Resenha: Você foi enganado

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Acho que nunca uma leitura veio em tão boa hora. Em meio a discursos midiáticos e promessas infames, é difícil encontrar um caminho que converse com todos os lados. Você Foi Enganado é um retrato de uma história política trabalhada em mentiras que mudaram o curso da democracia brasileira em momentos chave da história. O livro traz à tona mentiras contadas pelos últimos presidentes do Brasil, desde a redemocratização, e mostra como estamos fadados a repetir erros e a acreditar em promessas sem credibilidade. Uma leitura perfeita para uma época tão imperfeita.

"Sim. Você foi enganado. Ao longo da história do Brasil, candidatos à Presidência da República, vice-presidentes e presidentes eleitos faltaram com a verdade na hora de se dirigir à população. Independentemente de partido, se não mentiram, muitas vezes optaram por omitir dados ou induzir os cidadãos a conclusões equivocadas sobre o cenário político. Em Você foi enganado, os jornalistas Cristina Tardáguila e Chico Otavio apresentam uma seleção de casos que marcaram nossa história, desde 1920 até os dias atuais. Estão no livro episódios emblemáticos envolvendo quinze presidentes: documentos forjados para sugerir uma ameaça comunista; fotos posadas para omitir o grave estado de saúde de governantes; e presidentes que, eleitos, fizeram o oposto do que prometeram veementemente durante o processo eleitoral. Como os autores fazem questão de mostrar, essa característica não é exclusiva da política nacional, mas está presente em diversos países e em diferentes momentos ao longo da história."


FICHA TÉCNICA


Título: Você foi enganado
Autores: Chivo Otavio e Cristina Tardáguila
Ano: 2018
Páginas: 288
Idioma: Português
Editora: Intrínseca
Nota: 4/5
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É muito importante ter em mente que os autores não fazem juízo de valor ao relatar os episódios descritos no livro. Hoje em dia é muito comum que comecemos a ler um livro já com algum tipo de viseira partidária e qualquer frase que pareça minimamente contrária àqueles que defendemos parece apenas mais um tipo de tentativa de subversão da oposição.

“Composto por algumas das muitas histórias que envolvem mentiras, exageros e contradições que marcaram a vida política do país no último século, este livro é uma tentativa de tornar os eleitores mais atentos e preparados para as decisões que deverão tomar diante das urnas. Afinal de contas, as mentiras nunca saíram – nem sairão – de cena.” Página 9


Chico Otavio e Cristina Tardáguila não procuram fazer panoramas gerais dos governos das figuras políticas retratadas aqui, eles se mantêm à proposta de refutar frases-chave de cada um dos figurões da política brasileira. Com base nessas frases individuais eles refutam e apresentam dados que mostram que foram frases mentirosas. Por isso eles não falam de pontos positivos do governo de cada uma das figuras, não fazem o contrapeso. Até porque, caso fosse essa a ideia, seria necessário escrever, no mínimo, um livro para cada um dos políticos.

Dentro da proposta do livro, os autores cumprem um papel jornalístico importante e objetivo, sem tomar partido, de mostrar friamente uma realidade, sem fazer uso de artifícios emocionais. É a história de forma como ela é.


“Sabemos que a mentira é algo intrínseco à política, que faz parte dela há tempos e que continuará a existir. Mesmo assim, ou justamente por isso, acreditamos que é necessário ajudar os eleitores, alertá-los para o fato de que devem duvidar daquilo que escutam, leem e veem, ainda mais em tempos de hiperconectividade. A política move paixões. Este livro, também.” Página 23

Chico Otavio e Cristina Tardáguila escolheram falar sobre os últimos presidentes do Brasil, ou seja, aqueles desde a redemocratização do país: Figueiredo, Tancredo, Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer. O critério escolhido por eles foi o de frases célebres ou frases cuja mentira resultou em consequências histórias para o Brasil. A mentira contada por Tancredo, por exemplo, é relacionada ao seu estado de saúde, que, por mais que a família tentasse mascarar, fez com que o país fosse pego de surpreso pela morte do presidente. A mentira contada por Lula diz respeito à corrupção e a de Temer, à possibilidade de impeachment. Esses são alguns exemplos do que o leitor pode esperar no livro e mostram a importância de abrir mão de conceitos previamente estabelecidos antes de mergulhar na leitura.

A edição da Intrínseca faz jus à importância de livros como esse. Com uma capa feita para ser lida na horizontal, o título e subtítulo chamam a atenção pela similaridade com um noticiário impresso de forma simples, mas elegante. A impressão da capa no verso do papel reforça essa aparência de jornal e dá um toque a mais no livro. A diagramação do livro é excelente, com espaçamento na medida certa, divisões de capítulo também simples, mas bonitas, e fotografias chamativas.


O papel do jornalismo é, além de informar, dar acesso às informações de forma fácil e imparcial e acredito que Chico Otavio e Cristina Tardáquila conseguiram fazer isso muito bem. É fácil se perder em meio a tantas informações e os autores conseguiram reunir, de maneira enxuta, acontecimentos marcantes da política brasileira dos últimos anos. Os autores não apenas se limitam ao contexto histórico a partir da redemocratização, mas também fazem paralelos com a República Velha, a monarquia, a Era Vargas e a ditadura, o que faz com que o livro também seja uma boa referência para acontecimentos históricos.

Você foi enganado é um livro importantíssimo dado o atual contexto político e social do país e dialoga com todos os lados, todas as ideologias. Mais do que julgar determinado político,
Chico Otavio e Cristina Tardáguila querem prestar um serviço público e apresentar, de forma resumida, objetiva e acessível, importantes capítulos da história brasileira. Uma leitura tanto para o leitor distante das questões políticas, quanto para o leitor experiente e crítico.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro de Cristina Tardáguila? Então confira a resenha de A arte do descaso!


“Apenas rever o passado de inverdades ditas por poderosos ao longo dos últimos cem anos provavelmente não vai resolver esse problema. A política, como bem se sabe, jamais abandonará a mentira, os exageros e as contradições como ferramentas de poder. Mas, ao relembrar episódios em que o povo foi enganado, este livro pretende oferecer aos cidadãos recursos para que passem a duvidar de promessas de campanha, planos econômicos mirabolante, boletins médicos divergentes e assim por diante. Para que sejam, acima de tudo, mais conscientes de forma a tentar evitar que episódios indigestos se repitam.” Página 244

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