Resenha: Minha coisa favorita é monstro

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As melhores leituras são aquelas que nos pegam de surpresa e nos deixam encantados por novos enredos, cenários e personagens. Minha Coisa Favorita é Monstro faz exatamente isso ao trazer, pelos olhos de uma jovem menina, uma nova maneira de enxergar o mundo e as pessoas. Uma HQ importantíssima para o gênero e uma leitura incrível!

Quer saber o que essa HQ tem de tão essencial? Então confira a resenha de Minha Coisa Favorita é Monstro!

"A história de um assassinato misterioso, um drama familiar, um épico histórico e um extraordinário suspense psicológico sobre monstros — reais e imaginados. A história em quadrinhos mais impactante desde Maus.
Com o tumultuado cenário político da Chicago dos anos 1960 como pano de fundo, Minha Coisa Favorita é Monstro é narrado por Karen Reyes, uma garota de dez anos completamente alucinada por histórias de terror. No seu diário, todo feito em esferográfica, ela se desenha como uma jovem lobismoça e leva o leitor a uma incrível jornada pela iconografia dos filmes B de horror e das revistinhas de monstro.
Quando Karen tenta desvendar o assassinato de sua bela e enigmática vizinha do andar de cima — Anka Silverberg, uma sobrevivente do Holocausto — assistimos ao desenrolar de histórias fascinantes de um elenco bizarro e sombrio de personagens: seu irmão Dezê, convocado a servir nas forças armadas e assombrado por um segredo do passado; o marido de Anka, Sam Silverberg, também conhecido como o jazzman “Hotstep”; o mafioso Sr. Gronan; a drag queen Franklin; e Sr. Chugg, o ventríloquo.
Num estilo caleidoscópico e de virtuosismo estonteante, Minha Coisa Favorita é Monstro é uma obra magistral e de originalidade ímpar."

FICHA TÉCNICA


Título: Minha coisa favorita é monstro
Autora: Emil Ferris
Ano: 2019
Páginas: 416
Idioma: Português
Editora: Quadrinhos na companhia
Nota: 5/5 
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


Minha Coisa Favorita é Monstro é uma HQ que me pegou desprevenida. Com o assassinato de uma vizinha de Karen, nossa protagonista, a história em quadrinho narra as reflexões e pensamentos de uma jovem deslocada e incompreendida, obrigada a encarar uma realidade hostil e pouco acessível.

De forma sutil, a HQ contextualiza a Chicago dos anos 60 e o fluxo migratório que a cidade sofreu. Fala sobre os diferentes tipos de pessoas que frequentam a Broadway e Uptown. Fala sobre a época de ouro dos filmes mudos em Chicago e sobre a vida boêmia da cidade em meados do século passado. Ao se referir à prostituição, por exemplo, a jovem protagonista usa a expressão “máquina da noite”. Por morar em um prédio considerado como “mal frequentado” pela elite da época, ela tem contato com os mais diversos tipos de pessoas e cotidianos, incluindo indivíduos ligados à máfia. Devido ao contexto da época e às condições de sua família, a pequena Karen tem contato com mais do que uma criança deveria ter, o que é responsável por alterar a sua percepção da realidade e ajuda a moldar a personagem, suas escolhas e visões.


É um mundo caótico e sobrenatural observado pelos olhos de uma criança. Alguns pensamentos nos relembram da idade da protagonista e de onde ela fala, como por exemplo “se a pessoa conseguisse enxergar por olho de vidro, o mundo ia ficar mais quebradiço?”

É um diário ilustrado. Todas as páginas contém fluxos de pensamentos de Karen, nossa protagonista, e narram seus dias de forma ilustrada. O único contato com o mundo em questão é pelos olhos dela, é o que nossa protagonista permite que conheçamos.


Minha Coisa Favorita é Monstro carrega uma carga emocional pesadíssima e isso se reflete nos traços. Por ser narrado por uma criança, pode se ter a impressão de seria uma história mais leve e divertida. Entretanto, ela trata de temáticas como assassinato, investigação, sexo, abuso, violência, sexualidade reprimida, além de relatar momentos inesquecíveis da história da humanidade como o holocausto, na pele de uma das personagens da história. O assassinato de J.F. Kennedy e de Martin Luther King também ajudam a apresentar o pano de fundo da realidade vivida pelos personagens e o contexto histórico que dita o tom da narrativa.

É nessa hora que os traços de Emil Ferris ganham uma profundidade ainda maior. Não bastasse os desenhos que imitam rabiscos com canetas esferográficas carregarem tanta emoção e serem uma obra de arte por si só, eles ainda guardam sutilezas que dão um toque ainda mais denso à narrativa. Ao contrário de muitas HQs, as artes de Minha Coisa Favorita é Monstro não servem apenas para ilustrar o que é narrado na história, elas contêm narrativas próprias. Não é à toa que a autora demorou 5 anos para terminar de escrever e ilustrar essa HQ.



Algumas HQs guardam uma profundidade bem maior do que damos crédito a elas e Minha Coisa Favorita é Monstro é um exemplo disso. Quando a protagonista retrata seus quadros favoritos, por exemplo, parece apenas um relato de seus passeios com o irmão aos museus, mas ela mostra, com a delicadeza de uma criança, como a arte passou a ganhar significados mais profundos para a menina. Por meio da arte, ela começa a aprender a ouvir, sentir e cheirar com o tato.

Sua forma de ver o mundo se transforma e isso influencia na maneira como ela o percebe e o retrata. Ela passa a recriar os quadros famosos que tomavam conta de seu imaginário em seu caderno de pauta, fazendo releituras únicas, com reflexões próprias.

A forma de ilustrar o semblante dos personagens já mostra a profundidade de algumas reflexões que Emil Ferris quer mostrar de forma implícita e a carga emocional que ela quer passar.


Emil Ferris também faz diversas referências a obras de artes famosas, inclusive recordando quadros e pinturas conhecidíssimas para mostrar a influência da arte na vida de Karen, nossa jovem protagonista. A recriação dessas artes é um espetáculo por si só, mas a maneira como Ferris consegue mesclar essas homenagens a grandes artistas com a influência na vida da personagem é um bônus.

A divisão das partes ou capítulos é feita com a capa de histórias de quadrinhos dedicadas ao sobrenatural e ao mundo dos monstros. Então além de apreciar as ilustrações de Ferris dentro do contexto de Minha Coisa Favorita é Monstro, ainda somos agraciados com ilustrações de capas de revistinhas que dão um toque a mais para um quadrinho que já se mostra importantíssimo para o gênero.


A HQ é toda desenhada como se tivesse sido feita com canetas esferográficas e em folhas de caderno. É possível ver as pautas, os buracos do papel e as ilustrações se mesclam com essas páginas. No começo, inclusive, uma parte é feita em cima de uma prova.

A escolha das figuras de monstros para essa narrativa me deixou intrigada ao longo de toda a leitura. Karen escolhe esses seres porque são os que ela se identifica: renegados, incompreendidos e temidos, características que ora ela representa, ora ela queria representar. Tanto que ao longo de toda a história ela bate na tecla de que esta esperando um monstro mordê-la para que ela possa se transformar logo. Ela também apresenta uma dualidade interessante entre os monstros bons e os monstros ruins. Isso pode ser bem explicado em trechos específicos e na forma como ela divide essas duas categorias com base nas ações de alguns personagens.


Minha Coisa Favorita é Monstro não foi uma HQ que consegui devorar de uma vez. Enquanto geralmente leio histórias em quadrinhos em um ou dois dias, precisei dedicar uma semana à criação de Emil Ferris. Não apenas pela complexidade do que cada ilustração guarda e por todo o contexto denso da narrativa, mas também pela carga emocional que a história carrega e pelas sutilezas escondidas em casa quadrinho.

Minha Coisa Favorita é Monstro é uma HQ poderosíssima porque ela consegue fazer críticas fortes e certeiras de maneira sutil. É quase como se Emil Ferris jogasse questões ao longo de toda a narrativa, seja em devaneios de Karen, a protagonista, seja em diálogos de outros personagens, que acabaram sendo ouvidos pela “monstrinha”, ou até mesmo escondidas nas ilustrações.


Vez ou outra aparece uma HQ que mostra a importância dos quadrinhos para a literatura, como forma de expressão artística e como conteúdo literário imprescindível. Minha Coisa Favorita é Monstro me surpreendeu de forma extremamente positiva e me fez relembrar como os quadrinhos guardam tantas camadas por trás dos traços dos artistas.

Minha Coisa Favorita é Monstro é uma HQ maravilhosa para quem é fã do gênero e é um bom começo para quem se interessa em ler mais quadrinhos. Uma leitura densa, profunda e extremamente relevante, para entreter e refletir. Um tesouro.

Gostou das minhas impressões a respeito de Minha Coisa Favorita é Monstro e quer conhecer outra HQ incrível? Então confira a resenha de Mulheres na Luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade!











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1 comentários

  1. Gostei MUITO do visual desse quadrinho! É completamente diferente de tudo que já li. Espero que publiquem mais obras dessa autora =D

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