Resenha: O que Alice esqueceu

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Quem você era há dez anos? E quem é agora?

Desde que li O segredo do meu marido, fiquei encantada com a escrita de Liane Moriarty e sua escolha por narrativas envolvendo dramas familiares. A autora é mestre em criar um ambiente repleto de conflitos cotidianos extremamente críveis e envolventes e em O que Alice esqueceu Liane nos presenteia com uma narrativa deliciosa de uma mulher que é obrigada a descobrir quem se tornou e quem ela realmente é. Um dos meus favoritos de Liane Moriarty, O que Alice esqueceu é um livro envolvente, fácil de ler e com uma narrativa impecável.

Quer saber por que você precisa ler O que Alice esqueceu? Então confira a resenha:

"Alice tinha certeza de que era feliz: aos 29 anos, casada com Nick, um marido lindo e amoroso, aguardando o nascimento do primeiro filho rodeada pela linda família formada por sua irmã, a mãe atenciosa e a avó. Mas tudo parece ir por água abaixo quando ela acorda no chão da academia... dez anos depois!
Enquanto tenta descobrir o que aconteceu nesse período, Alice percebe que se tornou alguém muito diferente: uma pessoa que não tem quase nada em comum com quem ela era na juventude e, pior, de quem ela não gosta nem um pouco.
Ao retratar a vida doméstica moderna provocando no leitor muitas risadas e surpresas, Liane Moriarty constrói uma narrativa ao mesmo tempo ágil e leve sobre recomeços, o que queremos lembrar e o que nos esforçamos para esquecer."



FICHA TÉCNICA

Título: O que Alice esqueceu
Autora: Liane Moriarty
Ano: 2018
Páginas: 416
Idioma: Português
Editora: Intrínseca
Nota: 4,5/5
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O que Alice esqueceu já começa com o acidente que faz a protagonista perder suas lembranças dos últimos dez anos. Em 1998 Alice estava casada e grávida de seu primeiro filho e tinha toda a inocência e felicidade de uma jovem que tem uma vida toda pela frente. Em 2008 Alice se vê quase divorciada, com três filhos e percebe que se tornou alguém infeliz, estressada e incompreensível, como se tudo o que imaginava para si tivesse terminado de um jeito abrupto e trágico. O problema é que ela não se lembra dos últimos dez anos e não faz a menor ideia do que aconteceu para que a Alice de 1998 se tornasse a de 2008. Sem memórias e vendo tudo aquilo que ela considerava sólido derretendo em suas mãos, ela precisa se esforçar para reconquistar sua vida e quem ela acredita ser.

O que Alice esqueceu, a princípio, nos faz ficar curiosos para saber o que aconteceu com a protagonista, ficamos curiosos para entender quem são os personagens que se apresentam ao longo do livro e ficamos tão angustiados quanto Alice ao perceber que existem segredos sendo guardados pelas pessoas que ela mais ama. Mas à medida que a história se desenvolve, é mais fácil sentir empatia pela protagonista. O maior dilema deixa de ser descobrir seu passado e passa a ser desvendar o que será de seu futuro. Alice é uma mulher que se vê perdida a níveis bem mais profundos do que sua falta de memória aparenta. Ela percebe que se tornou alguém irreconhecível para si mesma e isso nos faz pensar sobre nossas próprias escolhas e nossas expectativas para o futuro. O que Alice esqueceu é uma narrativa que fala diretamente com o leitor, o livro propõe um diálogo inconsciente e direto que nos prende até a última página.

"- Quantos anos você tem, Alice?
- Vinte e nova, Jane - respondeu ela, irritada com o tom dramático da outra sem entender aonde queria chegar. - A mesma idade que você.
Jane se afastou, olhou para George Clooney com uma expressão triunfante e disse:
- Acabei de receber o convite da festa de quarenta anos dela.
Este foi o dia em que Alice Mary Love foi à academia e, num descuido, perdeu uma década de vida."



Liane Moriarty tem o hábito de dividir a condução da narrativa em 3 núcleos diferentes, geralmente 3 protagonistas femininas. Enquanto em Pequenas grandes mentiras e Até que a culpa nos separe ela fez isso na forma de narrativa em primeira pessoa com três protagonistas diferentes, em O que Alice esqueceu ela escolhe uma estratégia diferente para fazer a mesma coisa. A narrativa se alterna entre uma narração em terceira pessoa com Alice como foco; em primeira pessoa com Elisabeth, irmã de Alice, narrando em primeira pessoa escrevendo uma espécie de diário para seu terapeuta; e Frannie, avó das duas, escrevendo em primeira pessoa em seu blog pessoal conversando com seus leitores e respondendo seus comentários.

Em narrativas anteriores como em Até que a culpa nos separe, Liane consegue mesclar de forma primorosa as três protagonistas de maneiras inesperadas. Em O que Alice esqueceu fiquei esperando que o mesmo acontecesse e, apesar de as três estarem ligadas pelo fato de serem da mesma família, fiquei esperando que algum acontecimento surpreendente que unisse as narrativas, mas não aconteceu. Ao invés de mesclar as visões em uma mesma história ou em volta de um mesmo acontecimento, Liane apresenta três mulheres completamente diferentes, seja pela idade, seja pelo momento de suas vidas, e trabalha seus núcleos praticamente de forma independente do começo ao fim.


"Ela respirou fundo, tremendo.
Aquilo era algo temporário. Logo mais, sua memória ia voltar e a vida ia continuar normal.
Mas será que ela queria recuperar a memória? Será que queria se lembrar de tudo? O que queria mesmo era pular numa máquina do tempo e voltar para 1998."

Liane Moriarty provou mais uma vez que é capaz de tornar extraordinário o banal. É uma autora que vem mostrando que sabe, como ninguém, criar personagens complexos sem precisar inventar acontecimentos mirabolantes para torná-los interessantes. Liane consegue criar histórias tão críveis que às vezes nos esquecemos que estamos lendo uma ficção e não a história de alguém de verdade.

Não sei se foi a perfeição com que Pequenas grandes mentiras foi adaptada para a televisão, mas ao longo de toda a leitura eu pude imaginar com facilidade um longa-metragem do livro. Ao mesmo tempo, é um daqueles livros para devorar em um final de semana debaixo das cobertas e com uma boa caneca de chá ao alcance das mãos.

O livro engana pelo tamanho, apesar das 416 páginas envoltas de dramas familiares parecem densas e preguiçosas, O que Alice esqueceu traz uma leitura extremamente fluida e gostosa. Liane consegue criar personagens tão críveis e nos transportar para situações tão reais que é impossível se sentir entediado enquanto lemos o livro, é como se fôssemos convidados a espiar de camarote a vida de pessoas normais se desenrolando na nossa frente.


No começo a escrita parece confusa, a narrativa mescla presente, passado e sonhos e é difícil diferenciar o que é real. Liane consegue nos colocar na pele de Alice e, ao mesmo tempo em que tudo se torna mais claro para a protagonista ao longo do livro, a leitura também se torna mais fácil. É quase como se fôssemos convidados para passar pelos mesmos processos de Alice e nos encontrar junto com ela.

A Intrínseca relança essa história de Liane Moriarty com uma edição simples, mas linda. A capa representa bem a efemeridade, elemento que chama bastante a atenção nas reflexões de Alice ao longo de toda a narrativa. Além disso, a capa combina bem com as outras edições da editora das histórias de Liane e gosto bastante da escolha da fonte e da diagramação agradável aos olhos.

O que Alice esqueceu traz uma história que nos faz refletir sobre como pequenas escolhas podem mudar nosso futuro, como simples gestos e palavras não ditas podem representar um divisor de águas difícil de recuperar. Alice percebe que poderia ter tido uma vida completamente diferente se tivesse feito ou falado uma ou outra coisa diferente em determinado momento. Ela tem a sorte de poder olhar para o seu presente com os olhos de quem era no passado. O que Alice esqueceu é uma leitura deliciosa, fácil de se envolver e surpreendente nos detalhes. Liane prova porque é uma das melhores autoras da atualidade e porque suas histórias são leituras essenciais na estante.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro incrível de Liane Moriarty? Então leia a resenha de Pequenas grandes mentiras!


"Se fosse 2008, Passinha tinha nove anos. Era muito maior que uma uva-passa. Teria progredido de passa para uva, depois para pêssego, para bola de tênis e para... bebê.
Alice sentiu uma risada imprópria presa na garganta.
Seu bebê tinha nove anos."


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