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Nostalgia Cinza


            Olhar para os números que marcam o passar dos meses sempre lhe trazia um sorriso travesso aos lábios. Ela conta as estações pelos amores que encontra no caminho. Ou quase amores. Nada banal, ela não aceita banalidades. Ama gestos simples desde que não sejam simplicidades.
Cada passar dos dias é uma promessa de uma nova chance. Quem sabe vai ser dessa vez?, sussurra o destino em seu ouvido. Nunca é, mas ele adora tentá-la. Ela se encanta fácil, encontra vários deliciosos desvios pelo caminho. Nada forte o suficiente para prendê-la. Infelizmente?
A magia das estações parece um constante recomeço. Colorido, novo, diferente. Ela quer sempre um pouco mais. Quem é preto e branco sabe dar valor a uma pincelada de cor. Procura um romance em cada passar de páginas do calendário que sempre leva consigo. Procura uma história diferente para cada verão de seu ano. Por que não? Um amor de verão em todas as estações.
No verão conheceu um daqueles machões, aquele que já conheceu todo tipo de mulher e faz questão de continuar conhecendo. Ele era garanhão, quente, intimidante, conquistador. No outono conheceu um daqueles proibidos, sua história favorita na sua estação favorita. Ele era tudo o que ela não esperava no momento que mais precisava. Misterioso, lindo, apaixonante, inexplicável. Finito. No inverno conheceu o mais charmoso de todos. Resolvido, de tirar o fôlego, sorriso perfeito e jeitão de menino. E, assim como as flores voltam a desabrochar na primavera, um brilho de esperança voltou a se acender. Ela conheceu um daqueles gentis, engraçados, com aquele olhar tenro e carinhoso. Para mostrar que talvez existisse esperança, afinal.
Mas, assim como um pássaro sempre sabe para onde migrar, ela sabe voltar para seu caminho. É a única coisa que sabe com certeza. Seu caminho meio incerto, meio tortuoso, meio cinza, meio ela. Seu caminho.
Define as estações pelos romances que quer viver, pelos sorrisos que lhe conquistam, pelas palavras que brincam em sua língua quando vê uma nova oportunidade. Ela quer ser feliz.
As pessoas tentam se encontrar, ela adora tentar se perder. Se perde para esperar que alguém a encontre. Se perde e se procura em cada sorriso torto que parece conter a resposta para aquilo que procura. Para aquilo que ela sequer sabe o que é.
Enquanto isso, risca os dias, se abana, guarda uma folha, se aquece, colhe as flores. Esperando pelo dia em que irá conhecer alguém que a faça mudar de ideia. Porque, no fundo, tudo o que ela não precisa é ficar sozinha. Porque ela não quer ficar. Alguém que lhe mostre que sua própria companhia não é a melhor de todas, afinal. Alguém que a faça se sentir como se não estivesse melhor solitária. Alguém que não apareça de forma diferente em cada mudança de ares.
Alguém que seja todas as estações em uma só.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest.
13:47 7 comments

E com o tempo todo o brilho que ela tinha dentro de si foi se apagando. Ela tinha tanto pra dar... Tudo o que ela amava em si mesma foi se distanciando até não passar de uma vaga lembrança do que antes chamava de amor próprio. Quando ela abria os olhos, havia luz, havia pureza, havia esperança. Hoje aquela chama não existe mais, parece que sequer existiu.

Sua voz alta, alegre e confiante diminuiu algumas oitavas até se tornar um constante silêncio. Amargura. Ela não ligava de ser a vela acesa contra o vento, achava que era uma montanha, tinha certeza de que era invencível. Mas as brisas se tornaram ventanias mais do que capazes de apagá-la. E apagaram.

A cera secou, a chama morreu. Seu brilho se foi. Ela nunca mais foi a mesma. Aquela história de ir contra o mundo não era pra ela afinal. Ela não era tão forte quanto imaginava ser. Talvez nunca fosse forte como queria ser. Ela nem se lembrava mais de seu brilho, se é que teve mesmo um brilho próprio algum dia. Conseguiram o impossível; fizeram escorrer lágrimas de uma pedra, fizeram um anjo sangrar.

Ela não era invencível, não era uma chama, não era um anjo. Ela não era nada. 

11:06 19 comments

            Ela caminhava a passos pesados pela grama baixa. Com a cabeça baixa tomava cuidado para não pisar nos lugares errados, se esforçava para acompanhar o homem à sua frente. Não sabia se fincava seus pés no chão e esperava por ele ou se o acompanhava naquele ziguezague extenuante. Parou de seguí-lo algum tempo depois e respirou fundo.
            Quando acordou naquela manhã o sol prometia castigar, mas naquele momento eram as nuvens carregadas que marcavam presença no céu. Ela não saberia dizer o que estava mais cinzento, o clima ou aquele momento.
Perfeito, pensou com ironia.
            Seus cabelos voavam em todas as direções, tinha que passar a mão por entre as mechas louras o tempo todo tentando mantê-las minimamente comportadas. Obrigou seus pés a caminharem, não conseguia ficar parada.
            Dava passos curtos e nada precisos. Rodava a rosa entre os dedos sem se importar muito que algum espinho pudesse alfinetá-la. Naquele momento estava mais preocupada com o rumo de seus pensamentos. Quando ergueu o rosto percebeu que algumas pessoas a observavam de longe e não entendia o motivo. Estava ali sozinha, mas não podia ser isso o que chamava a atenção. Será que alguém a reconhecia? Não, ela pensou. Não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Por algum motivo ela atraíra olhares naquele lugar. Respirou fundo e fechou os olhos por um momento, tudo o que queria era ficar invisível.
Ignorando o desconforto, segurou o cabo da rosa com as duas mãos e olhou ao redor. A grama cobria praticamente toda a colina como um fino tapete verde exceto pelos pequenos retângulos de mármore. Algumas árvores se destacavam na paisagem mórbida, indo desde a parte mais baixa até as partes mais altas da colina como se quisessem tocar o céu.
Alguns pequenos grupos conversavam entre si, suas feições sempre neutras, vez ou outra esboçando um franzir de sobrancelhas e um olhar distante. Algumas pessoas caminhavam pelas pequenas ruas asfaltadas e eram consoladas por conhecidos enquanto se debulhavam em lágrimas. Havia poucos solitários como ela e todos pareciam querer sumir diante dos olhares estranhos.
Não sabia porque estava naquele lugar, mas sentia que precisava.
– Aqui. – O homem uniformizado parou de caminhar e fixou seu olhar no chão.
Ela respirou fundo mais uma vez antes de ir ao seu encontro.
– Obrigada. – Sorriu com os olhos marejados.
O homem lhe respondeu com um aceno e retribuiu o sorriso se afastando dali.
Ela apertou a rosa entre os dedos e olhou para o retângulo de mármore aos seus pés. Sentiu um aperto no peito e se agachou.
O nome estava quase todo coberto por uma fina camada de folhas, terra e poeira. Passou a mão afastando o quanto pôde aquela sujeira até que as letras ficaram visíveis novamente. Suspirou e sentiu seus olhos ficando cada vez mais úmidos.
Ela honestamente não sabia porque se sentia daquela maneira. Não era como se estivesse ali por causa de qualquer tipo de laço. Ela sequer conhecera profundamente aquela mulher. Tinha dito que iria até aquele lugar apenas por respeito, para prestar um favor. Mas engara a si mesma. Precisava ir até ali para sentir o que estava sentindo, para tirar da cabeça tudo aquilo que martelava em seus pensamentos.
Às vezes o inesperado acontece. Ela com certeza não esperava que aquilo acontecesse. Ninguém esperava que a vida daquela mulher fosse simplesmente... acabar. As pessoas morrem, mas não deveria ser daquela maneira. Mas de que maneira deveria ser afinal? Quando tanto sofrimento está envolvido, quando tanta dor se acumula dentro de uma só pessoa, que escolha existe?
Em poucos segundos, ela não soube como reagir à avalanche de emoções que tomaram conta de seu corpo. Tristeza, pena, admiração, nostalgia, respeito. Medo. Ela sentia tudo e não sentia nada ao mesmo tempo.
Quando lágrimas começaram a rolar por sua face ela se sentiu estúpida. Não tinha o direito de chorar sob aquele túmulo. Ou será que tinha? Sequer sabia porque estava ali. Só sabia que precisava descobrir. Não tirou os olhos das palavras nem por um momento, nem quando olhou tão fixamente que a combinação de letras não fazia mais sentido.
Acariciou as pétalas da rosa e levou-a até o nariz uma vez antes de depositá-la aos seus pés. Abraçou a si mesma se sentindo completamente sozinha em meio ao turbilhão em que sua mente se encontrava. Ela não sabia o que pensar, não sabia como deveria se sentir.
De repente tudo fez sentido. Ela não estava ali porque conhecera aquela mulher, porque conversaram algumas vezes. Não. Ela estava ali porque tinha medo de conhecer a si mesma. Tinha medo de se identificar, de perceber que talvez não eram tão diferentes assim. Precisava ir até ali para saber como se sentiria, e tinha se assustado com o que sentia.
Não queria ter ido ali sozinha, queria poder compartilhar tudo aquilo que estava pensando com alguém, mas sabia que não entenderiam. Sabia que, querendo ou não, precisava fazer aquilo por si mesma.
Chegara naquele lugar com um aperto no coração, como se algo estivesse preso ali dentro sem saber como sair. Mas já não era mais assim. Estava confusa, um pouco assustada e sentia-se sozinha, mas agora tinha certeza de uma coisa.
Deixou que a brisa secasse parte de suas lágrimas e acariciando as pétalas da flor uma última vez, levantou-se. Não olhou de novo para o nome antes de se virar e andar para longe dali.
Olhou por cima do ombro sentindo como se estivesse dando adeus para uma sombra dentro de si mesma. Não se permitiria ter o mesmo destino, jamais. Talvez não fossem tão parecidas assim, pensou. Ela não permitiria que fossem. Seria forte por si mesma, sabia que era capaz. Suas sombras só seriam causadas pelo sol, não por si mesma. Precisava ir ali para redescobrir essa certeza.
Enquanto caminhava, olhou para trás uma vez. Apenas uma vez. 

19:54 2 comments

            O inverno daquele ano havia chegado de forma rigorosa. A lua cumpria seu papel e prateava aquela noite assustadoramente negra. Pequenos pontinhos brancos caíam do céu e se encaixavam em tudo o que estivesse ao seu alcance pintando a paisagem. A temperatura parecia cair cada vez mais. O asfalto estava coberto de gelo e as casas mal podiam ser vistas por baixo do grosso manto de neve.
            Ele estava no seu lugar de sempre, escolhido entre jornais, papelão e alguns trapos que um dia foram considerados cobertores. Há algumas semanas havia encontrado esse shopping center a céu aberto e tomou pra si um beco coberto entre duas lojas; uma de ferramentas, outra de cosméticos. Todo dia prometia a si mesmo que encontraria outro lugar, mas parecia que o inverno não perdoava e cada vez que a noite chegava perdia a coragem de sair dali. Já havia desistido de encontrar um abrigo que o aceitasse, nessa época do ano não havia mais nem uma única cama disponível e as filas para uma noite também estavam longe de serem animadoras. Aquele era seu canto no mundo, feio, precário e esquecido, mas ainda assim era seu canto.
            Ajeitou seus trapos e se encolheu quando viu os flocos de neve caindo do céu. Seria mais uma noite daquelas, pensou. Não era muito tarde ainda, mas o fluxo de pessoas que estavam passeando ali estava surpreendente. Podia ouvir risadas e trechos de conversas banais.
            As pessoas que passavam por ele apressavam o passo com medo e desconfiança, mas não as julgava, também sentiria um certo desconforto se não fosse ele naquela situação. Não se sentiu incomodado, só queria um lugar para descansar um pouco e não pensar no que faria no dia seguinte. Assim que se sentiu razoavelmente confortável, seu estômago roncou alto e ele se permitiu murmurar uma reclamação alta.
            Uma mulher muito bem vestida e devidamente agasalhada passou por ele e, assim como os outros, andou mais rápido. Nem se deu ao trabalho de prestar atenção em suas feições, as pessoas eram como sombras que passavam por ele. Como se nunca pudesse tocá-las, tampouco pertencer ao mesmo mundo que elas.
Tentando esquecer o frio e a fome, se obrigou a dormir um pouco, talvez quando abrisse os olhos estaria tudo um pouco menos pior. Como não podia contar com a chegada da primavera tão cedo, tinha a esperança de que quando abrisse os olhos seria acordado com a luz do sol aquecendo sua pele e driblando um pouco o inverno.
            Algum tempo depois foi acordado com o barulho de passos desajeitados. Droga, ainda não era dia, pensou com desprezo. Ergueu o rosto buscando o ruído e tentou distinguir com olhos cansados os contornos da pessoa que andava em sua direção. Reconheceu a mulher que havia passado por ele por causa de suas roupas escuras que pareciam ser muito quentes e confortáveis, lembrava de ter pensado. Ela carregava várias sacolas nos braços enquanto tentava se equilibrar nos saltos que definitivamente pareciam caros. Por alguns segundos considerou a hipótese de ajudá-la, mas teria que sair de seu canto e temia que ela fosse gritar ou agredi-lo se chegasse perto demais. Estava enganado.
Chegando perto dele, a mulher se agachou e, apesar do frio congelante, deu um sorriso capaz de aquecê-lo de dentro para fora. Ela tinha um sorriso bonito, pensou.
– Boa noite, senhor, desculpe incomodá-lo. Não é muito, mas espero que seja do seu agrado. A noite de hoje está castigando de verdade. – Com isso ela se levantou, sorriu novamente e se afastou, dessa vez andando de maneira mais segura.
Ele abriu as sacolas e arfou surpreso. Não pôde deixar de olhar em volta para ver se havia algo errado. Ela havia lhe dado dois novos e espessos cobertores, várias meias que pareciam bem resistentes, um casaco preto bem grosso, luvas de couro e dois gorros. Ao abrir as outras sacolas quase queimou a mão com as embalagens quentes de sopa e café.
Não esperou nem um segundo para atacar o primeiro pote de sopa, nem se importou em queimar os lábios. Encontrou na sacola de comida algumas fatias de pão e quase gemeu de satisfação. Estava louco para vestir o novo casaco e se encolher nos cobertores, mas o frio teria que esperar, aquilo estava bom demais. Depois de se esbanjar com a comida e se deliciar com o café, arrumou seu canto da melhor maneira possível e se sentiu satisfeito ao deitar. Não se sentia assim há muito tempo.
Os flocos de neve continuavam caindo e ele deixou sua mente vagar pelo inverno. Que engraçado, ele pensou. “Não é muito”, ela havia dito, mas para ele ela havia dado tudo.


Escrevi esse conto para uma prova da faculdade e decidi postar aqui. O que achou? Gostou do conto? Já escreveu algum parecido? Não deixe de comentar!
18:17 No comments

            Sabe, querido... Esses dias, entre mais uma troca de cores no céu, algumas imagens dançaram em minha mente.
            Eu estava pensando naquelas praias desertas, secretas e escondidas, como você mesmo já mencionou certa vez. A gente podia construir nossa casinha daquele jeito em que sonhamos acordados de vez em quando. Nosso paraíso particular a alguns passos do mar, logo na areia, com um quintal improvisado na parte de trás e uma varanda de madeira ocupando toda a frente do nosso cantinho. Dois andares modestos com cômodos pequenos e simples, com um quarto quadradinho e aconchegante, mas com um banheiro um tanto quanto extravagante. Com uma banheira com vista para o mar e aquelas janelas gigantescas que você jurou que me daria um dia.
A gente nem precisa de tanta coisa, me contentaria com uma televisão meia-boca só para nos entreter quando o clima não permitir e depois de ter ouvido a sua bronca por querer fazer algo tão infantil quanto ficar lá fora na chuva. A gente podia ter uma rede na varanda. Eu sei que você sempre quis ter uma daquelas redes enormes, mas posso confessar um segredo? Prefiro aquelas normais, pequeninas mesmo, só pra você ter que me espremer entre as suas pernas e sobre seu peito, pra você não ter escolha a não ser passar os braços em volta de mim. Mas se for pra convencer você a se mudar pra praia comigo, aceito a rede maior, vou dar um jeito de me aconchegar em você de qualquer maneira, você sabe que sou boa nisso.
Se você aceitar morar na praia comigo, vai poder ter aquele jipe que sempre me mostrou nos catálogos, eu nem gosto mesmo. Juro que não reclamo do vento no cabelo quando você me arrastar para algumas voltas. Até deixo de insistir em pegar no volante também só pra manter esse sorriso leve no seu rosto. Se você aceitar morar na praia comigo juro que tento não reclamar tanto do calor, até te faço companhia pra caminhar durante o dia se você prometer dançar comigo na areia de noite. Deixo você me arrastar pra fora pra ver a lua; vou tremer com o frio do vento e sorrir pro calor do seu abraço. Vamos ter um lugar pra colocar aquele telescópio antigo do seu avô, a gente observa o céu enquanto você me mostra as estrelas jurando que sabe do que está falando e eu juro que acredito. Se você acender aquela fogueira que uma vez me confessou que sabia fazer, prometo me enroscar em você. Contanto que você toque alguma coisa na sua gaita também, claro. Posso até te fazer rir com minha voz enferrujada e minhas notas desafinadas. Você adora rir da minha empolgação.
Preciso de um espaço para os meus livros, uma estante qualquer ao lado da sua poltrona favorita. Se você cumprir a promessa de ficar sem camisa o dia inteiro, leio em voz alta algum trecho dos meus romances bobos, aqueles que você morre de ciúmes. Prometo deixar sempre no sofá o cobertor que você tanto ama, faço também o sacrifício de comprar algumas cervejas que você, por mim, finge não gostar. Não me incomodo tanto assim, não sendo você.
Vamos morar na praia? A gente faz amor no mar ou se preferir deixamos o romance de lado e só nos agarramos na areia mesmo. Fica me vendo fazer yoga na areia? Eu deixo você rir de mim nas vezes em que eu cair, contanto que você me dê um beijo e me pergunte se doeu. Fico um dia inteiro só usando uma camisa branca qualquer. Deixo você me molhar o quanto quiser, seu olhar intenso vale qualquer coisa. A gente realiza o sonho de ter dois cachorros grandes correndo por aí, te provaria que não sou uma mulherzinha e construiria eu mesma a casinha deles. Bom, pelo menos eu tentaria. Você acabaria tendo que intervir às gargalhadas e terminaria o trabalho, mas pelo menos meu ponto estaria provado. Até te daria um pug pra ficar roncando pela casa, nunca vi um homem do seu tamanho gostar de um bichinho desses.
Prometo me desdobrar na cozinha mesmo não tendo talento nenhum pra isso, você bem sabe. Prometo ser paciente em toda a minha impaciência, ser mais calma em meio a toda a minha tempestade interior. Tenho certeza de que a gente se encontra no meio de toda a nossa contradição.
Quero ver meu esmalte escuro se desfazendo facilmente por causa da maresia. Quero sentir o cheiro do oceano na sua pele, ver o brilho das ondas no seu sorriso e ouvir a mais pura beleza na sua risada alta e grossa. Quero me encontrar em seus braços em baixo de um pôr do sol salgado e sentir o gosto do mar na sua língua. Nua sob seu corpo, despida de qualquer melancolia. Me permite esse devaneio doce e morno? Esse amor azul e fresco? Essa vontade aguda e quente? Então, querido, muda pra praia comigo?
13:33 7 comments
Sobre caminhos meio tortos, amizades nostálgicas e olhar para trás.


Dizem que nossas escolhas nos definem. Não sei se consigo conviver muito bem com isso, afinal, nem todas as escolhas até aqui foram feitas inteiramente por mim. Sei que grande parte foi sim, mas... não sei. Sou egoísta ao ponto de não querer ser responsável por tudo. Tenho a péssima mania de querer olhar para trás o tempo inteiro e nem sempre isso me faz bem. Jurei para tantas pessoas que algo seria eterno e acabou não sendo. Jurei que tantos momentos seriam duradouros e acabaram se tornando apenas mais um conjunto de lembranças que eventualmente eu desenterro por conveniência. Eu tinha tantas certezas que hoje me pergunto como foram se tornar dúvidas... Acho que deixei o tempo correr tão livremente e, quando me dei conta, ele já não estava mais lá. Os momentos haviam terminado, as pessoas foram embora e o presente se tornou passado.
Quando foi que tudo mudou tão rápido? Em que momento eu me perdi? Não sei onde minha mente estava, não faço ideia de onde meu coração se meteu. Achamos que sabemos que nada dura pra sempre. Confuso. Verdadeiro. Acredito que tinha esse “achismo” em mim e só percebi isso agora.
Estou escrevendo esse texto porque um incômodo choque de realidade me pegou de surpresa. Uma amizade de longa data me fez voltar a questionar algumas certezas idiotas. Temos consciência de que as pessoas também vivem suas vidas e seguem em frente independentemente se estamos presentes ou não, mas por egoísmo nos recusamos a acreditar. Sempre pensamos: “ah, ela volta. Tudo sempre se resolve.” Mas... E se não for? E se dessa vez foi diferente?
Eu tinha certeza de que, mesmo distante, algumas pessoas seriam eternas. Quando se conhece alguém há tanto tempo, é inevitável criar esse sentimento de conforto para com a pessoa. Eu criei, sabe? Eu tinha certeza absoluta de que não importavam os caminhos, no final o destino seria o mesmo. Algumas amizades parecem grandes demais para ter um fim. Acho que o que mais me incomodou nessa história toda, não foi “a curva na estrada” em si. O que me deixou um pouco perplexa foi o fato de que só eu me senti incomodada com aquela realidade. Fomos grandes amigas sim, de anos, mas o fim não me incomodou tanto quanto a sensação que se seguiu. Eu me senti sozinha no meio desse sentimento. Será que eu sou a única que está achando isso tudo muito esquisito? Os incomodados que se retirem? A amizade na qual eu me refiro não era aquela necessária, entende? Não era uma amizade urgente. Pelo contrário, era... Morna. Podíamos passar semanas sem nos falar e no final não fazia diferença nenhuma.
 As risadas eram as mesmas, os sorrisos e a fraternidade continuavam sempre lá. Parecia que, por mais que a gente se afastasse, a intimidade permaneceria ali e ambas sabíamos disso. Era bom, era diferente, era morno.
Juro que não acreditava que algo tão sutil me tocaria tanto. É nostálgico como eu me senti pequena diante todos esses pensamentos. Eu senti... Saudade. Por mais que eu tentasse negar, por mais que meu orgulho ferido gritasse e esperneasse, eu senti saudade. É ruim quando algo não parece nem perto de ser recíproco, nos sentimos insignificantes.
O que eu estava falando mesmo? Ah, escolhas! Esse sentimento cinzento chamado saudade me atingiu quando eu andava pelos longos corredores da escola e meu olhar cruzou com o olhar dessa estranha conhecida. Foi inesperado, quase atrevido. Em meio segundo, todos esses pensamentos disfarçados de palavras cruzaram minha mente. Tento entender até agora o que aconteceu, procuro pela maldita escolha que foi capaz de mudar tudo. Não acredito que algum dia vou conseguir a resposta que eu quero. Quero tantas respostas impossíveis e inalcançáveis, essa terá que se cornformar em ser apenas mais uma entre muitas.
O que aconteceu depois da troca de olhares? Dividimos um sorriso cúmplice e cada uma voltou a seguir seu caminho por aqueles corredores. Continuamos fazendo escolhas como todo mundo e esperamos não errar mais uma vez, ou pelo menos encontrar o caminho certo no meio de estradas erradas. Acho que em cada curva alguém novo e maravilhoso pode aparecer e mudar tudo, mas também espero que, vez ou outra, apareça alguma visita inesperada como essa que me faça abrir algumas portas já fechadas e me faça repensar um pouco.
Nem todas as pessoas precisam nos mudar radicalmente ou causar um estrago. Também não precisamos sempre de alguém completamente novo. Nem sempre o velho é ruim, nem sempre faz mal olhar para trás, foi bom perceber isso. O friozinho na barriga que vem acompanhado da nostalgia pode ser bem agradável. Continuamos a nos cruzar por ai, nos esbarramos ocasionalmente. O sorriso sempre continuou o mesmo, sou bastante grata por isso. É claro que a saudade também faz questão de marcar presença, seria estranho se não marcasse. Algumas vezes aparece grave e dura ou até aguda e sutil. Mas de vez em quando, a saudade vez simplesmente... Morna.

17:13 3 comments


            Os últimos dias do ano estão finalmente se arrastando e a gente vai vendo o calendário acabando cada vez mais rápido. Já está chegando a hora de reler todos aqueles clichês de “novo ano, novo eu”, “Página 1 de 365” e etc. Clichês nas palavras e nas atitudes. Esse ano vou levar a academia a sério, esse ano vou largar meu emprego, esse ano vou tomar vergonha na cara e terminar com o encosto, esse ano vou mudar de vez tudo aquilo que não gosto em mim. Soa familiar?
            Eu, assim como praticamente todas as pessoas sãs no planeta, sempre estabeleci metas para o ano que está começando – mesmo que uma das metas fosse não ter metas. Percebi que muito daquilo que eu queria era superficial e, infelizmente, material. E mesmo aqueles desejos inocentes como terminar uma história que estava começando a colocar no papel eram muito complexos e demandavam muito tempo e dedicação que nem sempre eu podia dar. Hoje, tentando absorver tudo o que vivi nesse ano, percebo que aqueles momentos pequenos, praticamente insignificantes, foram os que mais me marcaram de alguma forma. Sou dessas românticas incorrigíveis que se lembram mais de um sorriso do que de um presente, que guarda um olhar, mas não guarda uma data. Meu ano não foi tão cheio de momentos marcantes e gigantes, mas foi – ainda bem – repleto de pequenos detalhes inesquecíveis.
           Doze meses atrás, quando estava pulando minhas sete ondas e dando uma rosa vermelha de presente para o mar, desejei muita coisa que não dependia de mim, muita coisa que, no fundo no fundo, eu sabia que não acrescentaria nada significante. O ano novo não chegou pra mim ainda e sei que esse ano quero algo diferente, quero algo mais simples e sincero. Em 2015 eu quero me apaixonar.
            Quero me apaixonar por lugares novos, por algum chão que nunca pisei antes. Quero me apaixonar pelo ar fresco de algum ambiente que até então era inédito para mim. Quero me apaixonar por momentos que sei que não vou ter de volta, por sensações que vão ficar para sempre impregnadas em mim. Quero me apaixonar por sorrisos, por risadas altas e gostosas. Quero me apaixonar por olhares, por toques discretos, por mãos dadas. Quero me apaixonar por abraços, por carinhos. Quero me apaixonar por novas perspectivas, por novos colegas, por novos amigos. Quero me apaixonar por um trabalho, por um livro, por um filme, por uma nova história. Quero me apaixonar pelo vento, pelo mar, pelo céu. E, se todas essas paixões não forem o suficiente, quem sabe não quero me apaixonar por alguém que faça meu coração bater um pouquinho mais rápido?
            Nesse ano que está começando, ao invés de fazer promessas que, cá entre nós, você sabe que não vai cumprir, procure se apaixonar. Apaixone-se por quem você não via há tempos e por quem você vê todo dia. Apaixone-se por um lugar novo, por um lugar velho, por um sonho. Apaixone-se por alguém que gosta de se sujar, de rolar na grama, de brincar como criança. Apaixone-se por um sorriso discreto, por uma risada solta, por um frio na barriga. Apaixone-se por um pensamento, por uma ideia. Apaixone-se por uma mordida de amor, por um abraço de adeus. Apaixone-se por um velho amigo, por um novo amor. Apaixone-se por um dia, por uma data, por uma manhã. Apaixone-se por um flerte, por uma conversa de bar, por um encontro casual. Apaixone-se por um pôr do sol, por uma lua minguante. Apenas... apaixone-se.
Você não precisa de um grande amor para se apaixonar, basta uma mente aberta e um brilho nos olhos. Um quê de esperança faz bem pra qualquer um, mesmo que esse qualquer um seja você.
Deixei minhas metas e promessas de lado e estou me arriscando com algo mais romântico e sincero e, convenhamos, bem mais complexo também, né? Esse ano estou aberta para novas paixões.
Quer fazer uma promessa de ano-novo? Promete tentar se apaixonar! Aqueles quilinhos que você perdeu se matando na esteira vão, sinto lhe informar, acabar correndo de volta pra você, mas aquela oportunidade que você deixou passar não vai voltar. Sorria de volta para alguém diferente que te olhar na rua, você vai se apaixonar pela sensação de ser correspondido.
Espero que 365 dias depois que o último fogo de artifício estourar no ar você esteja mais leve e apaixonado por qualquer simplicidade que tenha agradado seu coração ao longo do ano. Espero que surpresas façam com que eu e você nos apaixonemos com um sorriso no rosto. Nesse ano que está começando desejo toda a sorte do mundo para nossos corações, eles vão precisar de uma ajudazinha, né? Em 2015, bora se apaixonar comigo?

19:12 5 comments
O cheiro de biscoitos e comida no forno aqueciam a cozinha e sua ansiedade. Ela pulava nas almofadas e o banco rangia, só faltava escalar a mesa para o desespero de sua mãe e de sua avó. Ela olhava para fora da janela tentando enxergar algo na escuridão através dos grossos flocos de neve.
A cozinha ainda estava relativamente vazia. Sua mãe ajudava sua avó a terminar de preparar a grande ceia da noite, seu pai zanzava pela casa observando tudo e seu avô sentava imponente na cabeceira da mesa. Logo a casa estaria cheia e barulhenta; ela mal podia esperar.
Seu avô, percebendo a ansiedade da pequena, tentou distraí-la. Esticou seu único braço e pegou três nozes com sua mão. Sua mão era grande e seus dedos grossos e fortes, não demorou muito para capturar a atenção da neta. Em questão de segundos um estalo forte preencheu o relativo silêncio da cozinha e ela viu estupefata as três nozes rachadas e abertas na mão do velho. Correu com suas perninhas pelo banco até chegar ao avô e pediu, como só crianças sabem, para que ele repetisse o ato de novo e de novo. Tentou fazer o mesmo mas nem com as duas mãos conseguia fazer força. Pronto, ela estava distraída.
A neve caía grossa e constante do lado de fora. Aquele seria um inverno longo e rigoroso. Com certeza a autobahn estaria arisca nos dias seguintes, mas ela sabia que muita neve significava muitos bonecos de neve e vizinhos construindo iglus em que ela poderia entrar para brincar.
– Acho que ele chegou – Ela ouviu sua avó dizer em alemão. 
A menina saltitou no banco derrubando algumas almofadas e correu até a janela. Faróis altos e grandes se aproximaram o enorme celeiro e o som grave do caminhão cessou. Ela não conseguiu enxergar muito naquele breu, mas alguns instantes depois viu um vulto se aproximando da porta. Ela deu um gritinho infatil e pulou do banco correndo em direção à porta da cozinha. Pôde ouvir os sons das botas pesadas sendo tiradas e deixadas de lado e de todos os casacos de inverno sendo pendurados.
Quando seu tio abriu a porta da cozinha, ele só teve tempo de cumprimentar os outros com sua voz grossa antes que a menina puxasse a barra de sua camisa tentando conduzí-lo até a sala. Seu pai riu e foi atrás dos pequenos cabelos loiros saltitantes. Sua avó pegou o telefone e, logo após encerrar a ligação, empurrou a cadeira de rodas do avô até a sala do carpete verde.
Alguns minutos depois outro tio chegou e finalmente a menina pôde comemorar e ficar plenamente feliz. Um pinheiro gigantesco aos seus olhos estava esperando por eles na sala. Seus galhos finos abraçavam o tronco que ia até o teto, era uma imensidão. Seu tio mais alto pegou a menina e colocou-a sobre os ombos. Era hora de montar a árvore.
Durante as horas seguintes, os três homens e a garotinha enfeitaram o pinheiro sob a supervisão do avô. Foi preciso uma escada bem alta e muitas e muitas caixas de enfeite para vestir o pinheiro. O verde e o marrom que antes predominavam, ficaram mais esbeltos com os enfeites de todas as cores que ela podia imaginar e ficaram mais felizes por causa dos fios intermináveis que faziam os galhos piscarem cheios de cor. Para ela, nunca era o suficiente, a árvore precisava estar mais decorada e colorida, tinha que ser a mais bonita de todas para agradar o velhinho de vermelho que chegaria mais tarde naquela noite.
Mesmo depois de ter colocado todos os enfeites empoeirados, ela ainda podia sentir o cheiro inigualável do pinheiro vivo. E o cheiro de comida que vinha da cozinha só melhorava. Ela não percebeu durante o tempo que passou ali, mas agora a casa já estava enchendo e alguns espectadores haviam se reunido na sala para observar a árvore sendo enfeitada.
            Quando o trabalho por fim estava feito, todos voltaram para a cozinha para beber e começar a comer; menos ela. A garotinha ficou parada por um tempo admirando o pinheiro várias vezes maior que ela. Ele brilhava e piscava e era simplesmente maravilhoso. Para a pequena, ele era a coisa mais linda que ela já tinha visto.
            O som das conversas e risadas na cozinha ficou mais alto, mas ela ainda demorou um tempinho para voltar pra lá. Sentou no carpete e, debaixo da árvore, ficou pensando que seria ali que seus presentes logo estariam. Ela mal podia esperar. Olhou para a lareira e viu satisfeita que as meias também estavam devidamente posicionadas na parede. Tudo estava perfeito.
Ouviu as vozes de seus primos e saltitou para a cozinha sem olhar para trás. O cheiro de comida pronta e servida também foi um belo atrativo. Sentou-se junto às outras crianças em meio ao mundo de brinquedos no chão da cozinha e esqueceu-se da árvore; agora tinha outras prioridades.

Na sala do carpete verde o majestoso pinheiro ecoava os sons vindos da cozinha. Suas luzes e enfeites iluminavam o cômodo enquanto alguns flocos de neve caíam e tentavam se agarrar ao vidro da janela para admirar as cores e beleza daquele lugar e daquela véspera de Natal.

Essa é a minha lembrança de um dos meus Natais com a minha família, você tem alguma marcante também? Me conta! 

Desejo a todos um feliz Natal, que aonde quer que você passe, que passe com pessoas que você ama e que te amam também. Desejo uma noite muito aconchegante e colorida. Feliz Natal <3

13:37 3 comments

Se você leu a minha resenha do primeiro livro, Real, sabe que assim que terminei de ler, corri para comprar a continuação do amor de Remy e Brooke. Li o segundo livro ainda mais rápido que o primeiro e algumas coisas mudaram, tanto na história quanto nas minhas opiniões. Essa resenha contém spoilers, então se você não quer saber o que acontece, pare de ler aqui.

“Agora, com a distância e a escuridão entre eles, a única coisa que resta para Brooke é lutar pelo amor do homem que ela chama de “meu”. Na série best-seller REAL, o irrefreável lutador bad boy Remington Tate finalmente encontrou a maior razão pela qual lutar em sua vida, Brooke Dumas. Contratada para mantê-lo em perfeitas condições físicas, a jovem fisioterapeuta conseguiu desencadear um desejo primitivo tão vital em Remington quanto o ar que ele respira... “Remy” simplesmente já não pode viver sem ela. Brooke jamais imaginou que iria se apaixonar tão perdidamente por um homem, e mais, nunca sonhou que ele seria nada menos que a fonte de desejo de toda mulher. Quando tudo parecia caminhar para uma felicidade genuína, Brooke acaba sendo arrancada para longe dos arredores do ringue. Uma perigosa ameaça está à espreita, pronta para derrotar o “Arrebentador” e arrasar tudo em seu caminho no momento em que eles mais precisam um do outro. Mas será que uma última revelação surpreendente conseguirá mudar para sempre o destino desse intenso amor?”

            Tentei fazer uma resenha sem spoilers como costumo fazer, mas seria impossível comentar “Meu” sem mencionar alguns acontecimentos. Se você leu Real, vai querer ler sua continuação e não acho que vá se arrepender, não me arrependi. Mas algumas coisas me chatearam.
            Gostei bastante de ver como o relacionamento de Remy e Brooke evoluiu, é uma delícia vê-los convivendo juntos como um verdadeiro casal. Adoro ler um pouquinho do cotidiano dos personagens que eu gosto e o começo do livro foi exatamente assim. Gostei também de como a história continuou sem deixar para trás acontecimentos que foram essenciais para o primeiro livro, como a luta entre Remy e Scorpion e o ódio que o mesmo carrega.
            Brooke descobre no começo do livro que está grávida e achei um pouco precipitado demais para o desenrolar da narrativa, mas tudo bem, a leitura segue. Tinha expectativas de que Remy se comportaria de outra maneira quando descobrisse que sua namorada estava grávida, achei um pouco estranha a maneira como ele lidou com tudo isso.
            Brooke também me decepcionou um pouco. Senti como se ela tivesse retrocedido em seu amadurecimento. Até o final do livro fiquei presa no conflito entre adorar a personagem e odiar a forma infantil como se ela comportou em alguns momentos. Hormônios da gestação não são o suficiente para explicar alguns comportamentos e diálogos.
            O personagem de Remy foi mais explorado do que no primeiro livro, seu conflito com a bipolaridade, seu amor por Brooke e o trauma causado por seus pais. Mas gostaria de ter visto mais, a história tinha um potencial fantástico que não foi muito bem explorado pela autora. Ela se focou mais na parte sexual do relacionamento dos dois quando tinha ótimo material de escrita em outra parte da história.
            Gostei bastante dos conflitos que apareceram durante a narrativa. A constante ameaça de Scorpion deu uma boa adrenalina para a história. A distância forçada imposta para os dois também deu outro rumo para o relacionamento, isso foi bem trabalhado.
            O final foi o ponto alto da história. Com o coração na mão, você lê as últimas páginas emocionantes que me prenderam assim como o primeiro livro. Gostaria de ter lido mais algumas páginas, senti que tudo no final ficou muito corrido. Foi a única coisa que deixou a desejar no final da história.
            “Meu” me decepcionou um pouco, mas provavelmente fui com muita expectativa. A história é boa e muito rápida de ler lida, mas deixou um pouco a desejar. A autora publicou nos EUA um terceiro livro; é a história do primeiro pelo ponto de vista de Remy, mas as resenhas que li não foram muito agradáveis para com o livro. Katy também publicou mais dois volumes; o quarto em volta de Mel e o quinto em torno de Pandora. Confesso que não acredito que vá ler os outros, prefiro ficar feliz com “Real” do que acabar me decepcionando.
            Apesar de tudo, se você leu e gostou de “Real”, leia “Meu”, apenas não vá com muita expectativa. “Meu” dá um final maravilhoso que “Real” não foi capaz de dar. Com certeza você vai fechar o livro com um suspiro.    
             Meu foi escrito por Katy Evans e publicado no Brasil pela editora Novo Século.




            Classificação: 4/5 estrelas.

“O coração é um músculo oco, e vai bater milhões de vezes durante nossas vidas. Mais ou menos do tamanho de um punho, ele tem quatro câmaras: dois átrios e dois ventrículos. De que forma esse músculo pode abrigar algo tão abrangente como o amor é algo que está além da minha compreensão. É esse coração que ama? Ou você ama com a sua alma, que é infinita? Não sei. Tudo o que sei é que sinto esse amor em cada molécula do meu corpo, em cada respiração. Em todo o infinito em minha alma. Aprendi que você não pode correr se romper um ligamento, mas o seu coração pode ser partido em um milhão de pedaços, e você ainda pode amar com todo o seu ser.
Fui destroçada e reunida de novo.
Fui amada, e amei também.
Estou apaixonada, e serei para sempre transformada por esse amor, por esse homem. Eu costumava sonhar com medalhas e campeonatos, mas agora sonho apenas com um lutador de olhos azuis que um dia mudou a minha vida quando colocou seus lábios nos meus...”

Gostou da resenha? Já leu o livro ou ficou com vontade de ler? Não deixe de comentar!

18:38 No comments
Sobre o eterno “e se” e quase lembranças.




Ela estava sentada numa cadeira alta de bar feliz por ter escolhido seus coturnos ao invés de um salto alto. Ela adorava aquele lugar; ótima comida e rock estourando nas caixas de som, do jeito que ela gostava. 
            Enquanto ela ouvia as conversas banais de seus amigos, sentiu sua presença. Foi algo fraco, quase insignificante, mas fez com que sua cabeça virasse em sua direção. Não conseguiu ver o resto do homem direito e logo se esqueceu de sua presença.
            À medida que o show começava, ela foi com seus amigos até perto do palco, e assim que passou pelas mesas de bilhar, aquela presença fez com que sua cabeça virasse de novo. Lá estava ele, quase solitário, dedicando sua atenção à mesa à sua frente. Agora ela podia vê-lo claramente.
            Ela era um homem de verdade, ela pensou, macho. Usava calças jeans escuras e uma camisa azul escura de mangas compridas. Todos os seus músculos estavam visíveis na medida certa. Ele segurava o taco de bilhar deixando seus bíceps à mostra. A maneira como ele pegou uma garrafa de cerveja e tomou um gole foi como um afrodisíaco para ela. Ele tinha uma barba mal feita que fez com que ela pensasse em todos os lugares perfeitos para raspá-la contra sua pele. Seu cabelo era comprido, o que normalmente não faria o tipo dela, mas não importava. Naquele momento, ele a atraía de uma maneira inexplicável, em todos os sentidos.
            A partir daquele momento, ela praticamente não conseguiu tirar os olhos dele. Durante o show, ela o procurava com o olhar, precisava olhar para ele por alguns instantes antes de deixar sua atenção voltar para a música que vinha do palco. Queria ter a certeza de que aquelas feições másculas ainda estavam focadas no jogo ou na banda que tocava. Queria ver onde seus olhos estavam se focando, se estavam claros naquela luz.
            Por quase duas horas ela o observou indo para a frente do palco quando alguma música que ele gostava estava tocando e depois voltando para seu jogo. Ela podia ver seus lábios se moverem para acompanhar a letra das músicas. Ele sabia todas, por sinal. Por nenhum momento seus olhos se cruzaram, a atração permanecia sempre platônica.
            Quando o show terminou, ela não o encontrou. Puxou sua amiga pelo braço insistindo em dar uma volta no lugar. Em vão; ele não estava em lugar nenhum, não estava à vista.
            Sentindo-se frustrada, juntou-se aos seus amigos na fila do caixa. Algum tempo depois, ela viu com o canto do olho quando ele saiu do banheiro. Ele caminhou até onde ela estava ainda sem cruzar com seu olhar. De um instante para o outro, isso mudou.
            Ele olhou para ela e foi como se faíscas começassem a surgir entre os dois. A tensão no ar era praticamente palpável. A troca de olhares foi tão intensa que ela chegou a pensar que era impossível que ele não estivesse sentindo aquilo também. Mesmo enquanto andava, ele sustentou seu olhar até o fim. Ela podia quase sentir o cheiro da testosterona exalando dos poros dele. Apenas quando ele se virou ela conseguiu respirar normalmente de novo. Jurou que seu coração abriria um buraco em seu peito.
            Esperou alguns minutos e pôde vê-lo falando com um amigo enquanto sorria e apontava em sua direção. Sentiu seu corpo inteiro se aquecendo de expectativa.
            Sentiu seu olhar sobre ela e não pôde deixar de sorrir. Pagou sua consumação no caixa e quando se virou para procurá-lo, ele já não estava mais lá. Procurou com os olhos, mas não conseguiu encontrá-lo. Seus amigos a chamaram e, após olhar uma última vez para o interior do pub, seguiu frustrada o pequeno grupo.

            Quando estava chegando à escada que conduzia para a saída, sentiu uma mão grande e forte segurando seu braço. Virou-se prestes a empurrar o imbecil quando seu olhar encontrou o dele.
            Por um instante ela se esqueceu de como respirar. Os olhos dele estavam negros naquela luz e ela sentiu arrepios tomando conta de sua pele. Ele entrelaçou suas mãos e a puxou para dentro do pub novamente. Foi até um canto e a prendeu entre a parede e seu corpo másculo.
            Ela queria sorrir porque era assim que se sentia, mas o calor do corpo dele era embriagante demais. Ele tinha cheiro de carvalho, cravo e homem.
            Ele segurou sua cintura apertando de uma maneira deliciosa e bruta. Não foi ele quem tomou a iniciativa, mas colocou uma mão em sua nuca puxando-a um pouco para si. Foi ela quem passou os braços ao redor do pescoço dele e se inclinou selando seus lábios.
            Ela agradeceu mentalmente por ter os braços dele e a parede para sustentá-la porque não confiava mais em suas pernas. Quando ele colou seu corpo no dela, ela gemeu e pôde sentir o sorriso dele em seus lábios. Seus ombros eram largos e seu peitoral era forte, aconchegante.
            Ela pôde sentir o gosto de cerveja em sua língua e se lembrou dele jogando bilhar. Ele se afastou apenas o suficiente para que ambos pudessem respirar por um instante. Deixando seu lado bruto de lado, ele brincou um pouco com o cabelo dela e riu. Sua risada rouca fez a pele dela arrepiar. Ao mesmo tempo em que ele era bruto, ele sabia ser gentil. Era um contraste novo e incrível.
            Ela encostou a testa na dele quando ele puxou-a para si novamente. Quando seus lábios se encontraram de novo e seus corpos se colaram numa fome de calor, ela pensou em como aquilo era fantástico, em como aquele belo estranho era incrível contra seu corpo e como aquilo ainda podia melhorar muito mais.
            Suas mãos firmes percorriam as coxas dela e subiam até a curva de seus seios. Ela já não se contentava mais em apenas sentir suas costas quentes e musculosas por baixo da camisa. Agora ela colava suas mãos no peito dele do mesmo modo que a camisa azul havia feito pouco antes.
            Naquele momento, não estavam no meio de uma multidão, se agarrando contra a parede de um pub de rock qualquer.
            Quando se afastavam pelo mínimo de tempo possível, sentia o peitoral dele encostando nela à medida que ele ofegava. Quando a boca dele tomava a sua e sua língua explorava a boca dela possessivamente, ela podia jurar que derreteria ali mesmo. E quando a boca dele desceu até o seu pescoço, sorriu pensando em onde aquilo iria parar.
            Ela sentiu quando ele apertou seu quadril, sentiu quando ele puxou seu cabelo e quando ele a empurrou ainda mais contra a parede. Ela sentiu tudo. E não estava perto de ser o suficiente.

            Olhando mais uma vez ao redor do pub e ouvindo as batidas pesadas da música, ela colocou a jaqueta e desceu as escadas até a porta de saída. O vento gelado a atingiu assim que ela colocou os pés na rua. Cruzou os braços abraçando a si mesma tentando se aquecer pelo menos um pouco. A realidade foi como um punho de ferro gélido.
            Ela olhou para a porta do pub mais uma vez, observando as luzes piscando e os vultos que circulavam lá dentro. Uma corrente de ar jogou alguns fios de cabelo em seu rosto e ela nem se incomodou com aquilo. Esperou alguém sair por aquela porta. Alguém.
            – Ei! – Uma amiga a chamou quando o táxi parou na rua.
            Olhando uma última vez por cima do ombro, ela sentiu seu coração, antes acelerado e inquieto, se acalmando e, pesadamente, voltando ao seu batimento regular. Agora o frio da noite percorria e tomava conta de todo seu corpo, inclusive de seu coração.
            Fechou o zíper de sua jaqueta e com um suspiro obrigou seus pés a caminharem até o táxi que a aguardava. Sem olhar mais nenhuma vez para a entrada do pub, ela entrou no carro e se lembrou das feições másculas do homem.
            À medida que o carro dava partida e se distanciava do lugar, ela olhou pela janela e pensou em como às vezes o famoso “e se” pode ser delicioso e amargo. Sabia que não iria se esquecer daquele rosto por um bom tempo, por mais que tentasse.
Vez ou outra ela encontrava alguém diferente, alguém que capturasse seu olhar por mais de alguns segundos. Alguém com um caminhar diferente, com um olhar mais intenso, com um jeito mais profundo. De vez em quando ela encontrava um ou outro capaz de esquentar seu coração frio e revirar seu estômago sempre tranquilo. Constantemente ela levava consigo memórias daquilo que poderia ter sido e não foi.
Por mais que ela se revoltasse, se indignasse e se chateasse, algumas coisas não acontecem, algumas lembranças não se formam e o jeito é aceitar que aquilo que está simplesmente fora de seu alcance. Ela teria que sorrir e guardar consigo uma quase lembrança e torcer para não demorar a encontrar um novo belo estranho numa noite qualquer. 
17:13 2 comments


Alguns dias são mais difíceis que outros, ela pensou enquanto se trancava no banheiro para fugir dos murmúrios.
Aquilo não era novidade, estava começando a fazer parte da rotina. Era um cotidiano bem nostálgico para dizer a verdade. Ela sabia muito bem que havia pessoas que naquele momento estavam bem piores do que ela. Muitos estavam famintos, machucados, morrendo. Ela tinha consciência de que o inferno de verdade não era nada parecido com aquilo que ela vivia. Mas para ela, aquele era seu inferno particular.
Mesmo com a porta fechada e devidamente trancada, o som de vozes abafadas passava por entre as frestas e chegava até ela. Palavras indecifráveis, mas ainda assim pesadas e maculadas. Antes de entrar no banheiro, ela pôde sentir o cheiro do álcool e das cinzas dos cigarros. Um cheiro familiar, mas que ainda lhe causava náuseas.
O que acontecia na sala estava fora de seu alcance. Pelo menos era isso que ela queria acreditar. As pequenas grandes discussões corriqueiras eram algo que ela evitava a todo custo fazer parte. De um lado, o pai desfrutando dos efeitos da bebida e dos pensamentos intensos acumulados. Do outro, a mãe com as mágoas e frustrações sempre contidas.
Sentada com as costas na porta do banheiro ela se perguntava por que isso era tão comum quando não deveria ser. As pessoas não deveriam fazer as outras se sentirem um lixo, principalmente aquelas que juramos amar até que a morte interfira.
É incrível como alguns goles são capazes de transformar uma pessoa. De onde vieram todas essas palavras duras? De onde veio essa face raivosa e cheia de ressentimentos? Por que para ele tudo estava errado e todos não eram o suficiente? Por que para ela se tornou mais fácil ficar calada e esperar todos os desabafos acabarem rápido? Não deveria ser assim. Então por que era?
Ligando o chuveiro, ela não conseguia parar de se perguntar de quem era a culpa de verdade. Do pai, por não medir as palavras e não olhar para os defeitos que ele próprio carregava? Ou da mãe, por abaixar a cabeça e segurar todo aquele amor sem fronteiras na esperança de que ele lhe desse força? Ou quem sabe, era ela mesma a culpada por não ser o suficiente para apagar toda e qualquer derrota do passado?
Enquanto a água quente caía sobre sua pele, ela pedia para que algum dia aquilo tudo acabasse. Ela estava cansada de semana após semana ter que ouvir discussões sem base e carregadas de apelos vãos. Aonde tudo aquilo poderia chegar? Ela não queria mais ter que passar horas procurando defeitos em si mesma que justificassem toda aquela confusão que sua casa havia se tornado. Será que era ela a responsável por tudo aquilo? Será que foi ela quem não correspondeu às expectativas e agora eles sofriam com aquilo? Ou será que ela não tinha responsabilidade nenhuma naquela confusão e só podia observar enquanto tudo começava a desmoronar? Honestamente, não sabia o que era pior. Ser protagonista ou espectadora. Ela só queria alguns bons momentos em família. Momentos alegres, cheios de risadas e sorrisos e puro amor. Ela não queria mais o álcool envolvido. Em nada.
Ela detestava aquela substância maldita. Chegara ao ponto de fugir de todos que diziam amá-la. Ela cresceu com um trauma e sabia que ele nunca deixaria seus pensamentos. Era triste. Sim, era.
Sentou no chão frio e deixou que a água caísse em seu corpo e escorresse por sua pele. Talvez a água quente fosse capaz de lavar aqueles sentimentos gélidos.
O lado bom era que a violência física nunca havia acontecido. Nunca acontecia. Ainda bem.
Mas, ela suspirou, o poder das palavras é algo que sempre a surpreendeu. Ainda mais ditas por quem sabe como dizê-las.
Um homem forte usa os punhos. Um homem inteligente usa a voz. Dê a um guerreiro uma arma e ele saberá exatamente o que fazer com ela. Dê a um general a oportunidade e ele comandará todos os guerreiros que puderem ouvi-lo. Quem luta, fere. Quem fala, marca. Ela aprendeu aquilo e era algo que nunca mais esqueceria.
Às vezes simples palavras mudam tudo. Um soco não é para sempre. Os hematomas perdem a cor e a sensibilidade eventualmente vai embora. Palavras não. O poder do vento que traz os sons daqueles que não pensaram antes de soltar suas próprias verdades é imensurável. Quem pensa mais, sempre terá uma vantagem sobre aquele que age mais. É uma verdade injusta, mas ainda assim é uma verdade. Ela saberia se curar de um soco, não de um grito.
O medo de não ser o suficiente sempre pairava sobre ela. Não havia nada que pudesse fazer para conter as insatisfações e os lamentos. Ela não podia fazer nada naquele momento e duvidava que pudesse fazer algo algum dia. Simplesmente era assim. Ele dizia que aquilo não era um problema. Como aquilo poderia não ser um problema?
Desligou o chuveiro e sentiu a corrente de ar arrepiar os pelos de seu corpo. Apropriado.
Quando começou a se enrolar na toalha, sentiu as familiares lágrimas rolarem por suas bochechas. Ela quase não percebia mais quando isso acontecia. Ela quase recebeu as lágrimas com um sorriso camarada. Quase.
As vozes abafadas haviam cessado. Uma porta havia sido fechada com desgosto. Naquele momento apenas a televisão preenchia o silêncio ensurdecedor de sua casa. Era sufocante.
Enquanto sua mãe fazia um sudoku na varanda e bebericava seu copo de vinho e seu pai apagava no quarto, ela chorava olhando para seu reflexo no espelho.
Ela não chorava de tristeza, ela não chorava por causa da mágoa. Ela chorava de raiva, frustração. Impotência. Ela se perguntava quando tudo aquilo mudaria, quando tudo enfim chegaria ao fim. Ela queria risadas, em troca ouvia vozes exaltadas. Ela queria sorrisos, mas via apenas olhares distantes. Tudo o que ela queria era que aquela constante tensão se dissipasse e desse lugar à paz e à calmaria.
Olhando em retrospecto, aquelas noites não pareciam nada demais. Até acontecerem.
Ela queria fugir. Mas fugir para onde? As pessoas fogem para casa quando precisam, mas e quando sua própria casa é o lugar do qual você quer escapar?
Secando as lágrimas como havia se acostumado a fazer, ela destrancou a porta e foi para o quarto. Naquele dia, não foi checar sua mãe. Receberia um sorriso murcho e o mesmo discurso de exaustão e comodidade. No fundo, ela sabia que sua mãe ficaria bem. Era uma mulher forte, apenas um pouco ferida, mas forte. Ao contrário dela mesma.
Deitou na cama e se enfiou debaixo de seu grosso cobertor. Abraçou um travesseiro e esperou que as últimas gotas caíssem ali. Com um suspiro profundo ela apagou as luzes e se encolheu naquele emaranhado de calor.
Fechou os olhos e abraçando a si mesma jurou que algum dia tudo ficaria bem. A névoa da mágoa daria lugar a raios de satisfação e aquela presente tensão não existiria mais. Não seria preciso estar constantemente preparada para uma luta, ela poderia abaixar a guarda e trancar sua armadura em algum esconderijo de pedra. Algum dia, tudo se encaixaria e ela perceberia o quão tola foi por sofrer daquela maneira. Algum dia, tudo ficaria bem.
Algum dia. 
17:03 2 comments
Um último adeus a uma rede social que marcou minha vida


Já fazia pouco mais de um ano que eu tinha abandonado de vez o Orkut. Não sentia tanta falta assim mais. Quase não ligava. Quase.
            Hoje recebi a notícia de que o Google tiraria o Orkut do ar esse ano, seria o fim definitivo da rede social mais conhecida por muitos dos usuários antigos da internet brasileira. Tudo bem, o Orkut já não era mais o mesmo, já fazia uns dois anos que praticamente ninguém entrava no seu perfil e quem ainda usava o site tinha que escutar umas boas risadas daqueles que migraram há tempos. Sei disso tudo. Mas ainda fiquei surpreendentemente chateada quando vi que o Orkut iria acabar de vez.
            Eu tinha acabado de criar o MSN, aquele antigo mesmo, quando meu primo me convidou para entrar no Orkut. Naquela época, não era qualquer um que podia criar uma conta e pronto. O Orkut ainda recebia seus usuários através de convites e só quem recebia um convite de um usuário poderia criar um perfil no site e assim convidar mais amigos. Quando criei a minha conta, não fazia ideia de como iria usar aquilo ali, era tudo muito novo pra mim. Eu era bem nova então tive tempo de sobra para começar a fuçar tudo daquele site. A partir daí, tudo só evoluiu.
            As comunidades foram o que me fizeram ficar de vez no Orkut. Eu passava horas procurando comunidades com títulos engraçados e ficava louca para participar como se aquilo acrescentasse muito à minha vida. Fui adicionando os amigos que conseguiam entrar no site e ficava desorientada com o limite de 25 fotos. Com o tempo, o site começou a ficar pequeno demais para mim. Mas isso não durou muito.



            O Orkut começou a crescer e cada vez mais pessoas ficavam loucas para entrar naquela comunidade, até que o acesso por convite acabou. Foi um estouro. O número de pessoas que começaram a entrar no Orkut era absurdo e empolgante para quem crescia com o avanço dessa rede social. Se contentar apenas com o seu perfil pessoal no Orkut já não era mais o suficiente. Nasceu a era dos fakes.
            Naquela época, os ídolos pop estavam em todo lugar, inclusive no Orkut. Algumas pessoas começaram a criar perfis dedicados aos seus ídolos e isso não parou mais. Só que não bastava mais criar um perfil dedicado ao ídolo, você queria assumir outra identidade. Agora para fazer amigos, você não precisava se importar em tirar uma foto bonita para colocar de perfil, seus ídolos faziam isso por você. Lembro que criava vários perfis com personalidades diferentes, era como se em cada perfil eu pudesse me identificar com alguma coisa. As comunidades cresciam cada vez mais e ficaram mais divertidas. Era impossível passar pouco tempo nelas. Elas começaram a representar grupos específicos e ao mesmo tempo variados, qualquer um podia se identificar com algum grupo, com alguma comunidade.
            Uma coisa que sempre me impressionou foi a quantidade de pessoas que abraçaram essa rede social. Eu participava de várias comunidades e em cada uma delas havia um grupo gigantesco de pessoas. Era inacreditável. Naquela época, com essa coisa de redes sociais ainda surgindo, ficava surpresa com a facilidade de conversar com alguém que morava tão longe de mim. Conheci pelo menos uma pessoa de cada estado e às vezes algumas pessoas nem no Brasil moravam. Para mim, o Orkut marcou o começo da minha vida na internet, porque comecei ali e nunca mais me desconectei.
            A “era fake” durou anos. Muita gente não conhecia esse mundo à parte do Orkut, mas quem conheceu sabe do que estou falando. Aquilo era simplesmente fantástico. Conheci tanta gente legal que acrescentou tanto à minha vida... Como toda dona de um perfil fake que se preze, tive meus casinhos no Orkut e vivi histórias incríveis, algumas até evoluíram para a “vida real”. Coincidências maravilhosas e casos engraçadíssimos nunca faltaram pra mim enquanto acessava meu perfil. Tive minhas decepções também, claro. Mas faz parte.
             O Orkut me marcou tanto porque foi o site que começou a me direcionar. Deixa eu explicar... Na época dos fakes, existiam as chamadas doações de fotos e os perfis mais populares eram aqueles que editavam as fotos e disponibilizavam as edições nos seus álbuns – o limite de fotos havia acabado, graças a Odin. Comecei a usar o PhotoFiltre Studio e o Photoshop nessa época; descobri que aprendia rápido os tutoriais e os perfis começaram a fazer sucesso. Meu gosto por fotografia começou ali já que comecei a tirar algumas fotos para postar e vi que minhas edições não era as piores. Além disso, foi participando das comunidades que percebi que era boa nos debates, que eu sabia argumentar. Os assuntos sobravam nas comunidades e gente para debater não faltava. Além de oferecer discussões, as comunidades também serviram de jornal para mim que naquela época não gostava de ler notícias do jeito convencional.
            Mas acho que a maior contribuição que o Orkut me deu, foi o hábito de escrever. Foi no Orkut que descobri que eu sabia escrever e que eu amava aquilo. Comecei lendo fanfics, web novelas. Me apaixonei logo de cara. Passava horas do meu dia lendo histórias inventadas por meninas da minha idade. Era tudo muito democrático; você não precisava ter o perfil mais pop ou ser conhecida em uma comunidade, você escrevia um capítulo de uma história, criava um tópico, postava ali e pronto, esperava. Li algumas histórias e antes que eu me desse conta, estava escrevendo as minhas. Postava como quem não quer nada e com o tempo percebi que as pessoas gostavam das minhas narrativas e algumas até pediam mais. Criei minha própria comunidade onda postava minhas fanfics e vi meu trabalho crescendo devagar, aos poucos. Quando me dei conta, não escrevia mais fanfics, escrevia histórias com personagens criados inteiramente por mim, sem inspirações externas. Nunca mais parei.
            Gostava de participar também de comunidades de leitores. Muitos dos meus amigos amavam ler como eu então nunca faltava indicações. Acho que foi ali que comecei a escrever minhas primeiras resenhas, apenas para mandar para um ou outro amigo. Enquanto na escola muitos achavam ridículo ler tanto e tentavam me desmotivar, no Orkut eu tinha um incentivo sem igual. Conheci pessoas que gostavam de ler e por causa delas continuei. Sou extremamente orgulhosa por nunca ter parado e os mesmos que zombavam de mim por ler, hoje me pedem ajuda para escrever redações e interpretar textos. Ler não leva a lugar nenhum, né?
            Hoje posso dizer que sou viciada em redes sociais. Mesmo não gostando muito do Facebook, tenho minha conta, estou no Tumblr, Twitter, Instagram, Pinterest, Skoob, We Heart It, Blogger, etc. E foi por causa do Orkut que conheci essas redes sociais, direta ou indiretamente. O Tumblr, que com o Twitter é minha rede social favorita, apareceu pra mim em uma comunidade no Orkut e com alguns amigos. Minha escrita evoluiu ainda mais porque naquela época o Tumblr era o lugar dos escritores, dos textos dramáticos e expressivos. O Twitter se tornou um complemento do Orkut. Até conta no Formspring eu já tive porque todo mundo no Orkut tinha.



            A última – e talvez a mais especial – etapa foi a das irmandades. Entrar para uma irmandade era algo exclusivo e muito animador. Existiam irmandades para uma saga, uma série, um ator, uma atriz, tudo. Mas para entrar em uma irmandade, você precisava passar por toda uma seleção para se mostrar digno, só um fã de verdade conseguia. As seleções das grandes irmandades duravam quase um mês e dezenas de pessoas participavam, era uma questão de status e fanatismo. A seleção que eu participei era para uma irmandade dedicada à atriz Nina Dobrev e a seleção apareceu para mim por acaso. Eu conhecia duas ou três meninas que participavam da irmandade e não deixei a chance escapar. Passei na minha primeira tentativa e foi uma das melhores coisas que aconteceram para mim em todos os anos em que eu usei o Orkut. Conheci garotas maravilhosas que se tornaram essenciais na minha vida a partir de então. As séries que comecei a assistir eram indicações das sisters, alguns livros também. A gente passava madrugadas conversando e rindo sobre as coisas mais inúteis. Cada uma morava em uma parte do país, cada uma tinha um jeito diferente, uma personalidade diferente, e nada disso impediu que um vínculo incrível se formasse. Isso é o que eu mais sinto falta. O Orkut me apresentou pessoas maravilhosas que levo até hoje comigo. Algumas coisas nunca mudam, assim eu espero.
            Foi conversando com uma das minhas amigas de Orkut que criei coragem para viajar “sozinha” pela primeira vez e essa foi uma das melhores decisões que já tomei em toda a minha vida. Criei coragem de viajar para os Estados Unidos com um grupo que não havia trocado mais do que algumas palavras e foi uma experiência fantástica.
            Passei anos frequentando assiduamente o Orkut e não me arrependo de absolutamente nada. Vi o Orkut mudando de todas as formas possíveis e continuei mesmo quando uma enorme parcela migrou para o Facebook e para outras redes sociais. Eu, assim como a outra minoria, fiquei no Orkut até quando foi possível. E foi ótimo enquanto durou.
            Com o tempo, a graça já não era mais a mesma. As outras redes sociais me satisfizeram mais. Eu amadureci e procurei outros lugares para compartilhar meus novos gostos e talentos. Sempre que batia uma nostalgia básica, voltava ao Orkut e passava pelas comunidades e perfis de amigos. É triste saber que não vou mais poder fazer isso depois de Setembro, aquele cantinho gigante não vai mais existir nem pra mim nem pra ninguém.
            Acho que como tudo na vida, o Orkut tinha que acabar uma hora ou outra. Mas fico feliz em saber que estive presente em cada momento, que cresci com essa rede social, que pude acompanhar tudo de pertinho, de dentro. O Orkut significou para a minha geração, o que o Facebook hoje significa para a geração que está começando a navegar na internet. É nostálgico ter que visitar pela última vez coisas que fazem parte de você, que te marcaram de maneira irrevogável. Mas fazer o que? Sou grata por tudo o que aprendi nesse site, por todas as pessoas incríveis que eu conheci, por todas as histórias que tenho para contar e por tudo o que eu tive oportunidade de viver. Acredite ou não, o Orkut foi fundamental para a minha futura vida profissional e definitivamente fundamental para a minha vida pessoal.
            Sim, foi só uma rede social. Mas foi a rede social responsável por moldar a minha adolescência e grande parte da minha personalidade. Novas redes sociais vão surgir e o Orkut vai acabar sendo esquecido por quase todo mundo. Quase.


E você? Viveu essa época maravilhosa do Orkut? Vai sentir falta?
17:44 22 comments
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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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