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Nostalgia Cinza


Black Hammer é uma daquelas HQs que chamam a atenção desde a sinopse. Em meio a tantas histórias de heróis, é interessante ter em mãos uma narrativa focada naqueles super-humanos ou entidades poderosas que foram obrigados a se exilar. Com personagens fortes e um enredo que se desenvolve com maestria, Black Hammer é uma dica valiosa para fãs de HQs.

Quer saber o que eu achei dessa HQ? Então confira a resenha de Black Hammer:

"No passado, eles salvaram o mundo, mas agora levam vidas medíocres em uma cidade rural fora dos limites do tempo. Não há como fugir, mas Abraham Slam, Menina de Ouro, Coronel Weird, Madame Libélula e Barbalien tentam empregar suas habilidades extraordinárias para se libertar desse incomum purgatório. Obrigados a disfarçar seus poderes, sua natureza e suas origens aos olhos dos habitantes locais, eles personificam uma típica família disfuncional, tentando criar para si uma vida normal. Este primeiro volume, Black Hammer: Origens secretas, reúne os primeiros seis fascículos originais e conta ainda com posfácio do autor, perfis da construção de personagens e esboços originais."


FICHA TÉCNICA


Título: Black Hammer #1: Origens secretas
Autor: Jeff Lemire / Dean Ormston
Ano: 2018
Páginas: 184
Idioma: Português
Editora: Intrínseca
Nota: 4/5
Compre: Amazon 
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


Black Hammer conta a história de cinco heróis completamente diferentes que são obrigados a esconder suas identidades após a maior batalha de suas vidas. Personalidades tão fortes precisam aprender a conviver em uma espécie de purgatório após o desaparecimento de seu líder, o herói que dá nome à HQ.

Origens secretas é, como o próprio título já diz, uma HQ introdutória em que somos apresentados aos personagens principais, parte de seus poderes e peculiaridades e mistérios envoltos em suas histórias. Abraham Slam, um herói amargurado; Menina de Ouro, uma heroína presa em um corpo de uma criança; Coronel Weird, um homem atormentado por uma realidade paranormal; Madame Libélula, uma bruxa presa a promessa mágica; e Barbalien, um sábio marciano, se tornam uma família complicada enquanto precisam encontrar um jeito de sair desse purgatório assustadoramente banal.


Cada capítulo da HQ tem como foco um dos heróis e sua trajetória até ali, deixando algumas pontas soltas e mistérios que, com certeza, são trabalhados nos volumes seguintes. Mesmo tendo essa característica introdutória, a história se desenvolve bem, segue um ritmo de leitura agradável e é possível criar empatia pelos personagens já em suas primeiras aparições. Cada personagem vive um conflito pessoal, seja pelo seu passado abruptamente interrompido, seja pela sua realidade atual, com sentimentos se fortalecendo e novas pessoas sendo trazidas para suas vidas.

Uma das coisas que mais gosto em HQs é saber um pouco mais sobre o processo criativo da obra, tanto no que diz respeito à história quanto o desenvolvimento das artes até chegarem ao exemplar definitivo. Os quadrinhos dizem muito de seus criadores e podemos ler um posfácio completo e interessante escrito pelo autor, falando um pouco sobre como a sua trajetória profissional o levou até a criação de Black Hammer. A própria escolha do artista que daria vida aos personagens também é contada, uma vez que o autor, apesar de também ser ilustrador, acreditava que outro artista poderia compreender o que ele queria com a história de uma forma nova.


Além disso, o leitor também pode analisar os fascículos originais e compará-los à versão da HQ finalizada. Não bastasse os primeiros desenhos, a HQ também traz uma ficha sobre cada um dos personagens, suas características mais fortes, poderes, parte da sua história e traços mais definidos. É um recurso criativo excelente para fazer com que o leitor possa conhecer ainda mais cada um dos heróis.

Jeff Lemire mergulha na temática de heróis em decadência e nos apresenta uma HQ intrigante. Cada dilema e conflito desses personagens nos faz querer passar as páginas e descobrir seus segredos e, com eles, entender o que está por trás desse lugar incomum. A narrativa se reveza entre presente e passado, ou seja, entre a realidade bucólica em que vivem os protagonistas e o passado de ouro de suas conquistas como super-heróis.

O desenho de Dean Ormston é um ponto interessante para se analisar. Sua arte é bem caricata, o que fica visível nos traços fortes e quase exagerados dos heróis. É uma HQ bem colorida, apesar de não transmitir nenhuma sensação de alegria ou entusiasmo, é quase como se o leitor precisasse se sentir tão incomodado quanto os personagens. Ormston consegue transmitir as personalidades criadas por Lemire em desenhos tão únicos que às vezes fica a impressão de que Black Hammer é uma colagem de artes oriundas de diferentes HQs. O artista conseguiu criar um mosaico interessante de personalidades que se mesclam criando uma atmosfera tão singular quanto os próprios heróis.


Black Hammer mistura elementos clássicos de narrativas heroicas sem perder o charme que traz uma nova e interessante história. Após a leitura fica a vontade de ter todas as respostas e mergulhar nas próximas edições dessa HQ inusitada.

Gostou da resenha e quer conhecer outra HQ incrível? Então conheça a história de Nimona!




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15:19 8 comments

O sucesso de Neil Gaiman não é novidade para quem está atento ao mundo da literatura. Meus primeiros contatos com sua escrita foram por meio de algumas histórias mais recentes, incluindo Mitologia Nórdica e Alerta de risco. Deuses Americanos é sua obra mais célebre e, além do livro, rendeu uma série Amazon Prime Video, mas ainda não estava na minha lista de leituras. Quando a Intrínseca anunciou que publicaria aqui no Brasil esse clássico da literatura fantástica em formato de HQ, decidi que já estava na hora de ler a obra e me aventurar nesse mundo criado por Gaiman.

Quer saber o que eu achei da HQ de Deuses Americanos? Então confira a resenha:

"Mistura de road trip, fantasia e mistério, o romance Deuses Americanos alçou Neil Gaiman à fama mundial e ao posto de um dos maiores escritores de sua geração. Agora, os fãs de quadrinhos e da obra-prima do autor têm mais um motivo para celebrar: chega às livrarias o primeiro volume das graphic novels inspiradas em Deuses americanos. Ao todo, serão três volumes.
Em Sombras, as cores e os traços vibrantes de P. Craig Russell e Scott Hampton nos apresentam Shadow Moon, um ex-presidiário de trinta e poucos anos que acabou de sair da prisão e descobre que sua mulher morreu em um acidente de carro. Sem lar, sem emprego e sem rumo, ele aceita trabalhar para o enigmático Wednesday e embarca em uma viagem tumultuada e reveladora por cidades inusitadas dos Estados Unidos. É nesses encontros e desencontros que o protagonista se depara com os deuses - os antigos (que chegaram ao Novo Mundo junto dos imigrantes) e os modernos (o dinheiro, a televisão, a tecnologia, as drogas) -, que estão se preparando para uma guerra que ninguém viu, mas que já começou. O motivo? O poder de não ser esquecido."


FICHA TÉCNICA

Título: Deuses Americanos
Autor: Neil Gaiman
Ano: 2018
Páginas: 264
Idioma: Português
Editora: Intrínseca
Nota: 3,5/5
Compre: Amazon 
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA



Deuses Americanos tem uma premissa extremamente interessante e capaz de deixar o leitor curioso desde o começo da história, quando somos apresentados a Shadow, o protagonista. Com exceção de algumas cenas, a história dos deuses é contada a partir do ponto de vista de Shadow, de acordo com seu envolvimento na narrativa e participação no desenrolar dos acontecimentos. É Shadow quem representa o leitor ao longo da história porque diversos fatos só vão sendo explicados à medida que o próprio Shadow os descobre.

A história toda é contada por meio de viagens de um lugar para outro. Praticamente não existem cenários repetidos e Shadow está sempre em movimento, sempre indo atrás de algo ou cumprindo uma ordem de ir para algum lugar. A própria história dos deuses é contada enquanto os acontecimentos da HQ se desenrolam.

Algo que me incomoda a respeito de Shadow é sua facilidade em aceitar tudo o que acontece ao longo da história. Ele pouco questiona o que lhe é dito, não parece se importar tanto em diversos momentos por mais absurdos que eles possam ser e o vi com uma personalidade bem fraca para um protagonista que precisa ser o centro de uma história cujos coadjuvantes são deuses das mais diversas épocas. 


Deuses Americanos é uma HQ rica em conteúdo, perfeita para aqueles que gostam de ler quadrinhos com histórias complexas baseadas em diálogos ricos e narrativas muito bem trabalhadas. Não é uma HQ rasa, muito pelo contrário, é fácil se perder em meio a tantos personagens, tantos deuses e tantas histórias que são contadas paralelamente à jornada de Shadow.

Acredito que, por conta da quantidade de informações que são passadas em um ritmo acelerado, às vezes pode ser difícil mergulhar na história de forma mais fluida e se identificar com algum personagem. Não existem muitas explicações e cabe ao leitor descobrir nas entrelinhas o que acontece por trás da narrativa principal, o que é um bônus para aqueles que não gostam de histórias muito "mastigadas".

Por conter muito texto, a leitura não é tão rápida como acontece com outras histórias em quadrinhos, além do fato de que as ilustrações são feitas com tanto cuidado que merecem uma atenção especial, o que exige paciência e disposição. Ao final da história, essa edição ainda apresenta 20 páginas com os esboços das artes e notas de Daniel Chabon. Para os fãs de HQs é um prato cheio!


Deuses Americanos uma história baseada no movimento. Não apenas o movimento material do deslocamento de Shadow ao longo dos quadrinhos e sua passagem pelos lugares. O movimento também está relacionado às transformações das entidades cultuadas pelos homens. A história, tanto a narrativa quanto o contexto histórico, está sempre mudando, se reinventando, se movimentando a caminho de algo novo.

É uma narrativa bastante filosófica em suas reflexões. A cena em que Shadow se depara com deuses mortos é bem icônica. Na mitologia de Neil Gaiman, os deuses morrem quando o culto a essas entidades deixa de acontecer, ou seja, quando as ideias morrem, os deuses morrem também. Ainda segundo o mundo criado por Gaiman, deuses são constantemente criados pelos humanos já que os homens estão sempre buscando algo para adorar, mesmo que isso seja feito de forma involuntária e inconsciente. É interessante como ele materializa a tecnologia e o entretenimento, por exemplo, em forma de deuses próprios que estão acumulando cada vez mais poder e ameaçando os seres místicos que viveram no imaginário popular anteriormente.

Os traços da HQ são um espetáculo à parte. Como Deuses Americanos foi ilustrada por vários nomes, os desenhos são perceptivelmente diferentes em diversos capítulos. A própria separação de capítulos é ilustrada com traços de pintura digital, tornando as imagens muito realistas e expressivas, quase assustadoras. Os desenhos que compõem a maior parte da HQ também tentam se assemelhar à realidade com traços fortes e bem definidos, mas mantendo o tom caricato dos personagens. 


Apesar de não ter lido o livro ou assistido a série, a HQ de Deuses Americanos me parece uma ótima adaptação literária e, ao que tudo indica, fiel aos acontecimentos da história original. O cuidado com a edição, as artes e os diálogos ricos contribuem para que a história não perca em conteúdo, apesar de não ser uma leitura tão agradável para quem não se sente facilmente atraído por fantasias como as criadas por Neil Gaiman. Apesar de não ter me prendido tanto, nem me encantado da forma que eu esperava e não ter conseguido mergulhar na história como eu gostaria, acredito que a HQ de Deuses Americanos valha a leitura.

Gostou da resenha e quer conhecer uma HQ incrível publicada pela Intrínseca? Então confira a resenha de Nimona!


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12:04 4 comments


O dia das bruxas está chegando e, para quem gosta de entrar no clima dessas datas temáticas, montei uma listinha com indicações de HQs para ler no Halloween ♥

LOVE KILLS

LOVE KILLS é a investigação de Danilo Beyruth sobre o mito dos vampiros. A HQ tem uma protagonista feminina forte, um contexto bem urbano e underground, tem um toque de humor com o par da protagonista que meio que representa os leitores dentro da narrativa, é daqueles quadrinhos pra ler em uma sentada e todo o traço do autor é um deleite. Tem muito um clima de terror que combina com o Halloween, sem ser pesada demais para o público geral. Gostei bastante. 

CORTABUNDAS 

Essa foi um achado desse ano e indicação de uma amiga. Cortabundas é um trabalho de conclusão de curso de jornalismo, feito em quadrinhos, e que conta a história do Maníaco de José Walter, um sujeito que entrava na casa das pessoas para cortar suas nádegas com uma lâmina, e isso aqui no Brasil, em Fortaleza. É um belíssimo trabalho jornalístico, com uma reportagem toda em formato de HQ, ainda tem um toque de humor.

BLACK HAMMER

Black Hammer é uma HQ que eu indico em toda oportunidade que eu tenho porque é uma das minhas séries de quadrinhos favorita dos últimos tempos. Black Hammer conta a história de um grupo de heróis em decadência após derrotar o maior vilão de todos os tempos. Logo após essa batalha final, eles se deparam com uma realidade completamente diferente, onde estão presos a uma pacata cidade do interior dos Estados Unidos, e não conseguem sair de lá. É uma HQ que traz mistério, tem o toque do sobrenatural por causa dos heróis e de toda a atmosfera da história e é bem viciante. A Intrínseca já lançou todos os volumes então se você procura uma série de quadrinhos para devorar, pode ir com Black Hammer. 

MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO

Essa é uma HQ que eu sempre indico também e foi um dos primeiros vídeos que postei aqui no canal. Através do olhar da Kren, uma garota de dez anos completamente alucinada por histórias de terror, temos acesso a uma história de um assassinato misterioso, um drama familiar, um épico histórico e um suspense psicológico sobre monstros ― reais e imaginados. Se a história em si já não fosse incrível, eu indicaria apenas pelo trabalho de Emil Ferris porque essa é uma das HQs mais lindas que eu já vi. Cada página é impecável. Vou deixar o vídeo para vocês assistirem e verem um pouco melhor aqui nos cards. Mas se tem uma HQ que vai te deixar no clima do Halloween, vendo monstros de tudo quanto é tipo em todo lugar, essa HQ é Minha coisa favorita é monstro.

SILVESTRE

Silvestre é outro daqueles achados para fãs de quadrinhos. O que nasceu como um livro infantil de terror, virou uma graphic novel preciosa, que reflete, de forma visceral, a relação entre homem e natureza em todas as suas brutalidades. Eu particularmente gosto bastante da resenha que escrevi sobre o livro, vou deixar na descrição para quem quiser ler a saber mais dessa HQ e dessa história. Mas decidi indicar ela aqui porque a vibe um tanto quanto surrealista que ela traz, misturada com a maneira crua e assustadora que alguns acontecimentos vão se desenrolando combinam com uma TBR de Halloween, um pouco fora dos clichês dessas listas de dia das bruxas. É uma dessas pra ler de uma vez, mas ao mesmo tempo você sente a necessidade de parar, respirar e assimilar as nuances do que é trazido nas páginas. É realmente um deleite. 




*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente Photo by Viva Luna Studios on Unsplash

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04:49 No comments

As melhores leituras são aquelas que nos pegam de surpresa e nos deixam encantados por novos enredos, cenários e personagens. Minha Coisa Favorita é Monstro faz exatamente isso ao trazer, pelos olhos de uma jovem menina, uma nova maneira de enxergar o mundo e as pessoas. Uma HQ importantíssima para o gênero e uma leitura incrível!

Quer saber o que essa HQ tem de tão essencial? Então confira a resenha de Minha Coisa Favorita é Monstro!

"A história de um assassinato misterioso, um drama familiar, um épico histórico e um extraordinário suspense psicológico sobre monstros — reais e imaginados. A história em quadrinhos mais impactante desde Maus.
Com o tumultuado cenário político da Chicago dos anos 1960 como pano de fundo, Minha Coisa Favorita é Monstro é narrado por Karen Reyes, uma garota de dez anos completamente alucinada por histórias de terror. No seu diário, todo feito em esferográfica, ela se desenha como uma jovem lobismoça e leva o leitor a uma incrível jornada pela iconografia dos filmes B de horror e das revistinhas de monstro.
Quando Karen tenta desvendar o assassinato de sua bela e enigmática vizinha do andar de cima — Anka Silverberg, uma sobrevivente do Holocausto — assistimos ao desenrolar de histórias fascinantes de um elenco bizarro e sombrio de personagens: seu irmão Dezê, convocado a servir nas forças armadas e assombrado por um segredo do passado; o marido de Anka, Sam Silverberg, também conhecido como o jazzman “Hotstep”; o mafioso Sr. Gronan; a drag queen Franklin; e Sr. Chugg, o ventríloquo.
Num estilo caleidoscópico e de virtuosismo estonteante, Minha Coisa Favorita é Monstro é uma obra magistral e de originalidade ímpar."

FICHA TÉCNICA


Título: Minha coisa favorita é monstro
Autora: Emil Ferris
Ano: 2019
Páginas: 416
Idioma: Português
Editora: Quadrinhos na companhia
Nota: 5/5 
Compre: Amazon
Comprando por esse link você ajuda e incentiva o Nostalgia Cinza
LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


Minha Coisa Favorita é Monstro é uma HQ que me pegou desprevenida. Com o assassinato de uma vizinha de Karen, nossa protagonista, a história em quadrinho narra as reflexões e pensamentos de uma jovem deslocada e incompreendida, obrigada a encarar uma realidade hostil e pouco acessível.

De forma sutil, a HQ contextualiza a Chicago dos anos 60 e o fluxo migratório que a cidade sofreu. Fala sobre os diferentes tipos de pessoas que frequentam a Broadway e Uptown. Fala sobre a época de ouro dos filmes mudos em Chicago e sobre a vida boêmia da cidade em meados do século passado. Ao se referir à prostituição, por exemplo, a jovem protagonista usa a expressão “máquina da noite”. Por morar em um prédio considerado como “mal frequentado” pela elite da época, ela tem contato com os mais diversos tipos de pessoas e cotidianos, incluindo indivíduos ligados à máfia. Devido ao contexto da época e às condições de sua família, a pequena Karen tem contato com mais do que uma criança deveria ter, o que é responsável por alterar a sua percepção da realidade e ajuda a moldar a personagem, suas escolhas e visões.


É um mundo caótico e sobrenatural observado pelos olhos de uma criança. Alguns pensamentos nos relembram da idade da protagonista e de onde ela fala, como por exemplo “se a pessoa conseguisse enxergar por olho de vidro, o mundo ia ficar mais quebradiço?”

É um diário ilustrado. Todas as páginas contém fluxos de pensamentos de Karen, nossa protagonista, e narram seus dias de forma ilustrada. O único contato com o mundo em questão é pelos olhos dela, é o que nossa protagonista permite que conheçamos.


Minha Coisa Favorita é Monstro carrega uma carga emocional pesadíssima e isso se reflete nos traços. Por ser narrado por uma criança, pode se ter a impressão de seria uma história mais leve e divertida. Entretanto, ela trata de temáticas como assassinato, investigação, sexo, abuso, violência, sexualidade reprimida, além de relatar momentos inesquecíveis da história da humanidade como o holocausto, na pele de uma das personagens da história. O assassinato de J.F. Kennedy e de Martin Luther King também ajudam a apresentar o pano de fundo da realidade vivida pelos personagens e o contexto histórico que dita o tom da narrativa.

É nessa hora que os traços de Emil Ferris ganham uma profundidade ainda maior. Não bastasse os desenhos que imitam rabiscos com canetas esferográficas carregarem tanta emoção e serem uma obra de arte por si só, eles ainda guardam sutilezas que dão um toque ainda mais denso à narrativa. Ao contrário de muitas HQs, as artes de Minha Coisa Favorita é Monstro não servem apenas para ilustrar o que é narrado na história, elas contêm narrativas próprias. Não é à toa que a autora demorou 5 anos para terminar de escrever e ilustrar essa HQ.



Algumas HQs guardam uma profundidade bem maior do que damos crédito a elas e Minha Coisa Favorita é Monstro é um exemplo disso. Quando a protagonista retrata seus quadros favoritos, por exemplo, parece apenas um relato de seus passeios com o irmão aos museus, mas ela mostra, com a delicadeza de uma criança, como a arte passou a ganhar significados mais profundos para a menina. Por meio da arte, ela começa a aprender a ouvir, sentir e cheirar com o tato.

Sua forma de ver o mundo se transforma e isso influencia na maneira como ela o percebe e o retrata. Ela passa a recriar os quadros famosos que tomavam conta de seu imaginário em seu caderno de pauta, fazendo releituras únicas, com reflexões próprias.

A forma de ilustrar o semblante dos personagens já mostra a profundidade de algumas reflexões que Emil Ferris quer mostrar de forma implícita e a carga emocional que ela quer passar.


Emil Ferris também faz diversas referências a obras de artes famosas, inclusive recordando quadros e pinturas conhecidíssimas para mostrar a influência da arte na vida de Karen, nossa jovem protagonista. A recriação dessas artes é um espetáculo por si só, mas a maneira como Ferris consegue mesclar essas homenagens a grandes artistas com a influência na vida da personagem é um bônus.

A divisão das partes ou capítulos é feita com a capa de histórias de quadrinhos dedicadas ao sobrenatural e ao mundo dos monstros. Então além de apreciar as ilustrações de Ferris dentro do contexto de Minha Coisa Favorita é Monstro, ainda somos agraciados com ilustrações de capas de revistinhas que dão um toque a mais para um quadrinho que já se mostra importantíssimo para o gênero.


A HQ é toda desenhada como se tivesse sido feita com canetas esferográficas e em folhas de caderno. É possível ver as pautas, os buracos do papel e as ilustrações se mesclam com essas páginas. No começo, inclusive, uma parte é feita em cima de uma prova.

A escolha das figuras de monstros para essa narrativa me deixou intrigada ao longo de toda a leitura. Karen escolhe esses seres porque são os que ela se identifica: renegados, incompreendidos e temidos, características que ora ela representa, ora ela queria representar. Tanto que ao longo de toda a história ela bate na tecla de que esta esperando um monstro mordê-la para que ela possa se transformar logo. Ela também apresenta uma dualidade interessante entre os monstros bons e os monstros ruins. Isso pode ser bem explicado em trechos específicos e na forma como ela divide essas duas categorias com base nas ações de alguns personagens.


Minha Coisa Favorita é Monstro não foi uma HQ que consegui devorar de uma vez. Enquanto geralmente leio histórias em quadrinhos em um ou dois dias, precisei dedicar uma semana à criação de Emil Ferris. Não apenas pela complexidade do que cada ilustração guarda e por todo o contexto denso da narrativa, mas também pela carga emocional que a história carrega e pelas sutilezas escondidas em casa quadrinho.

Minha Coisa Favorita é Monstro é uma HQ poderosíssima porque ela consegue fazer críticas fortes e certeiras de maneira sutil. É quase como se Emil Ferris jogasse questões ao longo de toda a narrativa, seja em devaneios de Karen, a protagonista, seja em diálogos de outros personagens, que acabaram sendo ouvidos pela “monstrinha”, ou até mesmo escondidas nas ilustrações.


Vez ou outra aparece uma HQ que mostra a importância dos quadrinhos para a literatura, como forma de expressão artística e como conteúdo literário imprescindível. Minha Coisa Favorita é Monstro me surpreendeu de forma extremamente positiva e me fez relembrar como os quadrinhos guardam tantas camadas por trás dos traços dos artistas.

Minha Coisa Favorita é Monstro é uma HQ maravilhosa para quem é fã do gênero e é um bom começo para quem se interessa em ler mais quadrinhos. Uma leitura densa, profunda e extremamente relevante, para entreter e refletir. Um tesouro.

Gostou das minhas impressões a respeito de Minha Coisa Favorita é Monstro e quer conhecer outra HQ incrível? Então confira a resenha de Mulheres na Luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade!











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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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