Resenha: Terra Americana

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Todo ano milhões de pessoas são obrigadas a migrar de sua terra natal em busca de uma vida minimamente digna. Os Estados Unidos são um desses principais destinos do mundo inteiro, com uma população composta de 10% de imigrantes. Grande parte dessas pessoas precisa passar por situações extremas buscando refúgio e, mesmo após enfrentarem verdadeiros infernos, nada é garantido. Terra Americana narra uma história ficcional que retrata a realidade de milhares de pessoas dia após dia. Um livro polêmico, forte e verdadeiro. Saiba mais!

"Em uma agradável vizinhança de Acapulco, um massacre. Uma chacina vitima dezesseis membros de uma mesma família, durante uma festa de quinze anos. Os únicos sobreviventes são Lydia e seu filho Luca, de oito anos. O marido de Lydia, Sebastián, foi o jornalista responsável pelo perfil jornalístico do homem que controla o cartel de drogas mais poderoso da cidade. E agora, como a maioria dos seus parentes, ele também está morto.
Lydia acredita ter sua parcela de culpa. O homem gentil e erudito que passou a frequentar a livraria que ela administra não é apenas um sujeito de meia-idade interessado em literatura. É Javier, o narcotraficante que comanda o cartel.
Agora, Lydia sabe que precisa fugir com seu filho para muito longe e o mais rápido possível. Instantaneamente transformados em migrantes, os dois dão início a uma longa jornada em direção aos Estados Unidos, aparentemente o único lugar que o poder de Javier não alcança. À medida que se juntam às inúmeras pessoas que tentam uma vida melhor fora do país, e enfrentam todos os obstáculos e perigos dessa viagem que deixa uma infinidade de vítimas pelo caminho, Lydia descobre que todos ali estão fugindo de algo.
Repleto de suspense e impactante, Terra americana tem personagens cativantes, cujas histórias fazem refletir sobre o heroísmo e a generosidade das pessoas que arriscam tudo para ter um lugar em que possam viver com dignidade. Escolhido para o clube do livro da Oprah, o romance já teve os direitos de adaptação cinematográfica adquiridos."

FICHA TÉCNICA
Título
: Terra Americana
Autora: Jeanine Cummins
Páginas: 416
Ano: 2020
Editora: Intrínseca
Nota: 4
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA




Em 2017, a cada cinte e uma horas, um migrante morreu em algum trecho da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Esse número não inclui os muitos migrantes que simplesmente desaparecem a cada ano. O Centro para Estudos de Imigração divulgou dados acerca do número de imigrantes nos Estados Unidos, que afirmaram que por ano cerca de 1,2 milhão de pessoas chegam ao território norte-americano. A questão imigratória é uma pauta forte no contexto político e internacional e a violência e o preconceito contra migrantes, infelizmente, vem ganhando força também.

No caso do México, o país sofre, historicamente, com o crime organizado e a guerra entre diferente cartéis de narcotraficantes. Regiões próximas à fronteira com os Estados Unidos são algumas das mais afetadas e violentas, palco do contrabando de grandes quantidades de drogas. Além das implicações políticas que envolvem a influência desses cartéis, a população civil também é afetada. São milhares de assassinatos e sequestros por ano, agravando um cenário já assustador.

“Todos esses garotos, ricos, pobres, de classe média, viram corpos nas ruas. Assassinatos eventuais. E eles sabem, por conversarem uns com os outros, que há uma hierarquia de perigo, embora algumas famílias corressem um risco maior do que outras.” Página 12


Terra Americana conta a história de uma mãe, Lydia, e seu filho Luca, que precisam deixar a vida que conheciam em Acapulco, no México, para buscar refúgio nos Estados Unidos após terem sua família inteira assassinada por um dos mais implacáveis traficantes da região.

O livro ganhou bastante destaque nos Estados Unidos por ser publicado na hora certa, no lugar certo. Nomes como Stephen King e Oprah Winfrey se manifestaram parabenizando a autora e o enredo, mas a publicação do livro também é envolta de muita polêmica. Acusada de apropriação cultural e estereotipação de algumas questões envolvendo as personagens latinas do livro, Jeanine Cummins precisou lidar com muitos questionamentos e críticas, do público e de especialistas.


A nota da autora, ao final do livro, é tocante e necessária para contextualizar ainda mais o leitor a respeito do tema e trazê-lo para a realidade de milhares de pessoas ao redor do mundo. Além disso, é uma forma de apaziguar um pouco toda a polêmica em volta do livro. Ela explica melhor seu ímpeto de escrever essa ficção, mesmo não tendo passado por algo semelhante. “Tenho consciência absoluta de que as pessoas que chegam à fronteira sul dos Estados Unidos não saiu na massa marrom sem rosto, mas indivíduos singulares, com histórias, bagagens e motivos para vir que são únicos.” Cummings deixa claro que não pretende falar por ninguém, e sim fazer com que pessoas como ela, em posições de privilégio e que nunca passaram por nada semelhante, sintam um pouco da angústia e do terror que milhares de migrantes vivem diariamente.

Como o propósito do post é fazer a resenha do livro, levando em conta a história em si e seu papel literário, deixo aqui duas matérias que, inclusive, tem a autora como entrevistada, que explicam melhor toda a polêmica em torno do livro. A primeira foi publicada pela Folha de S.Paulo e a segunda pelo Sabado.


Jeanine Cummins tem uma escrita que se destaca por descrições detalhadas, diálogos breves e uma carga emocional intensa. Dada a seriedade do tema, não se espera uma narrativa leve ou fácil, mas Cummins consegue levar o leitor pelas páginas com destreza. Sua escrita é forte, fazendo jus à realidade de alguns dos cenários e contextos mais violentos do século 21, o que faz com que Terra Americana não seja uma leitura aconselhada para todos os públicos. A autora não poupa descrições de momentos mais violentos e, mesmo que às vezes ela jogue essas informações de forma breve, é o suficiente para causar impacto.

Cummings tem uma escrita extremamente descritiva que faz com que possamos ver claramente toda a narrativa de desenrolar como se os olhos dos personagens fossem os nossos. Sua narração em terceira pessoa, com um narrador onisciente e onipresente ajudam a dar um pouco mais de contexto à trama do livro e explora, mesmo que de forma mais superficial, as nuances de personagens secundários.

Além disso, é um livro com um ritmo de leitura mais acelerado, com capítulos curtos, com apenas dez páginas cada, o que facilita a leitura mais dinâmica e fluida, mesmo com o tema mais forte.


“As lembranças jogam adrenalina em sua corrente sanguínea cem vezes por dia, e assim seu corpo chega à exaustão. Suas pálpebras desabam. Mas então há o instante seguinte, à deriva momentânea após deixar a costa e antes de ser levada pela corrente, e nesse lapso de tempo ela afunda. Seus membros estremecem, seu coração palpita e seu cérebro fornece mais uma vez a lembrança dos tiros, do cheiro de carne queimada, dos dezesseis rostos desprovidos de vida, do olhar vazio voltado para o céu.” Página 91

É impossível não se sentir tocado não apenas pela história de Lydia e Luca, mas de todos os personagens que cruzam seu caminho e contribuem para um enredo ainda mais real e assustador. Após ler Terra Americana, é impossível não sentir mais compaixão, solidariedade e empatia ao pensar em todas as pessoas que são obrigadas a migrar dessa forma, a enfrentar tantos desafios em meio à sua luta pela vida e por dignidade, e que ainda encontram animosidade, preconceito e violência no seu destino.


Um dos papéis mais importantes da literatura é sua capacidade de gerar empatia por meio da leitura de histórias alheias e Terra Americana ajuda a colocar o leitor no centro de um dos maiores conflitos imigratórios da atualidade, além de apresentar de forma bem eficiente a violência gerada pelo narcotráfico na América Latina.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro com temática semelhante? Então confira a resenha de O Diário de Nisha!

“Quando fecha os olhos, consegue vê-las, as tintas no firmamento. Deslumbrantes. Roxo, amarelo, laranja, rosa e azul. Ela pode ser aquelas cores perfeitas, quentes e brilhantes, um cocar de penas. Abaixo, a paisagem estende seus braços.” Página 396


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