua mãe, também se faz presente ao longo de todo o texto e mostra como isso reflete na sua relação com as mulheres. Seja na maneira como ele via o sexo feminino quando era mais novo e ainda vivia sob o teto dos pais, seja na forma como ele, depois do experimento e já adulto, se relaciona com outras mulheres.

Outro ponto que chama a atenção no livro é a relação de Charlie com Algernon, o rato, e como ele vê o rato como um companheiro de experimento, alguém que entenderia exatamente o que ele passa. Algernon se revela como um espelho de quem Charlie se tornou. Ele também se liga emocionalmente ao rato e vê tudo o que acontece com o bichinho como um presságio do que pode acontecer a ele mesmo. São detalhes sutis, jogados ao longo do texto com delicadeza.

"Tenho de perceber que, quando eles continuamente me incomodam para falar e escrever apenas para que as pessoas lessem esses relatórios me entendam, eles falam de si mesmos também. Mas é assustador compreender que meu destino está nas mãos de homens que não são os gigantes que um dia imaginei, homens que não têm todas as respostas." Página 145


Flores para Algernon também traz reflexões sobre real x imaginário, passado x percepção do presente x construção de um futuro, inteligência x retardo, e até mesmo sobre a forma como lidamos com o diferente, debochando daquilo que nos parece inferior e hostilizando o que foge à compreensão. É um livro que nos faz olhar para dentro também, nos coloca na posição de expectadores, com um belo gostinho do que seria ser protagonista de uma história que não é sua.

É um livro que também fala muito sobre possibilidades. Aborda a possibilidade de ser uma pessoa diferente, a possibilidade de uma vida que ele poderia ter tido, a possibilidade de vínculo com as pessoas, a possibilidade de ter um outro presente e outro futuro, a possibilidade de consertar o passado de alguma forma etc. É um livro que aborda essa questão de maneira sutil, mas poderosa, com o protagonista tendo que enfrentar, também, a possibilidade de perder tudo aquilo que ele nem sabia que poderia ter.


É um livro com diversas camadas. Além das referências em alguns momentos pontuais da narrativa, o livro em si também se remete ao mito da caverna de Platão, com Charlie sendo agraciado com o dom da sabedoria e o privilégio de poder sair de si para ver o mundo tal qual ele realmente é.

O livro foi publicado originalmente em 1959, mas mesmo assim é possível vê-lo como uma narrativa extremamente atual e muito bem colocada no contexto que vivemos. Como o livro trata te questionamentos pessoais e universais, é difícil não se identificar com o protagonista e toda a ambientação. A própria busca pela perfeição nunca esteve tão em alta e trabalhá-la na forma de uma ficção científica como Flores para Algernon é revigorante e acolhedora.


Flores para Algernon é um livro bem delicado, que explora assuntos complexos nos detalhes, de maneira bem sutil. É um livro que pode muito bem servir como entretenimento rápido, porque seu formato, linguagem e enredo contribuem para isso, como também pode despertar sentimentos diversos no leitor. Foi uma leitura que havia me deixado ansiosa e que me surpreendeu muito positivamente. Um livro para ler, reler e refletir.

E aí? Gostou da resenha? Então não deixe de conhecer também a resenha de A Cor Púrpura!

"Que estranho é o fato de pessoas de sensibilidade e sentimentos honestos, que não tirariam vantagem de um homem que nasceu sem braços ou pernas ou olhos, não verem problema em maltratar um homem com pouca inteligência. Enfureci-me ao lembrar que não fazia muito tempo que eu, com esse garoto, tinha sido o tolo que fazia o papel de palhaço." Página 185



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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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