Resenha: Circe

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Circe é uma releitura corajosa e atual da trajetória de Circe, a poderosa – e incompreendida – feiticeira da Odisseia de Homero. Considerada a melhor fantasia do Goodreads de 2018, o livro de Madeline Miller é um presente para os fãs de mitologias e abre as portas para um universo novo e rico.

Quer saber mais sobre essa história? Então confira a resenha de Circe !

"Na casa do grande Hélio, divindade do Sol e o mais poderoso da raça dos titãs, nasce uma menina. Circe é uma garotinha estranha: não parece ter herdado uma fração sequer do enorme poder de seu pai, muito menos da beleza estonteante de sua mãe, a ninfa Perseis. Deslocada entre deuses e seus pares, os titãs, Circe procura companhia no mundo dos homens, onde enfim descobre possuir o poder da feitiçaria, sendo capaz de transformar seus rivais em monstros e de aterrorizar os próprios deuses. 
Sentindo-se ameaçado, Zeus decide bani-la a uma ilha deserta, onde Circe aprimora suas habilidades de bruxa, domando perigosas feras e cruzando caminho com as mais famosas figuras de toda a mitologia grega: o engenhoso Dédalo e Ícaro, seu filho imprudente, a sanguinária Medeia, o terrível Minotauro e, é claro, Odisseu. 
E os perigos são muitos para uma mulher condenada a viver sozinha em uma ilha isolada. Para proteger o que mais ama, Circe deverá usar toda a sua força e decidir, de uma vez por todas, se pertence ao reino dos deuses ou ao dos mortais que ela aprendeu a amar. Personagens vívidos e extremamente cativantes, aliados a uma linguagem fascinante e um suspense de tirar o fôlego, fazem de Circe um triunfo da ficção, um épico repleto de dramas familiares, intrigas palacianas, amor e perda. Acima de tudo, é uma celebração da força indomável de uma mulher em meio a um mundo comandado pelos homens."

FICHA TÉCNICA

Título: Circe - Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens.
Autora: Madeline Miller
Ano: 2019
Páginas: 368
Idioma: Português
Editora: Minotauro (Planeta de Livros)
Nota: 4/5 
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


A Odisseia narra a história de Odisseu, ou Ulisses, como ficou conhecido por aqui, que depois de passar 10 anos na Guerra de Troia, leva mais 17 para voltar para casa, passando por diversas aventuras e obstáculos no caminho, incluindo um encontro com a deusa Circe. 

Na mitologia grega, Circe é uma feiticeira, conhecida como bruxa e especialista em venenos e drogas. Além da participação na Odisseia, Circe também já apareceu em adaptações como Percy Jackson e os Olimpianos, no universo da DC Comics e até mesmo em uma das figurinhas de Bruxos e Bruxas Famosos de Harry Potter e a Pedra Filosofal. 


Em Circe, o livro, temos uma releitura mais profunda e completamente voltada para a protagonista incompreendida. Madeline Miller aprofunda a história de uma das personagens mais icônicas da mitologia, trazendo novas camadas e presenteando o leitor com uma narrativa envolvente e rica.

Mesmo conhecendo alguns dos personagens que aparecem ao longo da história, confesso que tinha pouco conhecimento a respeito do mito da deusa Circe. Isso foi positivo porque ajudou a me sentir mais ligada à personagem, consegui criar mais conexões com ela por imaginá-la como uma mulher que, no fundo, é como todas nós: uma chama que busca seu fogo em um mundo de homens e carrascos. 

"A casa era grande o bastante para acomodar uma dúzia de deusas, e eu realmente continuava esperando encontrar ninfas e primos a cada curva. Mas não, isso era parte do meu exílio. Ficar absolutamente sozinha. Que pior punição poderia existir, minha família pensava, do que eu ser privada de sua presença?" Página 74

Acompanhar a história de Circe é como acompanhar uma jornada. É interessante observar que existe um forte paralelo entre a jornada de Odisseu, na Odisséia, e a de Circe, no livro que leva seu nome. Existem vários elementos que se encontram e a característica marcante de trazer várias aventuras e obstáculos na jornada do herói faz referência a um dos maiores (se não o maior) clássico da literatura. 


Vários dos personagens que aparecem ao longo da história podem parecer familiar ao leitor, como o próprio Odisseu, deuses como Atena, Hélio, Possêidon, e muitas outras figuras mitológicas que ajudaram a enraizar esses nomes no imaginário popular.

A linha do tempo da história é pouco delimitada e, como ela é uma deusa, ou seja, imortal, o livro narra alguns momentos-chave de sua vida, sem se preocupar em delimitar o tempo. Vários acontecimentos, inclusive, acontecem em espaços de tempo generosos. Alguns dos seres humanos que ela conhece ao longo da narrativa nasceram muitos anos depois de pessoas que ela havia convivido anteriormente. 

Existe uma relação da passagem do tempo com o amadurecimento da personagem que também pode ser percebida de forma bem explícita. Como ela precisa se despedir o tempo inteiro dos mortais, que são as criaturas que ela consegue se identificar e criar vínculos, mesmo que temporários, Circe é obrigada a amadurecer e absorver um entendimento de mundo maior do que os próprios deuses que se consideram superiores a todas as outras criaturas. 


A questão da arrogância dos deuses e titãs, que brincam com as vidas dos seres humanos e de outras criaturas, também é pontuada ao longo de todo o livro para se contrapor à personalidade de Circe, renegada por todos, como deusa, como filha, como igual, como mulher. 

"Deixe-me dizer o que a magia não é: não é poder divino, que vem com um pensamento e um piscar de olhos. Deve ser feita e trabalhada, planejada e procurada, desenterrada, secada, fatiada e moída, cozinhada, encantada e cantada. Mesmo depois de tudo isso, pode falhar, ao contrário dos deuses." Página 78

É nesse ponto que Circe se torna uma narrativa extremamente impactante do ponto de vista da força feminina e sobre o que é ser mulher nesse contexto. Mesmo não sendo um livro que promete levantar a bandeira do feminismo, podemos perceber algumas características de forma bem marcante, tanto na busca por sua independência e autonomia, quanto descoberta de quem é e do papel que quer desempenhar no mundo.


Circe transita nas construções do que é ser mulher e do que é esperado de uma mulher: meiga, submissa, raivosa, sensual, inteligente, sensitiva, benevolente e infinitas facetas femininas e poderosas. Circe pode ser visto como um livro feminista porque serve como metáfora para o desenvolvimento da mulher ao entrar em contato com sua força interior. É nesse momento também que se deixa claro a referência da bruxaria e da relação com o feminismo.

Classificar mulheres como bruxas sempre foi uma forma de tentar diminuí-las e de colocar um aspecto negativo e maléfico sobre tudo o que foge do que se espera de uma mulher. Há alguns séculos, a caça às bruxas representou exatamente a perseguição a toda e qualquer mulher que desviasse dos padrões e normas de conduta, e de tudo aquilo que os homens não conseguissem entender ou explicar. Circe, por exemplo, sempre se mostrou curiosa, benevolente, sábia e astuta, mesmo em meio a um ambiente tóxico aos pés de outros deuses e titãs. É interessante ver como Madeline Miller escolhe justamente uma feiticeira mitológica para representar o desenvolvimento e descoberta do poder de uma mulher. É como um romance de formação que traz a mitologia para o século XXI. 


A edição do livro, pela Minotauro, está um luxo. Com uma capa metálica, que combina perfeitamente com a filha do Sol, todo o design contribui para presentear o leitor com um livro digno. A diagramação é simples, sem muitos exageros, mas é elegante e permite uma leitura fluida. Até mesmo detalhes que geralmente não nos atentamos se sobressaem, como a paginação, por exemplo. 

O exemplar enviado pela editora ainda veio em uma caixa linda, com uma coroa de louros em alto relevo, alguns marcadores do livro, um tecido delicado e brilhante, que combina com o tom metálico da capa, um saquinho com algumas folhas para fazer chá e, claro, um exemplar do livro. 


Circe é uma história extremamente rica, que alia todas as características de uma boa narrativa, com referências a um dos maiores clássicos da literatura, ao mesmo tempo em que trabalha uma protagonista que é mais importante do que o enredo em si. É uma história perfeita para os fãs de mitologias e serve como referência de releitura, que repagina uma história já muito conhecida de forma inédita. Uma pedida para todos os leitores que buscam um livro ousado, divertido e poderoso.

Gostou da indicação e gostaria de conhecer outra releitura com viés feminista? Então confira a resenha de A Pequena Sereia & O Reino das Ilusões!

"Então aprendi que podia curvar o mundo à minha vontade, como um arco é curvado para uma seta. Eu teria praticado toda aquela labuta mil vezes para manter esse poder em minhas mãos. Eu pensei: é assim que Zeus se sentiu quando empunhou seu raio pela primeira vez." Página 79


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