Resenha: Razões para continuar vivo

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Tratar de um assunto tão delicado quanto a depressão não é tarefa fácil. Em um mundo cada vez mais preocupado com as aparências, conversar a respeito de distúrbios mentais se torna algo cada vez mais necessário e, ao mesmo tempo, difícil. Razões para continuar vivo me chamou a atenção pelo tema e pela proposta de contar experiências de forma honesta e delicada. Encontrei na escrita de Matt Haig um livro que aborda a depressão e a ansiedade da forma como deveriam ser vistas: com delicadeza e empatia.

"O mundo de Matt Haig ruiu quando ele tinha pouco mais de 20 anos. Ele não conseguia achar uma maneira de continuar vivo. Essa é a história real de como ele passou pela crise, triunfou sobre a doença que quase o destruiu e aprendeu a viver novamente.
Uma análise comovente e delicada sobre como viver melhor, amar melhor e se sentir mais vivo, Razões para continuar vivo é mais do que um livro de memórias. É um livro sobre como aproveitar seu tempo no planeta Terra.
'Quando eu tinha 24 anos, eu quase me matei. Na época, eu morava em Ibiza, Espanha, na parte tranquila da ilha. Minha casa era bem perto de um penhasco. Em meio à neblina da depressão, caminhei até a beirada do precipício e olhei para o mar, para a costa acidentada de pedra calcária, pontuada por praias desertas. Era a paisagem mais linda que eu já tinha visto, mas na hora aquilo não tinha importância. Eu estava muito ocupado tentando reunir a coragem que eu precisava para me jogar dali. Não me joguei. Em vez disso, recuei e vomitei tudo que estava sentindo.
Mais três anos de depressão se seguiram. Pânico, desespero, batalhas diárias.
Mas eu sobrevivi. Naquela época, eu tinha certeza de que não conseguiria passar dos 30. A morte ou a loucura total pareciam mais realistas. Já passei dos 40. Hoje vivo cercado por pessoas que amo, fazendo um trabalho que nunca imaginei que faria e passo meus dias escrevendo.
Fiquei muito feliz por não ter me matado, mas continuei me perguntando se havia alguma coisa para dizer às pessoas que estão passando por esses tempos sombrios.
Essa é minha tentativa.'"

FICHA TÉCNICA 
Título: Razões para continuar vivo
Autor: Matt Haig
Ano: 2017
Páginas: 240
Idioma: Português 
Editora: Intrínseca
Nota: 5/5 ♥
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA




Em dados divulgados pela OMS em 2017, a depressão está crescendo no mundo e o Brasil é o país com a maior prevalência da doença na América Latina. Cerca de 4,4% da população mundial é depressiva. No Brasil o número é de 5,8%, o que corresponde a quase 12 milhões de brasileiros. No que diz respeito à ansiedade, doença que afeta 264 milhões de pessoas, o Brasil é o país mais ansioso do mundo! Em uma sociedade que está se tornando cada vez mais depressiva e ansiosa por inúmeros fatores complexos demais para serem nomeados em uma simples resenha, Matt Haig traz um olhar de quem já passou pelo pior que a doença pode causar e sobreviveu.

Ele mostra a luz no fim do túnel tão invisível para tantos depressivos e mostra que é possível, sim, superar a doença, se tornar mais forte e mais capaz de lidar com esses demônios internos. Matt faz uma contribuição extremamente necessária não apenas para quem está enfrentando a doença e precisa de um ombro amigo, mas também para quem convive com pessoas depressivas e não sabe muito bem como ajudar ou sequer entende a doença e suas particularidades. 

Matt Haig já começa o livro fazendo algumas observações extremamente importantes a respeito da depressão. Ele explica que ela é uma doença muito complexa e não é sentida da mesma forma por todos que a têm. Em um mundo de julgamentos, é imprescindível ter alguém que diga que a depressão não é sempre aquele desânimo fácil de apontar, ela pode afetar pessoas que acabaram de ser promovidas, pessoas que normalmente são vistas como felizes e alegres, pessoas em relacionamentos saudáveis etc. Ela não é simples, não é a mesma e definitivamente não é fácil de se entender. Matt deixa claro que nem aqueles que estão sofrendo com a depressão conseguem entendê-la. 

“O estranho da depressão é que, por mais que se tenha pensamentos suicidas, o medo da morte continua o mesmo. A única diferença é que a dor de viver aumento muito rápido. Assim, quando ouvimos falar de alguém que se matou, é importante saber que a morte não terá sido menos assustadora para essa pessoa. Não foi uma ‘escolha’, no sentido moral. Ter uma reação moralista, nesse caso, significa não entender.” Página 23

Ele também levanta algumas questões interessantes. Por exemplo, a quantidade de homens que se matam é incrivelmente maior que a das mulheres, apesar do número de mulheres depressivas ser de aproximadamente o dobro. Matt apresenta fatos e estatísticas preocupantes a respeito da depressão e do suicídio no mundo, temas tão delicados que acabam sendo menosprezados por grande parte da população que, popularmente e estupidamente, assimila a doença à fraqueza, falta de fé religiosa ou até mesmo drama. "Você não será menos homem ou mulher ou ser humano por ter depressão do que seria por ter câncer, doenças cardiovasculares ou sofrer um acidente de carro", afirma o autor de forma brilhante em determinado momento do livro. 


Em determinado momento, Matt da razões pra ficar vivo, o que é uma bóia salva vidas pra quem está passando pela situação e ótimas dicas pra quem convive com um depressivo e quer ajudar de alguma forma. São razões delicadas, simples, mas extremamente poderosas. 

Ele destaca constantemente um elemento importantíssimo na depressão: cada um sente de uma forma diferente. Ao contrário de várias doenças mais fáceis de identificar devido aos seus sintomas tão característicos é praticamente universais, a depressão atua de forma diferente em cada um, por isso é tão complexa e difícil de ser diagnosticada por grande parte da população. Até mesmo o processo de melhora é diferente pra cada um. 



Uma das partes mais importantes é o pequeno capítulo "como ajudar quem tem depressão ou ansiedade". São dicas que deveriam ser impressas e distribuídas por aí. Muitos querem ajudar seus amigos, familiares e companheiros que têm depressão, mas por não saber como, acabam falando coisas que acabam fazendo a pessoa se sentir pior consigo mesma e se sentir cada vez mais fechada ao desabafo e ao diálogo. Dizer para um depressivo que "é só ter força de vontade" é o mesmo que dizer para alguém que não sabe nadar pular no oceano e "só ter força de vontade".

“Mais espantoso ainda é que a depressão seja uma doença tão ruim a ponto de as pessoas se matarem por causa dela de uma maneira que não se matam quando têm qualquer outra doença. E, no entanto, ninguém considera a depressão algo tão ruim assim. Se considerassem, não diriam o que costumam dizer.” Página 29.

Razões para continuar vivo é um livro tão interessante e diferente que, em determinado momento da narrativa, Matt faz uma lista com livros que leu na época em que estava começando a sentir que vencia a depressão e faz breves comentários a respeito desses títulos. Ele faz observações curtas sobre a leitura e como o livro interferiu de alguma forma na sua vida, seja antes, durante ou depois da depressão. Os títulos mencionados são interessantíssimos e já contribuíram para encorpar a minha própria lista de desejados. A forma como a leitura e os livros o ajudaram a de encontrar é linda e é fácil se identificar com o que é dito. Esse fator só fortalece ainda mais o aspecto de diário do livro, de conversa numa mesa de boteco. 

A forma do autor de conduzir a escrita é um aspecto que vale a pena mencionar. Os capítulos são intercalados de forma a manter a linearidade dos acontecimentos, mas existem pausas que quebram a narrativa de uma maneira positiva. É como se estivéssemos tendo uma conversa com o autor e, casa pausa, significaria uma linha de pensamento. Então enquanto ele está contando algum acontecimento, faz uma pausa para fazer alguma observação, reflexão ou dado que enriquece ainda mais a leitura. Enquanto ele está falando sobre a primeira vez que tomou remédios por conta de um ataque de pânico, ele pausa a narrativa, cria outro capítulo de apenas uma página para falar sobre como a depressão é a doença que mais mata no mundo, mas que é extremamente subestimada pela maioria das pessoas. É um recurso muito bom para tornar a leitura mais natural, como se todo o livro fosse uma conversa profunda e necessária. Matt sabe bem conduzir o leitor pelas suas experiências sem tornar a leitura difícil e dolorosa por causa da seriedade do tema

É um livro que trata a depressão de um jeito extremamente completo. Ele é fruto de anos de enfrentamento e sofrimento causados pela doença e é possível perceber o quanto isso transforma Matt. Mas ele apresenta um livro com opiniões científicas, filosóficas, individuais, reflexivas e até mesmo econômicas, com vários ângulos diferentes. É interessante porque ele trata da depressão de jeitos diferentes, então apesar do livro se tratar do mesmo assunto, são abordagens novas a cada capítulo. 


Ele alterna a narrativa de várias maneiras, o que torna esse livro ainda mais único. Parece que ele reuniu um amontoado de rascunhos guardados no caderno e transformou todos em um único livro. Em determinado momento ele está falando, em texto corrido, sobre suas experiências a respeito da vida, de insights que teve durante crises de ansiedade por exemplo, e no outro apresenta um novo capítulo em forma de uma lista de coisas que o fizeram sentir pior e, no outro, com coisas que o fazem sentir bem. Depois temos capítulos de um parágrafo apenas, textos escritos entre parênteses etc. Ou seja, são diversos recursos usados para deixar a leitura ainda mais fluida e, acima de tudo, proveitosa. Ele não deixa um assunto sequer mal explorado e ainda conclui o livro com uma lista de leituras complementares. Razões para continuar vivo é um livro tão completo que, em determinado capítulo, Matt dá dicas de como se portar durante uma crise de ansiedade e sugere atividades e hábitos para se fazer diariamente de forma a evitar essas crises ou diminuir seu impacto na vida. 

Para conseguirmos lidar melhor com a depressão e tentar diminuir os índices preocupantes e impedir que pessoas virem estatística, é preciso falar, ouvir, estimular que se fale e incentivar que se ouça aqueles que têm tanto reprimido e precisam colocar para fora. E Matt faz isso com perfeição. Razões para continuar vivo fala, ouve, estimula a conversa, apresenta fatos, demonstra sentimentos e escancara uma realidade que precisa ser mostrada. "Onde houver conversa, há também esperança".

Se você gostou da resenha e quer conhecer mais um livro incrível publicado pela Intrínseca, confira a resenha de A sutil arte de ligar o foda-se!

“A depressão nunca é igual para todos. A dor é sentida de maneiras diferentes, em graus diferentes, e provoca reações diferentes. Dito isso, se os livros, para serem úteis, tivessem que reproduzir exatamente a nossa experiência no mundo, só valeria a pena ler os livros escritos por nós mesmos. 
Não existe um jeito certo ou errado de ter depressão, ou de sofrer um ataque de pânico, ou de ter vontade de se matar. Essas coisas simplesmente acontecem. A angústia, como a ioga, não é um esporte competitivo. Mas pude constatar ao longo dos anos que a leitura de textos sobre pessoas que sofreram, sobreviveram e superaram o desespero me reconfortava. E me deu esperança. Espero que este livro possa fazer o mesmo.” 



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1 comentários

  1. Que resenha maravilhosa! Nunca tinha ouvido falar nesse livro, mas achei o tema super importante. Já cheguei e tentar ler livros desse tema, mas a maioria é muito "impessoal" sabe?! Com muitos dados, muita "auto-ajuda" mas nada sincero a ponto de permitir com que eu me identificasse. Esse Razões para Continuar Vivo me pareceu diferente dos outros. Vou procurar mais a respeito dele, pode ser que eu até compre, pois realmente gostei do que você escreveu sobre ele.
    Obrigada pela postagem!
    Beijinhos <3

    Toca da Lebre

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