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Nostalgia Cinza


Depois de Canção de Ninar, Leïla Slimani retorna com mais um lançamento capaz de tirar da zona de conforto até o leitor mais "preparado". No Jardim do ogro é um romance visceral sobre um corpo escravizado por seus impulsos, representado pela história de uma mulher e sua sexualidade. Uma leitura impactante e intensa, para tirar seu fôlego e te deixar com um nó na garganta.

"Adèle tem a vida perfeita: é uma jornalista de sucesso em Paris, onde vive com seu marido cirurgião e seu filho pequeno em um lindo apartamento. Mas, debaixo da superfície, ela está entediada com seu trabalho e seu casamento – e consumida por uma necessidade insaciável de sexo a qualquer custo. Movida menos pelo prazer que pela compulsão, ela organiza seu dia em torno de casos extraconjugais, chegando atrasada ao trabalho e mentindo para o marido, até se enredar definitivamente em sua própria armadilha. No jardim do ogro é um romance visceral sobre um corpo escravizado por seus impulsos, o vício sexual e suas consequências implacáveis."

FICHA TÉCNICA
Título
: No Jardim do Ogro
Autora: Leïla Slimani
Páginas: 192
Ano: 2019
Editora: Tusquets (Planeta de Livros)
Nota: 4
Compre: Amazon
Comprando por esse link você ajuda e incentiva o Nostalgia Cinza
LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA

Não recomendado para menores de 18 anos





Se tem algo que aprendi desde Canção de Ninar é que é impossível se manter indiferente ao ler um livro de Leïla Silmani. A autora tem uma habilidade ímpar de trazer algumas das características mais incômodas da personalidade das pessoas para seus personagens. Ela sabe como criar um enredo que cutuca nas feridas do leitor e o desperta para aquilo que ela busca tratar. Leïla Silmani, tanto em Canção de Ninar, quanto em No Jardim do Ogro, fala sobre pessoas aparentemente normais, com uma reviravolta que as devolve para a ficção, sem perder a verossimilhança de uma narrativa poderosa e impactante.

"Faz uma semana que ela aguenta. Uma semana que ela não cedeu. Adèle comportou-se. Em quatro dias, correu trinta e dois quilômetros. [...] Mas, esta noite, ela sonhou e não conseguiu dormir de novo. Um sonho úmido, interminável, que se introduziu  nela como um sopro de ar quente. Adèle só consegue pensar nisso." Página 7


No Jardim do Ogro tem como protagonista Adèle, uma mulher com uma carreira sólida, com um núcleo familiar estabelecido, personalidade forte e aparência física atraente. Apesar de ter uma vida aparentemente perfeita, Adèle sobre com um transtorno banalizado e romantizado com frequência: a ninfomania. O desejo sexual hiperativo é um transtorno psiquiátrico que faz com que a pessoa tenha um desejo sexual compulsivo, que pode afetar seus relacionamentos, seu trabalho e sua família. Todos esses elementos são trabalhados com clareza à medida que o leitor vai conhecendo mais da rotina de Adèle e com o desenvolvimento da narrativa.

A princípio pode parecer difícil desvincular o comportamento de Adèle de seu caráter. Entretanto, ao mostrar o poder de um transtorno psiquiátrico, Leïla Slimani carrega o leitor por uma história de sofrimento, tortura e escravidão causada por impulsos. No Jardim do Ogro é um livro visceral, sem filtros ou amarras. A forma como Adèle é exposta é desconfortável e, mesmo sendo uma obra de ficção, o contato tão cru com a personagem torna a leitura extremamente rica, mesmo que seja intensa.


É difícil se sentir conectado à protagonista por causa de sua doença, mas esse é justamente um dos pontos altos do livro. Ao tirar o leitor de sua zona de conforto de forma tão impactante, é preciso criar uma empatia para com a protagonista e vê-la como humana, como uma mulher perdida em seus próprios impulsos.

Adèle vê esse comportamento como aquilo que a define. Ela não consegue se desvincular de sua compulsão sexual e a rotina que estabeleceu com base nesses impulsos inegáveis. Então por mais que ela perceba todos os problemas e erros envolvidos em suas atitudes, ao afetar as pessoas ao seu redor, renunciar a esse padrão seria renunciar a si mesma e ela não sabe quem é sem essa bagagem.

"Você não se pronuncia, então não reclame por eu tomar decisões. E, sinceramente, não sei por que você precisa se comportar assim. Se embriagar, falar com superioridade como se entendesse tudo da vida e como se fôssemos só um bando de ovelhas estúpidas aos teus olhos. Sabe, você é tão ordinária quanto nós, Adèle. O dia em que você aceitar isso, será muito mais feliz." Página 52


A escrita da autora é algo que me conquistou desde Canção de Ninar. Assim como no seu livro de estreia, em No Jardim do Ogro Leïla Slimani faz uso de poucos diálogos e opta por trabalhar a psique de seus personagens da forma mais intensa possível. Mesmo sem escrever livros grandes - tanto Canção de Ninar quanto No Jardim do Ogro têm menos de 200 páginas - as histórias de Slimani são profundas, bem escritas e exploradas de maneiras bem interessantes. É impossível se manter neutro e imparcial e essa inquietação atribui uma riqueza aos seus livros.


No Jardim do Ogro é um livro difícil de largar. Li o livro todo de uma vez e confesso que ele deixou marcas em mim mesmo quando passei a última página. Mergulhar de cabeça na confusão e nos delírios de uma mulher observada por si mesma e pela adrenalina de se encontrar no prazer sexual de outros homens não é algo fácil. É uma leitura que te prende pela intensidade e não pela forma como você se sente ao ler o livro.

No Jardim do ogro é um livro profundo, intenso e perturbador. Não é uma leitura recomendada para qualquer leitor e acredito que seja preciso estar preparado para o que vai encontrar nas páginas de No Jardim do Ogro. Leïla Slimani sabe trabalhar com maestria todas as nuances da mente humana em seus momentos mais perturbadores e a leitura pode acabar disparando alguns gatilhos no leitor mais sensível à temática abordada.

Gostou do livro e quer conferir outro livro da autora? Então conheça Canção de Ninar!

"Ela teria vomitado sobre esses dias intermináveis, estado apenas juntos, alimentando-se uns aos outros, olhando-se dormir, disputando a banheira, procurando ocupações. Os homens a tiraram da infância. Extirparam-na dessa idade lamacenta, e ela trocou a passividade infantil pela lascívia das gueixas." Página 109


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09:51 No comments


Canção de Ninar é um daqueles livros que causam um impacto desde a primeira página. O livro de estreia de Leïla Slimani foi vencedor do Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário francês, e vem dando o que falar desde então. Escolhido em clubes de leitura, comentado por influenciadores e ganhando espaço na estante dos leitores, Canção de Ninar é um thriller curte, mas impactante.

Quer saber mais sobre o livro de estreia de Leïla Slimani? Confira a resenha de Canção de Ninar!

"Quem cuida dos seus filhos quando você não está olhando? Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde. Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de Ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos entre classes e culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade. Publicado em mais de 30 países e com mais de 600 mil exemplares vendidos na França, Canção de Ninar fez de Leïla Slimani a primeira autora de origem marroquina a vencer o Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário francês."

FICHA TÉCNICA
Título: Canção de ninar
Autora: Leïla Slimani
Páginas: 192
Ano: 2018
Editora: Tusquets Editores (Planeta de Livros)
Nota: 4
Compre: Amazon
Comprando por esse link você ajuda e incentiva o Nostalgia Cinza
LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA




Canção de Ninar tem um dos começos mais impactantes dos últimos tempos. Logo na primeira página somos apresentados ao assassinato de duas crianças de forma explícita e brutal. Assim que esse primeiro capítulo é encerrado, o leitor é convidado a voltar no tempo e acompanhar a rotina tranquila e absolutamente banal de um casal de classe média em Paris. É desconcertante ter contato com esses extremos logo de cara e isso altera o ritmo da narrativa ao mesmo tempo, ajuda a construir uma expectativa constante que se estende por todo o livro.

"A babá é como essas silhuetas que, no teatro, mudam no escuro os objetos de uma cena. Elas tiram um divã, empurram uma coluna de papelão com a mão, assim como um painel de parede. Louise se move nas coxias, discreta e poderosa. É ela quem segura os fios transparentes sem os quais a magia não pode acontecer. Ela é Vishnu, divindade mantenedora, ciumenta e protetora. Ela é loba em cuja mama eles vêm se alimentar, a fonte infalível da felicidade familiar." Página 50



Canção de Ninar nos apresenta uma família de classe média aparentemente comum, com pai e mãe dedicados a suas carreiras e dois filhos pequenos que precisam de uma babá para vigiá-los durante o dia. A família é uma unidade completamente banal, com dilemas cotidianos e conflitos individuais bem fáceis de entender. Os pais são a representação perfeita de uma certa banalidade que toma conta de todos nós em detrminado momento da vida. Ao lidar com perspectivas de carreira, criação dos filhos, relacionamentos amorosos e convívio doméstico, esse pequeno núcleo familiar a princípio não parece trazer nada de eletrizante. Louise, a babá, é a responsável por balançar esse falso equilíbrio e transformá-lo em algo mais interessante, tanto para o leitor, quanto para a própria família que começa a se reajustar a essa nova persona.

A trama é bem desenvolvida e Leïla Silmani consegue trabalhar os personagens de forma bem interessante ao longo de todo o livro. A partir da reta final de Canção de Ninar conseguimos ter vislumbres mais sombrios de alguns dos protagonistas e desvios de caráter começam a ficar mais claros com o decorrer do livro. Entretanto, a autora termina o livro de forma repentina, deixando uma sensação de que a história poderia ser mais. Quando começamos a entender melhor o rumo das atitudes das personagens, passamos a última página e ficamos apenas com o futuro. Existe um gap no final do livro, mesmo que a autora tenha deixado tudo o mais claro possível. Por mais que a intenção possa ter sido terminar a narrativa do ponto em que ela começou, senti falta de um algo a mais.


Um elemento interessante que é trazido pela autora é a maternidade compulsória e a relação dúbia de uma mulher com o fato de ser mãe. Ao mesmo tempo em que ela ama seus filhos, ela se ressente deles porque acredita que, ao tê-los, acabou perdendo algo. Mesmo que esse não seja o foco do livro, sinto que Leïla Slimani poderia ter explorado um pouco mais essa questão, principalmente quando o relacionamento entre a mãe da família e a babá se torna mais íntimo e Louise passa a ser uma peça essencial na família.

Além disso, Canção de Ninar, além do suspense em si, traz alguns questionamentos como a dependência de uma babá. Muitas vezes, movidos por construções sociais, casais optam por ter filhos sem estarem verdadeiramente preparados ou entusiasmados com a ideia e acabam delegando a criação para outras pessoas. Nesse caso, o desfecho é sinistro e trágico, mas a leitura pode suscitar reflexões a respeito de um desejo forçado.

"Ele se dá conta de que, de início, não é surpresa ou estupefação o que ele sentiu há pouco, frente à policial, mas um imenso e doloroso alívio. Júbilo, até. Como se ele estivesse sempre sabido que uma ameaça pairava sobre ele, uma ameaça branca, sulfurosa, indizível. Uma ameaça que só ele, com seus olhos e seu coração de criança, era capaz de perceber. O destino quis que a infelicidade caísse em outro lugar." Página 142



Por conta das primeiras páginas, tão intensas e surpreendentes, Leïla Slimani carrega o leitor, aflito, por toda a leitura. Cada detalhe se torna uma pista, cada nuance vira um alerta para o que acontecerá no futuro. Foi uma maneira extremamente inteligente de cativar o leitor e já fazer com que o livro adquira um ritmo de leitura bem interessante.

Canção de Ninar é um suspense psicológico que trabalha a expectativa do leitor muito mais do que a tragédia em si. O primeiro capítulo é responsável por mostrar, logo de cara, o final da trama. Ao apresentar o desfecho logo nas primeiras páginas, Leïla Silmani captura o leitor de maneira ímpar, fazendo com que passar as páginas seja quase um exercício de investigação. Cada diálogo, cada pensamento, cada descrição serve como uma pista apra tentarmos entender o que levou a essa tragédia anunciada. É um recurso que influencia o leitor a se atentar ainda mais aos detalhes da narrativa, o que funcionou bem, em certos pontos, já que, em diversos momentos, o enredo segue um ritmo mais lento e menos eletrizante do ponto de vista do suspense.



Em comparação com o restante do livro, o final chega a ser um pouco decepcionante. Entretanto, ao ter contato com a experiência de leitura de outras pessoas, acredito que talvez seja justamente isso que fez e faz com que o livro seja tão falado. Pessoalmente, senti que o desfecho foi escrito às pressas, da forma que a autora havia pensado, mas alguns leitores podem gostar da quebra inusitada da narrativa e o final sem muitas explicações ou satisfações. Mesmo que o começo tenha sido impactante da forma que foi, ao estender a narrativa, de forma monótona, por tanto tempo, Leïla Silmani corre o risco de acabar perdendo o leitor, como senti que aconteceu comigo após esperar tanto por algum pico na narrativa.



Canção de Ninar é um livro que consegue ser poderoso em poucas páginas. É uma leitura curta, levando em consideração o fato de ser um thriller psicológico, mas intensa do início ao fim. Não fosse o começo eletrizante que já desperta nossos sentidos para o desenrolar da trama antes mesmo de ela começar, seria difícil supor que o livro de estreia de Leïla Slimani seria tão arrepiante. Se a autora tivesse trabalhado um pouco melhor o desfecho do livro e criado alguns momentos de tensão no meio da narrativa, acredito que teria conquistado ainda mais leitores e teria menos críticas.

Gostou da resenha e quer conferir outro thriller? Então conheça A Seca!

"O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue." Página 9




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05:02 No comments

Circe é uma releitura corajosa e atual da trajetória de Circe, a poderosa – e incompreendida – feiticeira da Odisseia de Homero. Considerada a melhor fantasia do Goodreads de 2018, o livro de Madeline Miller é um presente para os fãs de mitologias e abre as portas para um universo novo e rico.

Quer saber mais sobre essa história? Então confira a resenha de Circe !

"Na casa do grande Hélio, divindade do Sol e o mais poderoso da raça dos titãs, nasce uma menina. Circe é uma garotinha estranha: não parece ter herdado uma fração sequer do enorme poder de seu pai, muito menos da beleza estonteante de sua mãe, a ninfa Perseis. Deslocada entre deuses e seus pares, os titãs, Circe procura companhia no mundo dos homens, onde enfim descobre possuir o poder da feitiçaria, sendo capaz de transformar seus rivais em monstros e de aterrorizar os próprios deuses. 
Sentindo-se ameaçado, Zeus decide bani-la a uma ilha deserta, onde Circe aprimora suas habilidades de bruxa, domando perigosas feras e cruzando caminho com as mais famosas figuras de toda a mitologia grega: o engenhoso Dédalo e Ícaro, seu filho imprudente, a sanguinária Medeia, o terrível Minotauro e, é claro, Odisseu. 
E os perigos são muitos para uma mulher condenada a viver sozinha em uma ilha isolada. Para proteger o que mais ama, Circe deverá usar toda a sua força e decidir, de uma vez por todas, se pertence ao reino dos deuses ou ao dos mortais que ela aprendeu a amar. Personagens vívidos e extremamente cativantes, aliados a uma linguagem fascinante e um suspense de tirar o fôlego, fazem de Circe um triunfo da ficção, um épico repleto de dramas familiares, intrigas palacianas, amor e perda. Acima de tudo, é uma celebração da força indomável de uma mulher em meio a um mundo comandado pelos homens."

FICHA TÉCNICA

Título: Circe - Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens.
Autora: Madeline Miller
Ano: 2019
Páginas: 368
Idioma: Português
Editora: Minotauro (Planeta de Livros)
Nota: 4/5 
Compre: Amazon
Comprando por esse link você ajuda e incentiva o Nostalgia Cinza
LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


A Odisseia narra a história de Odisseu, ou Ulisses, como ficou conhecido por aqui, que depois de passar 10 anos na Guerra de Troia, leva mais 17 para voltar para casa, passando por diversas aventuras e obstáculos no caminho, incluindo um encontro com a deusa Circe. 

Na mitologia grega, Circe é uma feiticeira, conhecida como bruxa e especialista em venenos e drogas. Além da participação na Odisseia, Circe também já apareceu em adaptações como Percy Jackson e os Olimpianos, no universo da DC Comics e até mesmo em uma das figurinhas de Bruxos e Bruxas Famosos de Harry Potter e a Pedra Filosofal. 


Em Circe, o livro, temos uma releitura mais profunda e completamente voltada para a protagonista incompreendida. Madeline Miller aprofunda a história de uma das personagens mais icônicas da mitologia, trazendo novas camadas e presenteando o leitor com uma narrativa envolvente e rica.

Mesmo conhecendo alguns dos personagens que aparecem ao longo da história, confesso que tinha pouco conhecimento a respeito do mito da deusa Circe. Isso foi positivo porque ajudou a me sentir mais ligada à personagem, consegui criar mais conexões com ela por imaginá-la como uma mulher que, no fundo, é como todas nós: uma chama que busca seu fogo em um mundo de homens e carrascos. 

"A casa era grande o bastante para acomodar uma dúzia de deusas, e eu realmente continuava esperando encontrar ninfas e primos a cada curva. Mas não, isso era parte do meu exílio. Ficar absolutamente sozinha. Que pior punição poderia existir, minha família pensava, do que eu ser privada de sua presença?" Página 74

Acompanhar a história de Circe é como acompanhar uma jornada. É interessante observar que existe um forte paralelo entre a jornada de Odisseu, na Odisséia, e a de Circe, no livro que leva seu nome. Existem vários elementos que se encontram e a característica marcante de trazer várias aventuras e obstáculos na jornada do herói faz referência a um dos maiores (se não o maior) clássico da literatura. 


Vários dos personagens que aparecem ao longo da história podem parecer familiar ao leitor, como o próprio Odisseu, deuses como Atena, Hélio, Possêidon, e muitas outras figuras mitológicas que ajudaram a enraizar esses nomes no imaginário popular.

A linha do tempo da história é pouco delimitada e, como ela é uma deusa, ou seja, imortal, o livro narra alguns momentos-chave de sua vida, sem se preocupar em delimitar o tempo. Vários acontecimentos, inclusive, acontecem em espaços de tempo generosos. Alguns dos seres humanos que ela conhece ao longo da narrativa nasceram muitos anos depois de pessoas que ela havia convivido anteriormente. 

Existe uma relação da passagem do tempo com o amadurecimento da personagem que também pode ser percebida de forma bem explícita. Como ela precisa se despedir o tempo inteiro dos mortais, que são as criaturas que ela consegue se identificar e criar vínculos, mesmo que temporários, Circe é obrigada a amadurecer e absorver um entendimento de mundo maior do que os próprios deuses que se consideram superiores a todas as outras criaturas. 


A questão da arrogância dos deuses e titãs, que brincam com as vidas dos seres humanos e de outras criaturas, também é pontuada ao longo de todo o livro para se contrapor à personalidade de Circe, renegada por todos, como deusa, como filha, como igual, como mulher. 

"Deixe-me dizer o que a magia não é: não é poder divino, que vem com um pensamento e um piscar de olhos. Deve ser feita e trabalhada, planejada e procurada, desenterrada, secada, fatiada e moída, cozinhada, encantada e cantada. Mesmo depois de tudo isso, pode falhar, ao contrário dos deuses." Página 78

É nesse ponto que Circe se torna uma narrativa extremamente impactante do ponto de vista da força feminina e sobre o que é ser mulher nesse contexto. Mesmo não sendo um livro que promete levantar a bandeira do feminismo, podemos perceber algumas características de forma bem marcante, tanto na busca por sua independência e autonomia, quanto descoberta de quem é e do papel que quer desempenhar no mundo.


Circe transita nas construções do que é ser mulher e do que é esperado de uma mulher: meiga, submissa, raivosa, sensual, inteligente, sensitiva, benevolente e infinitas facetas femininas e poderosas. Circe pode ser visto como um livro feminista porque serve como metáfora para o desenvolvimento da mulher ao entrar em contato com sua força interior. É nesse momento também que se deixa claro a referência da bruxaria e da relação com o feminismo.

Classificar mulheres como bruxas sempre foi uma forma de tentar diminuí-las e de colocar um aspecto negativo e maléfico sobre tudo o que foge do que se espera de uma mulher. Há alguns séculos, a caça às bruxas representou exatamente a perseguição a toda e qualquer mulher que desviasse dos padrões e normas de conduta, e de tudo aquilo que os homens não conseguissem entender ou explicar. Circe, por exemplo, sempre se mostrou curiosa, benevolente, sábia e astuta, mesmo em meio a um ambiente tóxico aos pés de outros deuses e titãs. É interessante ver como Madeline Miller escolhe justamente uma feiticeira mitológica para representar o desenvolvimento e descoberta do poder de uma mulher. É como um romance de formação que traz a mitologia para o século XXI. 


A edição do livro, pela Minotauro, está um luxo. Com uma capa metálica, que combina perfeitamente com a filha do Sol, todo o design contribui para presentear o leitor com um livro digno. A diagramação é simples, sem muitos exageros, mas é elegante e permite uma leitura fluida. Até mesmo detalhes que geralmente não nos atentamos se sobressaem, como a paginação, por exemplo. 

O exemplar enviado pela editora ainda veio em uma caixa linda, com uma coroa de louros em alto relevo, alguns marcadores do livro, um tecido delicado e brilhante, que combina com o tom metálico da capa, um saquinho com algumas folhas para fazer chá e, claro, um exemplar do livro. 


Circe é uma história extremamente rica, que alia todas as características de uma boa narrativa, com referências a um dos maiores clássicos da literatura, ao mesmo tempo em que trabalha uma protagonista que é mais importante do que o enredo em si. É uma história perfeita para os fãs de mitologias e serve como referência de releitura, que repagina uma história já muito conhecida de forma inédita. Uma pedida para todos os leitores que buscam um livro ousado, divertido e poderoso.

Gostou da indicação e gostaria de conhecer outra releitura com viés feminista? Então confira a resenha de A Pequena Sereia & O Reino das Ilusões!

"Então aprendi que podia curvar o mundo à minha vontade, como um arco é curvado para uma seta. Eu teria praticado toda aquela labuta mil vezes para manter esse poder em minhas mãos. Eu pensei: é assim que Zeus se sentiu quando empunhou seu raio pela primeira vez." Página 79



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06:37 No comments

Já estou de olho no livro O Poder há alguns meses. Quando The Power começou a fazer um barulhinho lá fora, procurei saber mais sobre essa história tão diferente, única e incrível. Esse livro ficou na minha cabeça até que para a minha surpresa, alguns meses depois, a Planeta de Livros anunciou The Power em seu catálogo. Quando finalmente tinha o livro em mãos mal pude conter a ansiedade para lê-lo.

O que eu achei da leitura? Confira a resenha de O Poder e saiba mais sobre essa narrativa eletrizante:

"Em um futuro próximo, as mulheres desenvolvem um estranho poder: elas se tornam capazes de eletrocutar outras pessoas, infligindo dores terríveis... até a morte. De repente, os homens se dão conta de que não estão mais no controle do mundo."



FICHA TÉCNICA
Título: O Poder
Autora: Naomi Alderman
Ano: 2018
Páginas: 368
Idioma: Português
Editora: Minotauro (Planeta de Livros)
Nota: 5/5  
Compre: Amazon 
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O Poder é um livro que chama a atenção desde a sinopse. Em meio a tantas lutas em busca da igualdade de gênero, esbarrar com um livro que narra um mundo onde as mulheres detém o poder é extremamente instigante. O enredo já começa de forma eletrizante (perdoem o trocadilho) e Naomi já começa a estabelecer as bases da história desde o começo. Os personagens são apresentados logo de cara e, apesar do estranhamento inicial devido às histórias paralelas, é fácil se acostumar à proposta da autora.

A história é contada por meio da trajetória de quatro protagonistas; três mulheres e um homem, e todos têm papéis bem diferentes, mas igualmente importantes para a construção da narrativa. Allie é uma jovem que, ouvindo uma misteriosa voz interior, se torna Mãe Eva, a líder espiritual e política das mulheres de todo o mundo e responsável por guiar a população rumo à revolução. Margot é a prefeita de uma cidade norte-americana que começa a ascender na carreira política para propagar sua ideia para essa nova ordem mundial. Roxy é filha de um mafioso que, com a descoberta do poder, passa a se tornar a chefe da máfia. Tunde é um jovem que se descobre repórter ao gravar o primeiro vídeo do uso do poder por parte das mulheres e que se torna um ícone no que diz respeito à documentação dessa revolução e influenciador jornalístico.

 “Noor coloca dois dedos sobre a palma da mão da mulher e mostra a ela como usar aquilo que devia estar sempre dentro dela, devia estar esperando aqueles anos todos da vida dela para vir à tona. É assim que funciona. As mulheres mais novas despertam aquilo nas mais velhas; mas de agora em diante toda mulher terá aquilo.” Página 73

O Poder narra uma realidade em que as novas mulheres já nascem com o poder de emitir choques elétricos. Apesar das mais velhas não manifestarem esse poder, as mais novas podem ajuda-las a despertar esse tom que, de alguma forma, sempre esteve presente. Saber que aquele poder sempre esteve dentro delas é uma bela metáfora para a luta que atualmente está ganhando cada vez mais força por causa do movimento feminista e que vem dando cada vez mais confiança e estrutura para que meninas e mulheres do mundo todo se imponham e busquem seus direitos. Os direitos conquistados daqui pra frente sempre pertencerão a todas as mulheres, independente de qual idade elas tenham ou de onde elas vieram.


O final de cada capítulo é composto por ilustrações de aparatos ou ferramentas usadas durante a ditadura das mulheres. São instrumentos e relatos que imitam escavações arqueológicas com ilustrações e descrições bem explicativas. Assim como a própria história, esses instrumentos invertem o papel opressor e oprimido, sendo a mulher a opressora. Atualmente, em algumas culturas a mulher tem os órgãos genitais mutilados de forma a não sentir prazer durante o ato sexual. Um dos objetos descritos no livro, por exemplo, faz referência a uma ferramenta capaz de cauterizar terminações nervosas do órgão genital masculino para que ele só tenha ereções quando uma mulher usar o poder para estimulá-lo.




“O estopim da revolta foi a morte de duas garotas, de mais ou menos doze anos. Um tio pegou as duas treinando sua bruxaria juntas; religioso, ele convocou seus amigos, e as meninas lutaram para não ser punidas e de algum modo acabaram espancadas até a morte. E as vizinhas viram e ouviram. E – quem pode dizer por que essas coisas aconteceram na quinta-feira, quando tudo podia ter passado despercebido na terça-feira? – elas revidaram. Uma dúzia de mulheres se transformou em cem. Cem viraram mil. A polícia recuou. As mulheres gritaram; algumas fizeram cartazes. Elas entenderam a força que tinham, todas ao mesmo tempo.” Página 70

O livro é um belo tapa na cara e, nas palavras de Pam Gonçalves, uma paródia do patriarcado. Toda a narrativa é elaborada de forma a construir o momento final, o confronto que define de forma irrevogável a nova origem mundial. A própria divisão de capítulos é feita com base em uma contagem regressiva que leva ao clímax da revolução das mulheres.

O livro todo é baseado em traumas e vinganças. As principais motivações dos protagonistas envolvem revanches e escolhas feitas com base em traumas passados. Quando as mulheres se descobrem fisicamente mais poderosas que os homens, uma nova realidade se torna uma possibilidade concreta e, com a união das mulheres de todo o mundo, começa uma ditadura matriarcal em que os homens têm seus direitos retirados, direitos como o voto, permissão para dirigir e emprego. Direitos que as mulheres viveram séculos sem poder usufruir e que precisaram lutar por anos e anos para conquistar são retirados dos homens.

O Poder é um exemplo de livro com uma boa caracterização e contextualização do momento histórico em questão sem precisar de descrições excessivas. Naomi escreve de forma objetiva, sem muitas delongas e tendo a trajetória dos personagens como foco principal. Cada um deles contribui de alguma forma para a revolução e seus pontos de vista representam de forma bem inteligente as visões de diferentes estruturas dessa sociedade, indo desde uma pequena menina que nasceu com esse novo poder e precisou usá-lo para sobreviver à violência, buscando refúgio em abrigos, até mulher adulta com um cargo político importante que precisa se acostumar a essa nova e inquietante realidade. O fato de ter um homem como um dos protagonistas também ajuda a enriquecer a narrativa, ainda mais colocando-o como um repórter que vê de perto todo esse processo de mudança. 

O começo do livro é um pouco confuso, Naomi não segue uma narrativa completamente linear e isso acaba causando certo estranhamento no começo da leitura. O livro começa com uma troca de mensagens entre Neil e Naomi e não somos apresentados a essas personas. Neil fala para Naomi que gostaria que ela lesse seu manuscrito sobre um mundo onde os homens detinham o poder e explica que houve uma reviravolta que colocou as mulheres no topo da pirâmide hierárquica. Ele descobre isso com base em descobertas arqueológicas e registros históricos que descrevem uma era pré matriarcado. A história de O Poder é, na verdade, o manuscrito de Neil, mas isso só fica claro ao final do livro, quando Naomi escreve seus comentários a respeito da leitura.

O nome da autora e o final da troca de mensagens sugere que ela tenha roubado o original do homem ou que a autora tivesse feito uma brincadeira fingindo que um homem alterou o nome dele e colocou como de uma mulher para ser mais aceito em um mundo dominado por mulheres. Fato que acontece com frequência na nossa realidade, não é mesmo?

Naomi Alderman cria uma história que mostra da forma mais crítica possível como o poder corrompe e como o ser humano está fadado a se corromper. Um ponto muito interessante e que gera reflexão é apresentado em meio a um diálogo em que duas personagens discutem o porquê de terem cometido um ato de violência e a resposta é “porque podemos”. Ao longo da história somos levados a refletir sobre igualdade, sobre poder, sobre empatia. Somos obrigadas a pensar “o que faríamos se tivéssemos tamanho poder? Buscaríamos igualdade e justiça ou seríamos corrompidas e tentadas a inverter os papéis?”. Uma das reflexões propostas no livro se destacou com o título. O título do livro pode ser entendido de duas formas: o poder de emitir choques elétricos e o poder como estado de poder, como o fato de ter o poder em relação a outra pessoa.


O Poder é uma narrativa extremamente inteligente, construída nos detalhes e com cenas que rendem reflexões infinitas, tanto no que diz respeito ao patriarcado quanto à corruptividade do ser humano. Um dos diálogos mais marcantes do livro resume bem a força de impacto dessa narrativa: “Não importa que ela não dava fazer, que ela jamais o fará. O que importa é que ela poderia, se quisesse. O poder de machucar é uma espécie de riqueza.”

O Poder é um livro que merece uma segunda e terceira leitura, Naomi constrói uma narrativa extremamente crítica nas nuances de seus personagens. É difícil absorver tudo apenas com uma leitura uma vez que várias críticas se tornam mais explícitas e duras ao longo da leitura. Como é um livro diferente de tudo, o estranhamento inicial pode prejudicar uma visão mais atenta à narrativa. Não é um livro com uma narrativa toda mastigada. Suas críticas são construídas nos detalhes e cada um terá uma experiência única lendo essa história. São críticas sutis, mas poderosa. É difícil encontrar um livro que trate de uma temática tão atual de forma tão inteligente e impactante.

O Poder é um livro exatamente interessante para ser lido pelos olhos de um homem também. Enquanto as mulheres sentem que, de certa forma, é uma justiça ver as mulheres tomando o poder e buscando seus direitos, os homens, ao lerem a história de Naomi Alderman, poderão sentir um pouco o que é ser uma mulher, o que é estar no lugar do oprimido e não do opressor no que diz respeito à busca pela igualdade de gênero. É um livro que tira todos os leitores de um lugar comum ao apresentar uma poderosa e extrema inversão de papéis. O Poder é um livro que me fez ficar arrepiada em diversos momentos da leitura e é um livro que tem tudo para virar um clássico.

 “Um deles diz:
- Por que eles fizeram isso, [...]?
E o outro responde:
- Porque eles podiam.
E essa é a resposta para tudo.” Página 316


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11:23 13 comments

A primeira vez que eu li os poemas de Rupi Kaur em Outros jeitos de usar a boca fiquei encantada com a forma crua, honesta e muito humana da autora ao falar sobre sentimentos, vulnerabilidades, defeitos, inseguranças. Foi um livro que me marcou e o sucesso é extremamente merecido. Pensei que em O que o sol faz com as flores, eu veria mais do mesmo, mas não foi bem assim.

A forma honesta, forte e arrebatadora de Rupi de colocar em palavras sentimentos capazes de fazer o peito sangrar se mantém, mas a temática muda. Parece que os temas que já eram muito fortes e maduros se tornam ainda mais adultos.

Quer saber o que eu achei do segundo livro da Rupi Kaur? Então confira a resenha de O que o sol faz com as flores:

"Da mesma autora de outros jeitos de usar a boca, best-seller com mais de 100 mil exemplares vendidos no Brasil.
o que o sol faz com as flores é uma coletânea de poemas arrebatadores sobre crescimento e cura. ancestralidade e honrar as raízes. expatriação e o amadurecimento até encontrar um lar dentro de você.
organizado em cinco capítulos e ilustrado por Rupi Kaur, o livro percorre uma extraordinária jornada dividida em murchar, cair, enraizar, crescer, florescer. uma celebração do amor em todas as suas formas."


FICHA TÉCNICA


Título: O que o sol faz com as flores
Autora: Rupi Kaur
Ano: 2018
Páginas: 256
Idioma: Português
Editora: Planeta de livro
Nota: 4/5
Compre: Amazon 
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA



O que o sol faz com as flores é dividido em cinco partes: murchar, cair, enraizar, crescer e florescer, que imitam o ciclo de vida de uma flor, exatamente ao que se remete o título. As temáticas escolhidas para cada uma dessas partes são profundas e intensas, muito fortes.

Em murchar, Rupi fala sobre muito sobre um relacionamento abusivo, sobre criar uma dependência enorme de uma pessoa e não saber mais separar o “eu” e o “ele”, tratando também de estupro, violência doméstica, autoflagelação, auto depreciação e outras questões que ficam ainda mais fortes na segunda parte, cair.

"amar você era como respirar
mas já sentindo falta de ar
antes que chegasse aos pulmões
- quando se vai cedo demais"


Em enraizar, a terceira parte do livro, ela começa a trabalhar a temática da mãe, tornando esse capítulo o mais sentimental de todos e, em minha opinião, o mais belo. É um pouco mais leve no sentido de trazer um carinho e afeto por parte da autora, uma vez que é carregado de sentimentos para com sua mãe.

Mesmo sendo um capítulo mais pessoal, Rupi não deixa de lado suas críticas fortes à sociedade, à condição de ser mulher em uma sociedade patriarcal. Ela se identifica com a mãe, entende os problemas enfrentados por ela e demonstra isso em seus poemas quase como um pedido de desculpas por ter nascido. São poemas muito bonitos, delicados e sinceros. É como se ela estivesse escrevendo uma carta aberta para sua mãe de um jeito puro.

Por conta de sua mãe, Rupi trata da questão dos refugiados, o que faz com que determinados poemas e/ou textos ganhem um caráter político. Ela aborda os risco e sentimentos envolvidos no fato de deixar seu país de origem para trás em busca de sonhos, segurança e esperança. Rupi faz críticas que não poderiam ser mais atuais.


A quarta parte do livro, crescer, está relacionada ao fato de se apaixonar de novo depois de ter o coração partido, depois de um trauma. Ela fala sobre a redescoberta do amor com delicadeza, sobre o que significa se abrir novamente para criar intimidade não apenas física como emocional com outro homem. É um capítulo doce, mais gostoso de ler, recheado de romance. Rupi abre as portas para que o leitor possa sentir o gostinho de seu relacionamento de um jeito muito bonito.

Florescer, a última parte do livro, fala sobre empoderamento feminino com uma poesia quase militante. São palavras intensas, que nos fazem realmente acreditar no que está sendo dito. Rupi trabalha a questão da força feminina, autoestima e empoderamento de um jeito poético, claro, mas também intenso e direcionado. É um capítulo inspirador e extremamente necessário. Não consigo pensar em uma forma melhor de concluir um livro com tamanho apelo popular.

Até mesmo as ilustrações de Rupi parecem mais maduras em comparação com Outros jeitos de usar a boca. Ela continua com seus traços finos que imitam rabiscos, mas ela dá um ar de profundidade maior aos desenhos, o que combina perfeitamente com as temáticas exploradas ao longo de todo o livro. Cada arte é carregada de significado, o que deixa as páginas ainda mais bonitas e os poemas, ainda mais marcantes. 

"vocês partiram o mundo
em vários pedaços e
chamaram de países
declararam posso sobre
o que nunca lhes pertenceu
e deixaram os outros sem nada
- colonizado"


Ao contrário do primeiro livro que era composto basicamente por pequenos poemas que não passavam de uma página, O que o sol faz com as flores mantém os poemas curtos, mas alguns poemas passam de três páginas e contempla textos um pouco maiores em que ela desenvolve melhor suas reflexões com narrativas mais densas.

Mesmo com textos mais longos, Rupi não perde uma de suas características essenciais: a objetividade. Rupi é capaz de expressar em poucas palavras, sentimentos que precisariam de páginas e mais páginas para serem explicados. Ela vai direto ao ponto de forma objetiva, forte e impactante, o que fez com que seus poemas fossem tão bem aceitos e se tornassem tão populares desde Outros jeitos de usar a boca. Com uma linguagem simples, Rupi se faz clara e precisa quase de forma brutal. Sem muitas delongas ou amarras, ela diz o que tem para dizer e não pede desculpas por isso.

O que o sol faz com as flores é um livro bem mais crítico e político do que Outros jeitos de usar a boca. Nesse segundo livro, Rupi aborda assuntos como imigração, refúgio, infanticídio feminino de um jeito forte, apesar de curto e breve, característica marcante dos poemas de Rupi Kaur. Os poemas continuam extremamente impactantes e necessários. Rupi consegue sair do senso comum de uma maneira única, com feminilidade e força. O que o sol faz com as flores merece ser lido, relido e guardado com carinho.

Gostou da resenha e quer saber o que achei do primeiro livro de Rupi Kaur? Então confira a resenha de Outros jeitos de usar a boca!

"me levanto
sobre o sacrifício
de um milhão de mulheres que vieram antes
e penso
o que é que eu faço
para tornar essa montanha mais alta
para que as mulheres que vierem depois de mim
possam ver além
- legado"



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06:20 5 comments
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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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