facebook google twitter tumblr instagram

Pages

  • Início
  • Sobre
  • Resenhas
  • Cotidianos
  • Devaneios
  • Mercado editorial
  • Parcerias
  • Contato

Nostalgia Cinza


            Olhar para os números que marcam o passar dos meses sempre lhe trazia um sorriso travesso aos lábios. Ela conta as estações pelos amores que encontra no caminho. Ou quase amores. Nada banal, ela não aceita banalidades. Ama gestos simples desde que não sejam simplicidades.
Cada passar dos dias é uma promessa de uma nova chance. Quem sabe vai ser dessa vez?, sussurra o destino em seu ouvido. Nunca é, mas ele adora tentá-la. Ela se encanta fácil, encontra vários deliciosos desvios pelo caminho. Nada forte o suficiente para prendê-la. Infelizmente?
A magia das estações parece um constante recomeço. Colorido, novo, diferente. Ela quer sempre um pouco mais. Quem é preto e branco sabe dar valor a uma pincelada de cor. Procura um romance em cada passar de páginas do calendário que sempre leva consigo. Procura uma história diferente para cada verão de seu ano. Por que não? Um amor de verão em todas as estações.
No verão conheceu um daqueles machões, aquele que já conheceu todo tipo de mulher e faz questão de continuar conhecendo. Ele era garanhão, quente, intimidante, conquistador. No outono conheceu um daqueles proibidos, sua história favorita na sua estação favorita. Ele era tudo o que ela não esperava no momento que mais precisava. Misterioso, lindo, apaixonante, inexplicável. Finito. No inverno conheceu o mais charmoso de todos. Resolvido, de tirar o fôlego, sorriso perfeito e jeitão de menino. E, assim como as flores voltam a desabrochar na primavera, um brilho de esperança voltou a se acender. Ela conheceu um daqueles gentis, engraçados, com aquele olhar tenro e carinhoso. Para mostrar que talvez existisse esperança, afinal.
Mas, assim como um pássaro sempre sabe para onde migrar, ela sabe voltar para seu caminho. É a única coisa que sabe com certeza. Seu caminho meio incerto, meio tortuoso, meio cinza, meio ela. Seu caminho.
Define as estações pelos romances que quer viver, pelos sorrisos que lhe conquistam, pelas palavras que brincam em sua língua quando vê uma nova oportunidade. Ela quer ser feliz.
As pessoas tentam se encontrar, ela adora tentar se perder. Se perde para esperar que alguém a encontre. Se perde e se procura em cada sorriso torto que parece conter a resposta para aquilo que procura. Para aquilo que ela sequer sabe o que é.
Enquanto isso, risca os dias, se abana, guarda uma folha, se aquece, colhe as flores. Esperando pelo dia em que irá conhecer alguém que a faça mudar de ideia. Porque, no fundo, tudo o que ela não precisa é ficar sozinha. Porque ela não quer ficar. Alguém que lhe mostre que sua própria companhia não é a melhor de todas, afinal. Alguém que a faça se sentir como se não estivesse melhor solitária. Alguém que não apareça de forma diferente em cada mudança de ares.
Alguém que seja todas as estações em uma só.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest.
13:47 7 comments

E com o tempo todo o brilho que ela tinha dentro de si foi se apagando. Ela tinha tanto pra dar... Tudo o que ela amava em si mesma foi se distanciando até não passar de uma vaga lembrança do que antes chamava de amor próprio. Quando ela abria os olhos, havia luz, havia pureza, havia esperança. Hoje aquela chama não existe mais, parece que sequer existiu.

Sua voz alta, alegre e confiante diminuiu algumas oitavas até se tornar um constante silêncio. Amargura. Ela não ligava de ser a vela acesa contra o vento, achava que era uma montanha, tinha certeza de que era invencível. Mas as brisas se tornaram ventanias mais do que capazes de apagá-la. E apagaram.

A cera secou, a chama morreu. Seu brilho se foi. Ela nunca mais foi a mesma. Aquela história de ir contra o mundo não era pra ela afinal. Ela não era tão forte quanto imaginava ser. Talvez nunca fosse forte como queria ser. Ela nem se lembrava mais de seu brilho, se é que teve mesmo um brilho próprio algum dia. Conseguiram o impossível; fizeram escorrer lágrimas de uma pedra, fizeram um anjo sangrar.

Ela não era invencível, não era uma chama, não era um anjo. Ela não era nada. 

11:06 19 comments

            Ela caminhava a passos pesados pela grama baixa. Com a cabeça baixa tomava cuidado para não pisar nos lugares errados, se esforçava para acompanhar o homem à sua frente. Não sabia se fincava seus pés no chão e esperava por ele ou se o acompanhava naquele ziguezague extenuante. Parou de seguí-lo algum tempo depois e respirou fundo.
            Quando acordou naquela manhã o sol prometia castigar, mas naquele momento eram as nuvens carregadas que marcavam presença no céu. Ela não saberia dizer o que estava mais cinzento, o clima ou aquele momento.
Perfeito, pensou com ironia.
            Seus cabelos voavam em todas as direções, tinha que passar a mão por entre as mechas louras o tempo todo tentando mantê-las minimamente comportadas. Obrigou seus pés a caminharem, não conseguia ficar parada.
            Dava passos curtos e nada precisos. Rodava a rosa entre os dedos sem se importar muito que algum espinho pudesse alfinetá-la. Naquele momento estava mais preocupada com o rumo de seus pensamentos. Quando ergueu o rosto percebeu que algumas pessoas a observavam de longe e não entendia o motivo. Estava ali sozinha, mas não podia ser isso o que chamava a atenção. Será que alguém a reconhecia? Não, ela pensou. Não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Por algum motivo ela atraíra olhares naquele lugar. Respirou fundo e fechou os olhos por um momento, tudo o que queria era ficar invisível.
Ignorando o desconforto, segurou o cabo da rosa com as duas mãos e olhou ao redor. A grama cobria praticamente toda a colina como um fino tapete verde exceto pelos pequenos retângulos de mármore. Algumas árvores se destacavam na paisagem mórbida, indo desde a parte mais baixa até as partes mais altas da colina como se quisessem tocar o céu.
Alguns pequenos grupos conversavam entre si, suas feições sempre neutras, vez ou outra esboçando um franzir de sobrancelhas e um olhar distante. Algumas pessoas caminhavam pelas pequenas ruas asfaltadas e eram consoladas por conhecidos enquanto se debulhavam em lágrimas. Havia poucos solitários como ela e todos pareciam querer sumir diante dos olhares estranhos.
Não sabia porque estava naquele lugar, mas sentia que precisava.
– Aqui. – O homem uniformizado parou de caminhar e fixou seu olhar no chão.
Ela respirou fundo mais uma vez antes de ir ao seu encontro.
– Obrigada. – Sorriu com os olhos marejados.
O homem lhe respondeu com um aceno e retribuiu o sorriso se afastando dali.
Ela apertou a rosa entre os dedos e olhou para o retângulo de mármore aos seus pés. Sentiu um aperto no peito e se agachou.
O nome estava quase todo coberto por uma fina camada de folhas, terra e poeira. Passou a mão afastando o quanto pôde aquela sujeira até que as letras ficaram visíveis novamente. Suspirou e sentiu seus olhos ficando cada vez mais úmidos.
Ela honestamente não sabia porque se sentia daquela maneira. Não era como se estivesse ali por causa de qualquer tipo de laço. Ela sequer conhecera profundamente aquela mulher. Tinha dito que iria até aquele lugar apenas por respeito, para prestar um favor. Mas engara a si mesma. Precisava ir até ali para sentir o que estava sentindo, para tirar da cabeça tudo aquilo que martelava em seus pensamentos.
Às vezes o inesperado acontece. Ela com certeza não esperava que aquilo acontecesse. Ninguém esperava que a vida daquela mulher fosse simplesmente... acabar. As pessoas morrem, mas não deveria ser daquela maneira. Mas de que maneira deveria ser afinal? Quando tanto sofrimento está envolvido, quando tanta dor se acumula dentro de uma só pessoa, que escolha existe?
Em poucos segundos, ela não soube como reagir à avalanche de emoções que tomaram conta de seu corpo. Tristeza, pena, admiração, nostalgia, respeito. Medo. Ela sentia tudo e não sentia nada ao mesmo tempo.
Quando lágrimas começaram a rolar por sua face ela se sentiu estúpida. Não tinha o direito de chorar sob aquele túmulo. Ou será que tinha? Sequer sabia porque estava ali. Só sabia que precisava descobrir. Não tirou os olhos das palavras nem por um momento, nem quando olhou tão fixamente que a combinação de letras não fazia mais sentido.
Acariciou as pétalas da rosa e levou-a até o nariz uma vez antes de depositá-la aos seus pés. Abraçou a si mesma se sentindo completamente sozinha em meio ao turbilhão em que sua mente se encontrava. Ela não sabia o que pensar, não sabia como deveria se sentir.
De repente tudo fez sentido. Ela não estava ali porque conhecera aquela mulher, porque conversaram algumas vezes. Não. Ela estava ali porque tinha medo de conhecer a si mesma. Tinha medo de se identificar, de perceber que talvez não eram tão diferentes assim. Precisava ir até ali para saber como se sentiria, e tinha se assustado com o que sentia.
Não queria ter ido ali sozinha, queria poder compartilhar tudo aquilo que estava pensando com alguém, mas sabia que não entenderiam. Sabia que, querendo ou não, precisava fazer aquilo por si mesma.
Chegara naquele lugar com um aperto no coração, como se algo estivesse preso ali dentro sem saber como sair. Mas já não era mais assim. Estava confusa, um pouco assustada e sentia-se sozinha, mas agora tinha certeza de uma coisa.
Deixou que a brisa secasse parte de suas lágrimas e acariciando as pétalas da flor uma última vez, levantou-se. Não olhou de novo para o nome antes de se virar e andar para longe dali.
Olhou por cima do ombro sentindo como se estivesse dando adeus para uma sombra dentro de si mesma. Não se permitiria ter o mesmo destino, jamais. Talvez não fossem tão parecidas assim, pensou. Ela não permitiria que fossem. Seria forte por si mesma, sabia que era capaz. Suas sombras só seriam causadas pelo sol, não por si mesma. Precisava ir ali para redescobrir essa certeza.
Enquanto caminhava, olhou para trás uma vez. Apenas uma vez. 

19:54 2 comments

            O inverno daquele ano havia chegado de forma rigorosa. A lua cumpria seu papel e prateava aquela noite assustadoramente negra. Pequenos pontinhos brancos caíam do céu e se encaixavam em tudo o que estivesse ao seu alcance pintando a paisagem. A temperatura parecia cair cada vez mais. O asfalto estava coberto de gelo e as casas mal podiam ser vistas por baixo do grosso manto de neve.
            Ele estava no seu lugar de sempre, escolhido entre jornais, papelão e alguns trapos que um dia foram considerados cobertores. Há algumas semanas havia encontrado esse shopping center a céu aberto e tomou pra si um beco coberto entre duas lojas; uma de ferramentas, outra de cosméticos. Todo dia prometia a si mesmo que encontraria outro lugar, mas parecia que o inverno não perdoava e cada vez que a noite chegava perdia a coragem de sair dali. Já havia desistido de encontrar um abrigo que o aceitasse, nessa época do ano não havia mais nem uma única cama disponível e as filas para uma noite também estavam longe de serem animadoras. Aquele era seu canto no mundo, feio, precário e esquecido, mas ainda assim era seu canto.
            Ajeitou seus trapos e se encolheu quando viu os flocos de neve caindo do céu. Seria mais uma noite daquelas, pensou. Não era muito tarde ainda, mas o fluxo de pessoas que estavam passeando ali estava surpreendente. Podia ouvir risadas e trechos de conversas banais.
            As pessoas que passavam por ele apressavam o passo com medo e desconfiança, mas não as julgava, também sentiria um certo desconforto se não fosse ele naquela situação. Não se sentiu incomodado, só queria um lugar para descansar um pouco e não pensar no que faria no dia seguinte. Assim que se sentiu razoavelmente confortável, seu estômago roncou alto e ele se permitiu murmurar uma reclamação alta.
            Uma mulher muito bem vestida e devidamente agasalhada passou por ele e, assim como os outros, andou mais rápido. Nem se deu ao trabalho de prestar atenção em suas feições, as pessoas eram como sombras que passavam por ele. Como se nunca pudesse tocá-las, tampouco pertencer ao mesmo mundo que elas.
Tentando esquecer o frio e a fome, se obrigou a dormir um pouco, talvez quando abrisse os olhos estaria tudo um pouco menos pior. Como não podia contar com a chegada da primavera tão cedo, tinha a esperança de que quando abrisse os olhos seria acordado com a luz do sol aquecendo sua pele e driblando um pouco o inverno.
            Algum tempo depois foi acordado com o barulho de passos desajeitados. Droga, ainda não era dia, pensou com desprezo. Ergueu o rosto buscando o ruído e tentou distinguir com olhos cansados os contornos da pessoa que andava em sua direção. Reconheceu a mulher que havia passado por ele por causa de suas roupas escuras que pareciam ser muito quentes e confortáveis, lembrava de ter pensado. Ela carregava várias sacolas nos braços enquanto tentava se equilibrar nos saltos que definitivamente pareciam caros. Por alguns segundos considerou a hipótese de ajudá-la, mas teria que sair de seu canto e temia que ela fosse gritar ou agredi-lo se chegasse perto demais. Estava enganado.
Chegando perto dele, a mulher se agachou e, apesar do frio congelante, deu um sorriso capaz de aquecê-lo de dentro para fora. Ela tinha um sorriso bonito, pensou.
– Boa noite, senhor, desculpe incomodá-lo. Não é muito, mas espero que seja do seu agrado. A noite de hoje está castigando de verdade. – Com isso ela se levantou, sorriu novamente e se afastou, dessa vez andando de maneira mais segura.
Ele abriu as sacolas e arfou surpreso. Não pôde deixar de olhar em volta para ver se havia algo errado. Ela havia lhe dado dois novos e espessos cobertores, várias meias que pareciam bem resistentes, um casaco preto bem grosso, luvas de couro e dois gorros. Ao abrir as outras sacolas quase queimou a mão com as embalagens quentes de sopa e café.
Não esperou nem um segundo para atacar o primeiro pote de sopa, nem se importou em queimar os lábios. Encontrou na sacola de comida algumas fatias de pão e quase gemeu de satisfação. Estava louco para vestir o novo casaco e se encolher nos cobertores, mas o frio teria que esperar, aquilo estava bom demais. Depois de se esbanjar com a comida e se deliciar com o café, arrumou seu canto da melhor maneira possível e se sentiu satisfeito ao deitar. Não se sentia assim há muito tempo.
Os flocos de neve continuavam caindo e ele deixou sua mente vagar pelo inverno. Que engraçado, ele pensou. “Não é muito”, ela havia dito, mas para ele ela havia dado tudo.


Escrevi esse conto para uma prova da faculdade e decidi postar aqui. O que achou? Gostou do conto? Já escreveu algum parecido? Não deixe de comentar!
18:17 No comments

            Sabe, querido... Esses dias, entre mais uma troca de cores no céu, algumas imagens dançaram em minha mente.
            Eu estava pensando naquelas praias desertas, secretas e escondidas, como você mesmo já mencionou certa vez. A gente podia construir nossa casinha daquele jeito em que sonhamos acordados de vez em quando. Nosso paraíso particular a alguns passos do mar, logo na areia, com um quintal improvisado na parte de trás e uma varanda de madeira ocupando toda a frente do nosso cantinho. Dois andares modestos com cômodos pequenos e simples, com um quarto quadradinho e aconchegante, mas com um banheiro um tanto quanto extravagante. Com uma banheira com vista para o mar e aquelas janelas gigantescas que você jurou que me daria um dia.
A gente nem precisa de tanta coisa, me contentaria com uma televisão meia-boca só para nos entreter quando o clima não permitir e depois de ter ouvido a sua bronca por querer fazer algo tão infantil quanto ficar lá fora na chuva. A gente podia ter uma rede na varanda. Eu sei que você sempre quis ter uma daquelas redes enormes, mas posso confessar um segredo? Prefiro aquelas normais, pequeninas mesmo, só pra você ter que me espremer entre as suas pernas e sobre seu peito, pra você não ter escolha a não ser passar os braços em volta de mim. Mas se for pra convencer você a se mudar pra praia comigo, aceito a rede maior, vou dar um jeito de me aconchegar em você de qualquer maneira, você sabe que sou boa nisso.
Se você aceitar morar na praia comigo, vai poder ter aquele jipe que sempre me mostrou nos catálogos, eu nem gosto mesmo. Juro que não reclamo do vento no cabelo quando você me arrastar para algumas voltas. Até deixo de insistir em pegar no volante também só pra manter esse sorriso leve no seu rosto. Se você aceitar morar na praia comigo juro que tento não reclamar tanto do calor, até te faço companhia pra caminhar durante o dia se você prometer dançar comigo na areia de noite. Deixo você me arrastar pra fora pra ver a lua; vou tremer com o frio do vento e sorrir pro calor do seu abraço. Vamos ter um lugar pra colocar aquele telescópio antigo do seu avô, a gente observa o céu enquanto você me mostra as estrelas jurando que sabe do que está falando e eu juro que acredito. Se você acender aquela fogueira que uma vez me confessou que sabia fazer, prometo me enroscar em você. Contanto que você toque alguma coisa na sua gaita também, claro. Posso até te fazer rir com minha voz enferrujada e minhas notas desafinadas. Você adora rir da minha empolgação.
Preciso de um espaço para os meus livros, uma estante qualquer ao lado da sua poltrona favorita. Se você cumprir a promessa de ficar sem camisa o dia inteiro, leio em voz alta algum trecho dos meus romances bobos, aqueles que você morre de ciúmes. Prometo deixar sempre no sofá o cobertor que você tanto ama, faço também o sacrifício de comprar algumas cervejas que você, por mim, finge não gostar. Não me incomodo tanto assim, não sendo você.
Vamos morar na praia? A gente faz amor no mar ou se preferir deixamos o romance de lado e só nos agarramos na areia mesmo. Fica me vendo fazer yoga na areia? Eu deixo você rir de mim nas vezes em que eu cair, contanto que você me dê um beijo e me pergunte se doeu. Fico um dia inteiro só usando uma camisa branca qualquer. Deixo você me molhar o quanto quiser, seu olhar intenso vale qualquer coisa. A gente realiza o sonho de ter dois cachorros grandes correndo por aí, te provaria que não sou uma mulherzinha e construiria eu mesma a casinha deles. Bom, pelo menos eu tentaria. Você acabaria tendo que intervir às gargalhadas e terminaria o trabalho, mas pelo menos meu ponto estaria provado. Até te daria um pug pra ficar roncando pela casa, nunca vi um homem do seu tamanho gostar de um bichinho desses.
Prometo me desdobrar na cozinha mesmo não tendo talento nenhum pra isso, você bem sabe. Prometo ser paciente em toda a minha impaciência, ser mais calma em meio a toda a minha tempestade interior. Tenho certeza de que a gente se encontra no meio de toda a nossa contradição.
Quero ver meu esmalte escuro se desfazendo facilmente por causa da maresia. Quero sentir o cheiro do oceano na sua pele, ver o brilho das ondas no seu sorriso e ouvir a mais pura beleza na sua risada alta e grossa. Quero me encontrar em seus braços em baixo de um pôr do sol salgado e sentir o gosto do mar na sua língua. Nua sob seu corpo, despida de qualquer melancolia. Me permite esse devaneio doce e morno? Esse amor azul e fresco? Essa vontade aguda e quente? Então, querido, muda pra praia comigo?
13:33 7 comments
Sobre caminhos meio tortos, amizades nostálgicas e olhar para trás.


Dizem que nossas escolhas nos definem. Não sei se consigo conviver muito bem com isso, afinal, nem todas as escolhas até aqui foram feitas inteiramente por mim. Sei que grande parte foi sim, mas... não sei. Sou egoísta ao ponto de não querer ser responsável por tudo. Tenho a péssima mania de querer olhar para trás o tempo inteiro e nem sempre isso me faz bem. Jurei para tantas pessoas que algo seria eterno e acabou não sendo. Jurei que tantos momentos seriam duradouros e acabaram se tornando apenas mais um conjunto de lembranças que eventualmente eu desenterro por conveniência. Eu tinha tantas certezas que hoje me pergunto como foram se tornar dúvidas... Acho que deixei o tempo correr tão livremente e, quando me dei conta, ele já não estava mais lá. Os momentos haviam terminado, as pessoas foram embora e o presente se tornou passado.
Quando foi que tudo mudou tão rápido? Em que momento eu me perdi? Não sei onde minha mente estava, não faço ideia de onde meu coração se meteu. Achamos que sabemos que nada dura pra sempre. Confuso. Verdadeiro. Acredito que tinha esse “achismo” em mim e só percebi isso agora.
Estou escrevendo esse texto porque um incômodo choque de realidade me pegou de surpresa. Uma amizade de longa data me fez voltar a questionar algumas certezas idiotas. Temos consciência de que as pessoas também vivem suas vidas e seguem em frente independentemente se estamos presentes ou não, mas por egoísmo nos recusamos a acreditar. Sempre pensamos: “ah, ela volta. Tudo sempre se resolve.” Mas... E se não for? E se dessa vez foi diferente?
Eu tinha certeza de que, mesmo distante, algumas pessoas seriam eternas. Quando se conhece alguém há tanto tempo, é inevitável criar esse sentimento de conforto para com a pessoa. Eu criei, sabe? Eu tinha certeza absoluta de que não importavam os caminhos, no final o destino seria o mesmo. Algumas amizades parecem grandes demais para ter um fim. Acho que o que mais me incomodou nessa história toda, não foi “a curva na estrada” em si. O que me deixou um pouco perplexa foi o fato de que só eu me senti incomodada com aquela realidade. Fomos grandes amigas sim, de anos, mas o fim não me incomodou tanto quanto a sensação que se seguiu. Eu me senti sozinha no meio desse sentimento. Será que eu sou a única que está achando isso tudo muito esquisito? Os incomodados que se retirem? A amizade na qual eu me refiro não era aquela necessária, entende? Não era uma amizade urgente. Pelo contrário, era... Morna. Podíamos passar semanas sem nos falar e no final não fazia diferença nenhuma.
 As risadas eram as mesmas, os sorrisos e a fraternidade continuavam sempre lá. Parecia que, por mais que a gente se afastasse, a intimidade permaneceria ali e ambas sabíamos disso. Era bom, era diferente, era morno.
Juro que não acreditava que algo tão sutil me tocaria tanto. É nostálgico como eu me senti pequena diante todos esses pensamentos. Eu senti... Saudade. Por mais que eu tentasse negar, por mais que meu orgulho ferido gritasse e esperneasse, eu senti saudade. É ruim quando algo não parece nem perto de ser recíproco, nos sentimos insignificantes.
O que eu estava falando mesmo? Ah, escolhas! Esse sentimento cinzento chamado saudade me atingiu quando eu andava pelos longos corredores da escola e meu olhar cruzou com o olhar dessa estranha conhecida. Foi inesperado, quase atrevido. Em meio segundo, todos esses pensamentos disfarçados de palavras cruzaram minha mente. Tento entender até agora o que aconteceu, procuro pela maldita escolha que foi capaz de mudar tudo. Não acredito que algum dia vou conseguir a resposta que eu quero. Quero tantas respostas impossíveis e inalcançáveis, essa terá que se cornformar em ser apenas mais uma entre muitas.
O que aconteceu depois da troca de olhares? Dividimos um sorriso cúmplice e cada uma voltou a seguir seu caminho por aqueles corredores. Continuamos fazendo escolhas como todo mundo e esperamos não errar mais uma vez, ou pelo menos encontrar o caminho certo no meio de estradas erradas. Acho que em cada curva alguém novo e maravilhoso pode aparecer e mudar tudo, mas também espero que, vez ou outra, apareça alguma visita inesperada como essa que me faça abrir algumas portas já fechadas e me faça repensar um pouco.
Nem todas as pessoas precisam nos mudar radicalmente ou causar um estrago. Também não precisamos sempre de alguém completamente novo. Nem sempre o velho é ruim, nem sempre faz mal olhar para trás, foi bom perceber isso. O friozinho na barriga que vem acompanhado da nostalgia pode ser bem agradável. Continuamos a nos cruzar por ai, nos esbarramos ocasionalmente. O sorriso sempre continuou o mesmo, sou bastante grata por isso. É claro que a saudade também faz questão de marcar presença, seria estranho se não marcasse. Algumas vezes aparece grave e dura ou até aguda e sutil. Mas de vez em quando, a saudade vez simplesmente... Morna.

17:13 3 comments
Older Posts

About me

Whats-App-Image-2020-02-10-at-14-04-15

Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

Follow

Assine a newsletter!


Seguidores

Follow

Popular Posts

  • Entenda a ordem de leitura da Irmandade da Adaga Negra
  • 8 autoras de romances adultos que você precisa conhecer
  • Resenha: O Inferno de Gabriel
  • O que é a leitura sensível?
  • Tirinhas para acompanhar no twitter
  • Resenha: A sutil arte de ligar o f*da-se
  • 13 episódios de desenhos animados para assistir no dia das crianças
  • Dicas para tirar fotos incríveis de livros
  • Resenha: A Seca
  • Resenha: Peça-me O Que Quiser Ou Deixe-me
online

Created with by ThemeXpose