Resenha: Lady Killers: assassinas em série

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Além de Jack, o  Estripador, Ted Bundy, Charles Manson, Ed Gein e o Assassino do Zodíaco são nomes que causam arrepios desde que ganharam destaque por seus assassinatos cruéis e crimes abomináveis. Entretanto, mesmo sendo tão comum falar e pensar nos serial killers, quantas mulheres assassinas você consegue citar de cabeça? 

A presença masculina é majoritária até mesmo no perfil de psicopata, e assassinas em série foram renegadas devido ao seu gênero e tudo aquilo que faz com que uma mulher, mesmo assassina, não seja lembrada na cultura popular. Em Lady Killers, Tori Telfer, traz à tona histórias de assassinas que chocaram a sociedade no tempo em que viveram por fugirem do que se espera das mulheres da forma mais não convencional de todas: matando.

Confira a resenha de Lady Killers: assassinas em série e saiba porque você não pode perder essa leitura!

"Quando pensamos em assassinos em série, pensamos em homens. Mais precisamente, em homens matando mulheres inocentes, vítimas de um apetite atroz por sangue e uma vontade irrefreável de carnificina. As mulheres podem ser tão letais quanto os homens e deixar um rastro de corpos por onde passam — então o que acontece quando as pessoas são confrontadas com uma assassina em série? Quando as ideias de “sexo frágil” se quebram e fitamos os desconcertantes olhos de uma mulher com sangue seco sob as unhas?
Prepare-se para realizar mais uma investigação criminal ao lado da DarkSide® Books e sua divisão Crime Scene®. Esqueça tudo aquilo que você achava que sabia sobre assassinos letais — perto de Mary Ann Cotton e Elizabeth Báthory, para citar apenas algumas, Jack, o Estripador ainda era um aprendiz."




FICHA TÉCNICA
Título
: Lady Killers: assassinas em série
Autora: Tori Telfer
Ano: 2019
Páginas: 384
Idioma: Português
Editora: DarkSide Books
Nota: 5/5
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


Assassinos em série fazem parte do imaginário popular bem antes de Jack, o Estripador, ganhar fama como o maior matador do mundo. A morte gera fascínio e aqueles que sentem prazer em causá-la acabam ganhando fama e notoriedade.

Contar histórias de assassinos em série também já faz parte da cultura popular há algumas décadas, quando o termo ainda estava sendo introduzido e esses indivíduos estavam começando a ser vistos como objeto de estudo e não apenas símbolo de maldade. A psicopatia é um termo relativamente recente, mas as histórias de pessoas cruéis e sanguinárias nos acompanham desde os primórdios da sociedade como a conhecemos. Incluindo histórias de mulheres assassinas.

"Ted Bundy, que era, entre outras coisas, um estuprador e um necrófilo, parece objetivamente "mais assustador" do que Nannie, que sorria e envenenava ameixas. Mas assassinos em série não são assustadores por serem homens; eles são assustadores porque destroem a ordem. Ou melhor, eles revelam que aquilo que nós percebemos como ordem e normalidade (os garotos tipicamente norte-americanos, a vovó sorridente, a dona de casa aspirando com uma expressão vazia) tem sido o tempo todo uma violenta mentira. Na década de 1950, Nannie Doss se parecia muito mais com a dona de casa comum do que Marilyn Monroe. Ela encarnou a ordem das coisas: maternidade, casamento, limpeza do chão da cozinha. E, no entanto, trouxe a morte em sua esteira." Página 53


Não é tão fácil achar conteúdo sobre assassinas em série como é para encontrar algo relacionado aos psicopatas masculinos. Mesmo que homens sejam retratados como mais violentos e agressivos, ao longo da história também tivemos serial killers femininas que fizeram jus ao terror relacionado ao termo, seja pela natureza de seus crimes, seja pela quantidade de pessoas que elas assassinaram. Lady Killers é quase uma reparação histórica no que diz respeito à memória dessas assassinas.

Lady Killers recapitula a história de 14 mulheres que deixaram suas marcas na história como psicopatas e assassinas em série. Tori Telfer traz um presente para os fãs de histórias reais e macabras ao brincar com a narração de assassinatos hediondos ao mesmo tempo em que aborda a figura da mulher assassina e como ela é retratada pela sociedade desde o contexto em que vivia até a recente popularização dos serial killers como “cultura pop”.


Sem romantizá-las ou homenageá-las de forma positiva, Tori Telfer traz luz sobre o tema, mostrando que as mulheres também são capazes de cometer os crimes mais hediondos e mostrando como algumas assassinas merecem tanto espaço no imaginário popular quanto os homens.

Ao longo de todo o livro Tori coloca em xeque alguns dos motivos atribuídos a essas assassinas como uma forma de diminuí-las. É como se mesmo assassinas cruéis, psicopatas e sanguinárias fossem minimizadas a meras mulheres com corações partidos, sexualmente frustradas ou bruxas. Sem tentar colocá-las em pedestais ou justificar seus crimes hediondos, Tori  questiona a forma como essas mulheres foram retratadas ao longo da história e porque elas não recebem o mesmo tratamento que os homens, seja aos olhos da sociedade, seja na cultura pop.


É interessante observar o viés feminista de Tori ao abordar as diversas camadas da violência feminina e como isso reflete e reforça estereótipos de gênero. A complexidade dos assassinatos e das motivações de cada uma dessas mulheres foram, por diversas vezes, reduzidas a explicações superficiais e descartáveis e Tori Telfer traz um novo olhar sobre essas narrativas.


"Aquela era uma geração de mulheres que jamais recebera nada e não podia esperar nada. Uma geração de mulheres cujos maridos haviam sido levados pela guerra e devolvidos mutilados, desiludidos, violentos, desconfiados e em estado de choque. O veneno não era perfeito,, mas pelo menos trazia uma mudança. Algumas daquelas mulheres assassinaram por desespero, como uma que o marido a espancava com uma corrente. [...] Algumas mataram para ficar com outros homens, como a esposa que envenenou o marido e casou com o melhor amigo dele. Outras mataram por vingança, como a mulher que envenenou o sogro que abusava dela. E havia aquelas que usavam o veneno para adquirir bens materiais, como a filha que assassinou a mãe para antecipar a herança." Página 256

Um ponto levantado por Tori Telfer ao longo de diversos capítulos é a sexualização desnecessária dessas mulheres. Algumas dessas assassinas, mesmo as mais sanguinárias, são retratadas ao longo do tempo com características sensuais, seja em por meio de pinturas que exaltam seus corpos, seja por meio de relatos sobre suas orgias ou “aventuras” sexuais.


Grande parte do choque associado a essas assassinas está no fato de terem sido mulheres que cometeram os crimes, e não a monstruosidade dos crimes por si só. Isso se mostra ainda mais evidente ao pensar no julgamento desses crimes.

Além disso, outro fator presente ao longo da narrativa é a aparência física dessas assassinas e com isso interferiu em seus julgamentos, como se a própria beleza fosse um fator capaz de condenar uma mulher. Isso é explicitado por Tori ao falar sobre Tillie Klimek, cujo fato de não ter sido considerada bonita pela sociedade representou um prego a mais em seu caixão.

Tori Telfer tem uma forma viciante de narrar os acontecimentos. Ela começa cada capítulo com uma cena curiosa, uma reflexão importuna, uma colocação de palavras interessante e, ao final de cada capítulo, retoma o que havia sido dito e fecha cada contexto de forma redondinha. Isso faz com que cada capítulo seja único, mas ao mesmo tempo incentive o leitor a começar o próximo, compondo um storytelling bem interessante.

"Esta foi a terrível verdade por trás do veredito: Tillie jamais teria sido encarcerada pelo resto da vida se fosse mais atraente aos olhos da época. Sim, ela obviamente era culpada, mas Chicago lidara com assassinas de maridos antes, e aquelas consideradas mais bonitas costumavam ser inocentadas. Vinte e oito mulheres foram absolvidas em julgamentos por homicídio nos anos anteriores, e todas tinham uma boa aparência." Página 208


Ao final do livro, Tori traz um capítulo conclusivo em que fala sobre a estereotipação das mulheres, a forma como foram e ainda são retratadas, o contexto histórico catalisador de alguns dos crimes e traz uma breve reflexão sobre nosso fascínio por histórias de assassinados e pela própria morte. São suas “reflexões sobre o bem e o mal”.

Além das quatorze mulheres ressuscitadas por Tori, a DarkSide traz, com exclusividade para a edição brasileira, um capítulo denominado “galeria letal", onde retrata mais quatorze mulheres que, juntas, foram responsáveis pela morte de mais de 450 pessoas. Com relatos resumidos em uma página cada, essa galeria traz mais fôlego às histórias dessas Lady Killers e faz com que essa edição seja um prato cheio para fãs de histórias reais e macabras com um toque feminino.


Como se retratar a história dessas mulheres não fosse o suficiente, Lady Killers: assassinas em série, traz um catálogo recheado para amantes de conteúdo sobre psicopatas, relatos macabros baseados em histórias reais, ficções sangrentas e indicações imperdíveis. São 32 indicações de filmes, séries, documentários e até mesmo videoclipes que retratam ou falam sobre mulheres assassinas. São fontes tanto para aprender mais sobre histórias reais quanto para mergulhar em ficções macabras.

Além disso, Tori Telfer e a DarkSide Books trazem uma “biblioteca mortal” com títulos separados por assassinas e interesse geral. Ou seja, existem indicações diversas caso o leitor tenha curiosidade e queira saber mais sobre determinada assassina ou simplesmente queira desfrutar mais do que a literatura pode oferecer sobre serial killers. As próprias notas ao final do livro trazem muitas indicações para quem tem interesse sobre o tema.

Ao final do livro ainda podemos desfrutar dos “recortes curiosos” com comparações e referências em comum entre as assassinas em série retratadas por Tori ao logo dos primeiros capítulos. Tudo enfeitado por páginas extremamente bem diagramadas, como recortes de revistas e jornais vintage.

"Se você fosse uma mulher e desejasse matar seu marido, a Chicago dos anos 1920 seria um ótimo lugar para isso. Tudo que você precisava fazer era atirar na nuca do safado traidor e depois aparecer no tribunal exalando perfume e mordendo os lábios de remorso. Seus advogados poderiam lhe pedir que ondulasse o cabelo, inspirada nas amáveis assassinas que foram absolvidas antes de você [...]. O júri masculino lançaria olhares de aprovação para seus belos tornozelos enquanto você passasse por eles, visivelmente trêmula. Vamos lá, deixe uma singela lágrima escorrer ao lado do seu nariz perfeito. Você sairá livre - mas só se for muito, muito bonita." Página 195


Lady Killers merece destaque não apenas por seu conteúdo extremamente rico, bem narrado e estruturado de forma precisa. A edição brasileira da DarkSide Books está impecável. É comum falarmos sobre acabamento e diagramação quando se trata dos títulos da caveirinha, mas Lady Killers ganha de todos os que mencionei até aqui.

O livro de Tori Telfer chega ao brasil em capa dura, com soft touch, verniz localizado e pintura trilateral preta, além do fitilho amarelo da linha “crime scene” que dá um toque a mais para essa edição maravilhosa. Além da folha de rosto bem chamativa, o miolo do livro traz uma surpresa a cada página.  Não faltou capricho e cada página foi claramente muito bem pensada e diagramada para fazer com que Lady Killers seja um presente mesmo para o leitor e apreciador mais exigente. Até o sumário chama a atenção e faz com que nossos olhos sejam capturados pelos detalhes.

As ilustrações que dividem os capítulos e dão cara para as assassinas também têm um apelo divertido, mas ao mesmo tempo não deixam que o livro perca a seriedade que merece. A diagramação também merece alguns comentários. Além dos trechos destacados imitando grifos de marca-textos, os trechos em destaque semelhantes aos “olhos” de jornais fazem com que a leitura seja mais dinâmica e ajudam o leitor a absorver melhor algumas passagens essenciais.

"Talvez o seu amado coronel tenha finalmente surgido diante dela, derrubado os muros da prisão e a conduzido através da cálida brisa noturna. Se não foi isso que aconteceu, Moulay deixou sua cela ao fim da pena e desapareceu uma segunda vez nas entranhas do mundo que a criou e a destruiu." Página 192



Lady Killers: assassinas em série, é uma leitura imperdível para todo leitor que aprecia uma narrativa concisa e envolvente, para aqueles que buscam mais protagonismo feminino, mesmo em histórias macabras, e para todo mundo que ama os livros e gosta de colecionar edições impecáveis na estante. Tori Telfer faz um favor para a literatura de terror e para a cultura pop ao imortalizar essas histórias de mulheres que chocaram o mundo com seus crimes brutais. Uma indicação perfeita para quem busca uma leitura feminista diferente de tudo o que temos por aí. Uma das melhores leituras de 2019, sem dúvidas.

Em homenagem à essa edição tão linda, confira mais algumas fotos do livro logo abaixo. E se você quer conhecer outro livro incrível que vai te obrigar a repensar o que você achava que sabia sobre as mulheres, saiba mais sobre Inferior é o car*lho!

"Associadas à origem da vida, é difícil enxergar as mulheres como criadoras e executoras. Talvez a sombra resida na linha tênue entre o milagre e o medo, o natural e o real. Sob a perspectiva de culpa e inferioridade intelectual e social, as mulheres passavam despercebidas aos olhos da sociedade. Quem sabe seja por isso que a ideia de uma mulher ceifando vidas é, para muitos, um absurdo." Página 343









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