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Nostalgia Cinza


 Em meio a um momento histórico que nos obriga a repensar a forma como ocupamos o mundo, Valentes chega como um livro indispensável. Ao trazer para perto a questão do refúgio no Brasil, as mesmas autoras de Extraordinárias apresentam histórias que poderiam muito bem ser nossas. Um livro extremamente atual e imprescindível. Saiba mais na resenha de Valentes!

"Das mesmas autoras de Extraordinárias, Valentes é uma obra de referência sobre o tema do refúgio no Brasil.

A questão dos refugiados tem ganhado holofotes pelo mundo inteiro, mas o preconceito, a xenofobia, as fake news e o medo frequentemente atrapalham a discussão. Para auxiliar na compreensão desse tema tão complexo e combater a desinformação, as jornalistas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza reuniram histórias de vida emocionantes, de pessoas de mais de quinze nacionalidades, que vieram para o nosso país pelos mais variados motivos ― desde dificuldades financeiras até perseguição baseada em raça, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero ou opinião política ―, todas em busca de um lugar onde pudessem de fato viver.

Com uma linguagem acessível, a obra também traça um panorama histórico do refúgio no Brasil e no mundo, apresentando conceitos e dados, e traz infográficos sobre os principais conflitos que geraram esses fluxos migratórios. O resultado é um material humano e sensível, que dá voz a quem precisa ser ouvido e celebra as diferenças que tornam nossa nação tão plural."


FICHA TÉCNICA
Título: Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil
Autoras: Duda Porto de Souza, Aryane Cararo
Ano: 2020
Páginas: 296
Idioma: Português
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Nota: 5/5
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


Em 2015 a imagem de um pequeno corpo inerte na areia de uma prata turca chocou o mundo porque deu um nome para uma das milhões de vítimas das travessias responsáveis por alterar a tessitura do que entendemos como nação atualmente. Em pleno século 21 ainda fechamos os olhos para os refugiadas que constantemente aparecem para nós apenas como estatísticas nos noticiários. 

“Se de alguma forma a pandemia mostrou que estamos todos interrogados, ela também os apontou que olhar para o outro é a única forma de sobrevivermos. Ou salgados todos ou não restamos nenhum - e isso é mais do que sobrevivência da espécie, é a sobrevivência da nossa humanidade e do que entendemos por civilização.” Página 9


Valentes é um livro que chega até nós em meio a uma pandemia e a uma tentativa de isolamento em massa para nós fazer questionar a forma como ocupamos o mundo e como nos organizamos como sociedade. Valentes dá cara, nome e história para pessoas refugiadas no Brasil, nos fazendo questionar o motivo pelo qual as barreiras geográficas valem mais do que vidas, tanto aquelas perdidas, quanto aquelas que só desejam continuar. 

Desde o começo do livro somos apresentados a um leque de informações importantíssimas e extremamente relevantes. Pensamos que a questão do refúgio é algo distante demais, mas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza trazem o assunto para perto de um jeito muito didático. Nas primeiras páginas de Valentes temos acesso a um panorama da história do refúgio no Brasil, incluindo a legislação e números a respeito da situação de pessoas refugiadas no país. Além disso, as autoras explicam as diferenças entre o conceito de migrante, apátrida e refugiado, contextualizam o ACNUR, falam sobre xenofobia não apenas em relação aos adultos, mas às crianças refugiadas, mencionam os refugiados brasileiros (sim, eles existem), abordam os feriados do clima, trazem respostas objetivas a algumas das mentiras que precisam ser combatidas, e muito mais. 


Para contar as histórias das pessoas refugiadas no Brasil, as autoras dividem Valentes em quatro partes correspondentes aos continentes Ásia, África, Europa e América Latina. Ter contato com tantas narrativas de lugares tão diferentes faz com que a gente possa entender melhor a importância de acolher refugiados e imigrantes. A humanização dessas pessoas é um dos pontos mais fortes de Valentes e, em um mundo cada vez mais polarizado e violento, poder se colocar no lugar do outro dessa forma é uma experiência necessária. 

“Espalhar histórias tão verdadeiras e únicas é a melhor maneira de promover a reflexão e, em última instância, a mudança social. Enquanto silenciamento outras pessoas, nos silenciamos também. Consequentemente, silenciamos a humanidade.” Página 11


O livro, além de fazer uso de dados e estatísticas para mostrar a atual situação dos refugiadas no Brasil, traz infográficos que explicam o conflito em cada uma das partes do mundo de onde essas pessoas migraram. É uma forma de explicar os motivos que tornaram insustentável a vida em seus países de origem. Dessa forma, além de gerar uma proximidade e identificação maior por meio da empatia, o livro também serve como uma belíssima ferramenta de conhecimento e estudo. Algo valiosíssimo. 


Na apresentação do livro as autoras dizem que “um dos esforços deste livro é tirar a questão da migração de um lugar de sofrimento e levá-la para um lugar de dignidade. Queremos mostrar que por trás das palavras “imigrantes” e “refugiados” já rostos, vidas, gente como a gente. Queremos combater a desinformação que ronda o assunto para que sejamos uma sociedade mais solidária.” E é exatamente isso que Valentes faz. 

Valentes nos apresenta histórias incríveis de pessoas extremamente corajosas e resilientes, nos deixa com um sentimento de esperança e superação mas, ao mesmo tempo, nos mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer se quisermos nos tornar seres humanos mais empáticos. Que possamos nos abrir mais para a pluralidade de vivências e, juntos, tentarmos tornar as fronteiras meras divisões geográficas. 

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro incrível? Então confira a resenha de O Diário de Nisha! 

“Este livro traça um panorama histórico dos vinte anos de existência da Lei de Refúgio, com números e dados de refugiados, além de informações sobre como o Brasil saiu de um lugar que criminalizava o estrangeiro para o posto de nação que detém uma das mais modernas legislações sobre o tema, embora sua política de acolhimento corra o risco de sofrer retrocessos. Trata-se de um material que situa, contextualiza e informa o leitor nesse mar de “achismos” e prejulgamentos em que o mundo tem navegado.” Página 13



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07:46 No comments


 Fazia algum tempinho que eu não lia um Young Adult e Frank e o Amor veio na hora certa. Um livro que esconde uma profundidade maior do que aparenta. Uma leitura fácil, sensível e apaixonante sobre o amor, em todas as suas formas. Saiba mais!

"Frank nunca conseguiu conciliar as expectativas de sua família tradicional coreana com sua vida de adolescente na Califórnia. E tudo se complica quando ele começa a sair com a garota de seus sonhos, Brit Means, que é engraçada, inteligente, linda… Basicamente a nora perfeita para seus pais ― caso tivesse origem coreana também.

Para poder continuar saindo com quem quiser, Frank começa um namoro de mentira com Joy Song, filha de um casal de amigos da família, que está passando pelo mesmo problema. Parece o plano perfeito, mas logo Frank vai perceber que talvez não entenda o amor ― e a si mesmo ― tão bem assim."

FICHA TÉCNICA
Título
: Frank e o Amor
Autor: David Yoon
Ano: 2019
Páginas: 400
Idioma: Português
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Nota: 4/5
Compre: Amazon
Comprando por esse link você ajuda e incentiva o Nostalgia Cinza
LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA

Frank e o Amor é um daqueles livros que nos surpreendem com sua delicadeza e capacidade de promover reflexões das formas mais sutis. O livro é a descoberta de Frankie sobre o amor romântico e o que ele significa em todas as suas nuances. Ele é um jovem confuso e inexperiente que se vê preso na confusão dos próprios sentimentos enquanto tenta decifrar o que ele entende como amor e como o amor se mostra em sua vida. 

"É mais fácil para ela amar - mais simples, menos complicado. Meu amor não é padrão. Exige soluções alternativas.

Mas é o mesmo amor? Isso importa? Não tenho ideia. Nunca me apaixonei."

Frankie é um coreano de segunda geração. Seus pais migraram de Seul para a Califórnia e ele nasceu nos Estados Unidos, mas não fala coreano. É um livro que exalta as diferenças culturais e individuais das pessoas pelos olhos de Frankie, um adolescente que está começando a viver esse processo de entender melhor os adultos como seres humanos falhos e que erram. A maturidade dele começa a aflorar à medida que percebe que seus pais também são humanos e que de vez em quando também cabe a ele tentar fazê-los refletir e questionar suas próprias certezas. 

Frank é um menino que busca pertencimento em uma sociedade e cultura que o obrigam a se enquadrar em padrões que nem ele mesmo entende muito bem. Dilemas e relações familiares também ganham muito destaque em Frank e o Amor. Como um jovem que está começando a ver o fim de sua adolescência, ele sente constantemente que não está à altura das expectativas dos pais e se precisa viver a constante comparação com as escolhas feitas por sua irmã. 

Frank não se sente coreano o suficiente nem americano o suficiente. Além dos dilemas próprios da idade, de um jovem que está saindo da adolescência e entrando na vida adulta, descobrindo o amor e sua própria identidade, ele ainda precisa constantemente se perguntar se existirá um futuro em que ele poderá ser coreano e americano, ou o que quer que ele se identifique, sem a pressão de precisar escolher um lado em uma batalha que não foi criada por ele. 

A Ásia é um continente com uma riquíssima história de conflitos entre os povos que conhecemos hoje e com preconceitos que se mantém atualmente. Acho interessante observar as diversas facetas do preconceito racial e como nós, ocidentais, gostamos de colocar os orientais em uma caixa, ignorando a pluralidade de culturas e até mesmo de preconceitos que existem entre as ricas e diversas culturas dentro da Ásia. 

É um livro extremamente atual sobre a forma como lidamos com o racismo hoje em dia, mesmo que velado, em forma de “brincadeira”. Fala sobre o racismo em relação a pessoas não brancas em geral e discute o próprio conceito do que é ser um “americano genuíno” (no caso, estadunidense).

Gostei bastante de ter acesso à narrativa de Frankie. Gosto da forma como ele pensa, nas analogias que ele usa para exemplificar a forma como ele vê a vida, as outras pessoas e os próprios sentimentos. Seus insights são o ponto alto do livro e não consegui deixar de pensar que ele se tornou um dos meus personagens masculinos favoritos dos últimos tempos. 

"Algo oficial aconteceu entre nós. Dissemos três palavras que poucas pessoas dizem às outras. É difícil definir o que essa preciosa expressão significa. É um pacto, uma declaração. Também é uma espécie de renúncia. Dizer "eu te amo" é o grito dos desamparados. Tudo o que se pode fazer é confessar e torcer por misericórdia." 

Ao final do livro temos uma entrevista com o autor que contém um trecho que resume bem o livro: “a princípio parece uma história fofa sobre um jovem que se apaixona por uma garota na escola (ou que tenta descobrir por qual garota está apaixonado), mas aí percebemos que também é sobre o amor pela família, pelos amigos, e em última instância sobre amar a si mesmo e sua própria identidade”. Nas palavras do autor, ele queria escrever sobre todos os tipos de amor. Segundo o autor, “americanos de ascendência asiática são muito marginalizados nos Estados Unidos quando se trata de representações românticas; por isso sempre enxerguei o amor através das lentes da política, raça é cultura imigrante. O amor nunca existiu isolado num vácuo para mim”. 

Ainda na entrevista exclusiva para os leitores brasileiros, o autor levanta um ponto interessantíssimo que resume bastante um dos olhares que tive ao ler Frank e o Amor. Ele diz que pessoas com diversas origens e bagagens tem a oportunidade extraordinária de enxergar o mundo profundamente de várias perspectivas, mais profundamente do que outras pessoas conseguiriam. E isso é visto de forma bem clara ao longo de toda a leitura, por meio dos pensamentos de Frank, sua forma de ver as situações que enfrenta. Frank é um personagem delicado, sensível, inteligente e interessante e é perceptível como sua própria história contribuiu para a formação de sua personalidade.

Frank e o Amor tem uma linguagem jovem para discutir, por meio de personagens adolescentes, o que vivem os jovens que não são pertencentes à maioria branca. É um livro que eu com certeza irei incluir em um próximo vídeo sobre livros que deveriam ser adotados em escolas porque traz a discussão para um cenário possível de identificação e representatividade.

Gostou de Frank e o Amor e quer conhecer outro livro encantador? Então conheça O Diário de Nisha!

"- Sinto como se não pertencesse a lugar nenhum, e todo dia é como se eu vivesse exilado num planetinha esquisito só meu - digo, de uma vez só. É impossível falar sobre isso. Mas me forço a continuar. - Não sou coreano o bastante. E não sou branco o bastante para ser totalmente americano." 

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06:42 No comments

Glória e Ruína é a continuação da história criada por Tracy Banghart e apresentada em Graça e Fúria. Serina e Nomi são duas irmãs forçadas a viver sob o domínio de uma sociedade extremamente patriarcal, onde as mulheres são forçadas a se submeter aos homens em todos os sentidos, incluindo serem oferecidas como Graças ao monarca. Em Glória e Ruína Tracy expande um pouco mais esse universo e nos presenteia com uma história de empoderamento e união feminina.

Quer saber mais? Confira a resenha de Glória e Ruína, a continuação de Graça e Fúria!

"Na continuação de Graça e Fúria, Serina e Nomi Tessaro vão dar início a uma revolução que vai mudar a vida de todas as mulheres de seu país. As irmãs Serina e Nomi Tessaro nunca imaginaram que acabariam em lugares tão distintos: Serina em uma ilha-prisão, Monte Ruína; Nomi no palácio de Bellaqua, como uma graça, à disposição do príncipe herdeiro do reino. Depois de sofrer uma grande traição, Nomi também é mandada para a ilha e, ao chegar lá, para sua surpresa, encontra Serina à frente de uma rebelião das prisioneiras contra os guardas.
Agora as irmãs têm um objetivo em comum: mudar o funcionamento de toda a sociedade. Além disso, elas sabem que Renzo, gêmeo de Nomi, está em perigo. Relutantes, elas se separam mais uma vez, e Nomi retorna à capital, enquanto Serina permanece em Monte Ruína para garantir que todas as mulheres encontrem um lugar seguro para viver. Só que nada sai como o planejado ― e as duas vão ter de enfrentar os seus maiores medos para mudar o país de uma vez por todas."

FICHA TÉCNICA
Título
: Glória e Ruína (Graça e Fpuria #2)
Autora: Tracy Banghart
Páginas: 312
Ano: 2019
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Nota: 4
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA


Em Graça e Fúria fomos apresentados a Viridia e sua sociedade patriarcal e medieval. Em um mundo onde as mulheres foram obrigadas a se submeter aos homens, principalmente à monarquia vigente, Serina e Nomi foram enviadas como Graças para o palácio, com o objetivo de servir ao monarca, um jovem que tem como responsabilidade dar continuidade a esse regime totalitário e misógino. No primeiro volume, as duas irmãs viram o que essa sociedade tem de pior e, depois de algumas reviravoltas bem dolorosas, Nomi caiu na lábia de um perigoso golpista e Serina foi forçada a lutar pela sua vida em Monte Ruína, uma ilha-prisão dedicada a mulheres que ousaram, de alguma forma, desobedecer o regime e suas regras.

"- Serina foi condenada por ler - Nomi acrescentou. - Como...
- Como a morte pode ser punição para isso? - Anika terminou a frase por ela. Seus olhos se estreitaram. - Essa prisão não é só para assassinas e conspiradoras, entende? É para qualquer mulher que desafia o funcionamento de Viridia, em qualquer instância. É para desobedientes." Página 32


Graça e Fúria foi o começo de uma transformação profunda que cada uma das protagonistas viria a enfrentar. Elas foram forçadas a abrir mão das certezas que tinham e a se moldarem de acordo com a situação. Nomi precisou aprender mais sobre a realeza e o reino, descobrindo capítulos apagados da história que dava às mulheres uma importância inegável e surpreendente em Bellaqua. Serina foi obrigada a lutar por sua vida em uma ilha repleta de mulheres que precisaram se tornar assassinas para sobreviver à selvageria de Monte Ruína. As duas irmãs precisam abrir mão de quem eram para abraçar quem elas viriam a ser.

Em Glória e Ruína o desenvolvimento das protagonistas, que já foi muito bem explorado pela autora, se torna ainda mais evidente, principalmente o de Serina, que se torna uma líder capaz de mudar para sempre a história de Monte Ruína e da própria sociedade como ela era até então. Tracy Banghart consegue criar protagonistas femininas fortes que servem de inspiração para toda uma geração que poderá ler, em suas histórias favoritas, exemplos de força feminina, de união e de rebeldia. Serina e Nomi são duas jovens que precisam amadurecer cedo e o fazem de forma exemplar, sem abandonar seus valores e sem perder de vista o poder que as mulheres têm ao se unirem. Elas mostram como é possível reescrever a história sem precisar se moldar ao regime. Muito pelo contrário, elas usam sua inteligência e empatia para começar uma revolução.



O texto é intercalado entre a narração de Serina e de Nomi, dando mais velocidade à leitura. Além disso, a escrita de Tracy Banghart é extremamente fluida e isso se mantém na conclusão dessa narrativa. A autora faz uso de muitos diálogos para dar ritmo à história e, mesmo sem descrições muito extensas, ela consegue fazer com que o leitor imagine perfeitamente cada cenário, cada personagen, cada cena. Ela sabe que menos é mais e navega com o leitor com tranquilidade e fluidez. Mesmo que o final não seja muito surpreendente, levando em conta toda a construção do enredo até então, não existem decepções em relação à narrativa e o leitor termina a duologia com a certeza de que são livros excelentes para uma nova geração de leitoras.



Mesmo sendo um livro voltado para o público jovem adulto, existem descrições bem intensas principalmente durante as cenas de batalhas, o que faz com que o livro tenha uma profundidade maior. Em um contexto tão violento e extremo como o abordado pela autora, seria incompatível que a narrativa não fizesse uso, pelo menos algumas vezes, de descrições fortes. Isso também dá um tom de seriedade ao livro, que mostra as consequências de uma revolução e as perdas inevitáveis que ela traz.

Glória e Ruína é um livro sobre sororidade. Tracy Banghart nada mais faz do que criar um universo em que as mulheres precisam de unir para combater o sistema e ir contra a opressão. É emocionante se envolver com o vínculo criado pelas personagens ao longo da narrativa, principalmente entre as mulheres presas em Monte Ruína. É um exemplo extremo de como mesmo em ambientes hostis pode existir união entre mulheres e como essa união é poderosa. É inspirador porque mostra que é possível criar um contexto de guerra sem que o feminino seja usado como artifício de desavença ou competitividade.

"- Será que algum dia não vou estar lidando com cem medos diferentes? - Nomi perguntou à irmã em voz baixa.
- Espero que sim. Mas, enquanto isso, talvez isso ajuda. - Serina tirou da bota uma pequena faca improvisada.
Hesitante, Nomi aceitou. Era fna e afiada; como segurar violência nas mãos.
- O que eu faço com isso?
- O que tiver que fazer." Página 81


Adoraria que a história tivesse um aprofundamento maior e que Tracy Banghart bebesse um pouco da escrita de Mary E. Pearson, autora de Kiss of Deception para melhorar ainda mais a ambientação de suas histórias, os conflitos internos dos personagens e desse mais magnitude às batalhas e conjunturas apresentadas de forma um pouco superficial. Entretanto, é compreensível que o universo criado pela autora cumpra bem o papel de ser uma porta de entrada para outras ficções do gênero.

Consigo ver várias novas leitoras se inspirando na história de Nomi e Serina e acredito que esse seja o ponto mais alto do livro. A literatura é uma poderosa ferramenta de transformação e criação de consciência e saber que está crescendo o número de enredos com protagonistas femininas da forma como são tratas em Glória e Ruína é um alívio extremo. Uma nova geração de leitoras pode encontrar nos livros de Tracy Banghart uma inspiração e um alento.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro do gênero? Então conheça The Kiss of Deception!

"Ela segurou firme no leme e não disse mais nada. Depois de um tempo, olhou para Malachi e viu que ele tinha adormecido, caído de lado, com a cabeça apoiada em sacos de juta.
Passou o resto da noite sozinha com as estrelas." Página 96



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09:56 No comments

A continuação de O Beijo Traiçoeiro foi uma surpresa extremamente agradável que me deixou ansiosa para conferir o que Erin Beaty reservou para protagonistas tão marcantes e apaixonantes quanto Sage e Alex. Uma história de amor envolta por obstáculos e com tudo que merece uma boa aventura.

Confira o que achei de A Missão Traiçoeira, segundo volume da série de Erin Beaty!

"Sage Fowler abandona seu posto como aprendiz de casamenteira e se envolve em uma nova missão secreta ao lado do capitão Alex Quinn no segundo volume da série O Beijo Traiçoeiro.
Depois de se provar uma espiã habilidosa e uma casamenteira estrategista, Sage Fowler passou a ocupar uma posição confortável na alta sociedade, dando aulas para as princesas do reino de Demora. Quando surge a oportunidade de participar de uma nova missão secreta, porém, Sage quer aproveitar a chance para servir ao seu reino mais uma vez — e ficar mais próxima de seu noivo, o capitão Alexander Quinn. Alex não fica nada feliz com a ideia, já que está determinado a proteger a namorada de qualquer perigo.
A insistência de Sage em fazer parte da missão faz com que eles se desentendam cada vez mais e, quando um conflito com um reino vizinho resulta em uma tragédia, os dois acabam separados. Para completar a missão de Alex — e a sua própria —, Sage precisará contar com a ajuda de aliados inesperados para sobreviver em um território inimigo e salvar o reino de Demora mais uma vez."



FICHA TÉCNICA

Título: A Missão Traiçoeira
Autora: Erin Beaty
Ano: 2018
Páginas: 456
Idioma: Português
Editora: Seguinte (Grupo Companhia das Letras)
Nota: 4/5
Compre: Amazon
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LIVRO CEDIDO EM PARCERIA COM A EDITORA



Em A Missão Traiçoeira podemos nos envolver mais com a história de amor de Sage e Alex de uma forma mais intensa. É interessante observar a dinâmica dos dois, como o relacionamento é - ou não - afetado por suas escolhas e pelas missões nas quais estão envolvidos. Me senti mais encantada pelo casal nesse segundo volume, mesmo tendo ficado bem apaixonada em O Beijo Traiçoeiro.

"Tirando o próprio capacete com dificuldade, voltou-se para Sage com um misto de orgulho e irritação nos olhos castanhos.
- Você é uma trapaceira, sabia?
- Pelo que me lembro, você me ensinou a usar todas as vantagens a meu favor.
Alex riu.
- Pois é. Me rendo, milady.
Todo o acolchoamento dificultava um beijo, mas ele deu um jeito." Página 17


Apesar da forma de narrar se manter do primeiro para o segundo livro, os cenários se alteram, oferecendo um enredo bem diferente do anterior. Tanto os problemas se tornaram mais abrangentes e políticos, quando os dilemas dos personagens se tornaram mais maduros. Senti que A Missão Traiçoeira mostra um lado mais maduro dos personagens e, ao contrário de O Beijo Traiçoeiro, deu um horizonte mais delineado para o futuro dos protagonistas e para a própria série de Erin Beaty.

Mesmo que a história trate do tempo presente, por meio de diálogos é possível conhecer ainda mais a fundo o passado dos personagens principais e suas motivações.

Sage Fowler é uma protagonista que, mesmo estando rodeada de homens e precisando se submeter às ordens de seus superiores, mantém sua feminilidade, força e independência. É um bom exemplo do futuro perfil das mulheres da literatura de ficção, o que só rende mais pontos positivos para a história de Erin Beaty.


Mesmo que os conflitos políticos sejam o fio condutor do enredo, A Missão Traiçoeira é um livro sobre pessoas e como os relações nos movem. As escolhas dos personagens são feitas com base em seus sentimentos em relação aos outros. Sage aceita sua missão para ficar mais próxima de Alex; Alex precisa entender como a profundidade de seus sentimentos afeta suas escolhas; Nicholas sente que precisa se provar para todos que ama.

Por mais envolvente que seja a narrativa, o enredo não traz nada de muito inédito, a história é bem parecida com a de vários outros livros do gênero, principalmente The Kiss of Deception, que, a meu ver, trata das questões políticas e territoriais dos reinos de forma mais profunda e detalhada. A Rainha de Tearling também é uma referência que surgiu enquanto lia a história criada por Erin Beaty.

"- Capitão, é a srta. Fowler! - uma voz exclamou.
- Eu sei quem ela é! - As mãos de Alex apalparam seu pescoço, sua cabeça e seus ombros à procura de ferimentos. Sage gemeu e tremulou as pálpebras, mas manteve os olhos fechados. Ele apalpou os braços e as costelas dela, depois desceu até conferir todo o seu corpo. - Pelo Espírito, Sage - Alex murmurou. - O que você está fazendo aqui?" Página 187


As edições dos livros da Seguinte sempre me encantam, são livros que dão prazer de continuar acumulando em formatos físicos. Além da linda ilustração de Rafel Nobre que segue o padrão estabelecido no primeiro título, o acabamento em soft touch dá um destaque ainda maior para as cores marcantes da capa. A diagramação é muito boa, com margens generosas, espaçamento entre linhas pouco econômico e fonte em tamanho razoável, o que contribui para que a leitura corra ainda mais naturalmente. É um livro que engana com suas quase 500 páginas já que pode facilmente ser lido em poucos dias.


A Missão Traiçoeira é um livro bem fácil de ler, com muitos diálogos e poucas descrições, o que não empobrece a leitura. Erin Beaty consegue criar cenários e desenvolver a narrativa de tal forma que o leitor se envolve na grama com facilidade. Só cresce a ansiedade para saber o que Erin Beaty guarda para o último volume dessa trilogia que me conquistou bem rápido.

Gostou da resenha e quer conhecer outra história do gênero? Então confira a resenha de The Kiss of Deception!

"Alex estava ali. Vivo.
E era dela.
- Eu te amo - Sage sussurrou.
- Essa - ele disse, puxando-a para um beijo intenso - é a melhor coisa que escuto em meses." Página 378


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16:30 No comments

Quando recebi a prova de Graça e Fúria, fiquei curiosa para ler uma narrativa que, a princípio, me parecia apenas mais um romance. Entretanto, já no primeiro capítulo me surpreendi com as protagonistas fortes e inquietas, com o contexto de uma sociedade pautada pelo machismo e com a forma de abordar assuntos que poderiam cair no clichê. Graça e Fúria me prendeu desde a primeira página e se mostrou uma leitura interessante e encantadora.

Quer saber o que achei de Graça e Fúria? Então leia a resenha:

Duas irmãs lutam para mudar o próprio destino no primeiro volume de uma série de fantasia repleta de romance, ação e intrigas políticas. Em Viridia, as mulheres não têm direitos. Em vez de rainhas, os governantes escolhem periodicamente três graças — jovens que viveriam ao seu dispor. Serina Tessaro treinou a vida inteira para se tornar uma graça, mas é Nomi, sua irmã mais nova, quem acaba sendo escolhida pelo herdeiro. Nomi nunca aceitou as regras que lhe eram impostas e aprendeu a ler, apesar de a leitura ser proibida para as mulheres. Seu fascínio por livros a levou a roubar um exemplar da biblioteca real — mas é Serina quem acaba sendo pega com ele nas mãos. Como punição, a garota é enviada a uma ilha que serve de prisão para mulheres rebeldes. Agora, Serina e Nomi estão presas a destinos que nunca desejaram — e farão de tudo para se reencontrar.



FICHA TÉCNICA


Título: Graça e Fúria
Autora: Tracy Banghart
Ano: 2018
Páginas: 304
Idioma: Português
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Nota: 5/5  
Compre: Amazon 
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Graça e Fúria conta a história de duas irmãs obrigadas viver em uma sociedade extremamente machista, em que as mulheres são criadas para serem submissas e totalmente dependentes dos homens. Mulheres não podem trabalhar com nada além de bordar, cozinhar e cuidar da casa, não podem ler, nem se posicionar diante de alguma questão política. A sociedade é governada por um superior que desempenha o papel de uma espécie de rei totalitário. A tradição prega que tanto ele quanto seu herdeiro tenham mulheres a seu dispor, chamadas de graças. Ser uma graça é, supostamente, uma honra inigualável, mesmo que isso signifique passar o resto da vida como uma mulher de vitrine, tendo que estar sempre disponível para conceder os desejos do superior ou de seu herdeiro.

“Nomi ficou na cama sozinha.
A noite inteira, sentiu seus pulmões doerem ao respirar, como se seu peito estivesse amarrado a ferro.
Sou uma graça.” Página 36



Serena foi treinada ao longo de toda a sua vida para ser uma graça, isso significaria prestígio perante a sociedade e uma vida melhor para sua família. Quando ela é uma das escolhidas do superior para desempenhar o papel de uma das graças do herdeiro, ela sente um misto de felicidade e dever cumprido. Entretanto, o herdeiro escolhe Nomi, sua irmã rebelde e despreparada para a função, para ser uma de suas graças. Nomi, ao contrário de Serena, aprendeu a ler em segredo, se rebela contra tradições que ao seu ver não fazem sentido e não entende porque a sociedade funciona de tal forma. Para proteger sua irmã, Serena é exilada em uma prisão com outras mulheres consideradas indignas de viver em sociedade e precisa repensar tudo o que ela sabe e o que ela é.

O título do livro, Graça e Fúria, representa o que cada irmã era e o que se tornou. Serena, treinada para ser uma graça, se vê consumida pela fúria e pela descrença. Nomi, com sua personalidade explosiva e impulsiva, precisa aprender a se tornar uma graça se quiser sobreviver e salvar sua irmã.


Um ponto alto do livro se refere ao fato de o arco central não ser focado em uma relação entre homem e mulher e sim entre duas irmãs, uma em busca da salvação da outra. Os homens, mesmo desempenhando papéis importantes para o desenvolvimento da narrativa, são coadjuvantes. Em Graça e Fúria, são as mulheres que, mesmo aparentemente submissas, ganham destaque.

Graça e Fúria me surpreendeu bastante. Confesso que não estava com muitas expectativas porque esperava encontrar uma narrativa de época com dilemas rasos e superficiais, mas tive todas as minhas expectativas superadas. A todo momento esperava que os protagonistas masculinos ganhassem destaque e fossem perdoados por suas ações em uma sociedade cruel e patriarcal, mas não é o que acontece. Mesmo em momentos de romance ou conexão com personagens masculinos, as mulheres detêm parte do controle e tentam tomar as escolhas por si só, mesmo que o contexto não permita.

“- Aqui em Monte Ruína, temos que merecer nossas rações – Oráculo continuou. – E todo mundo passa fome. Então pule se tiver que pular, mas não espere ser alimentada se não trabalhar. Se não lutar. Os guardas controlam a ilha, mas vocês controlam sua própria sobrevivência. Ouça, aprendam e lembrem: as regras que aprenderam em Viridia, para ser discretas, modestas, humildes, fracas, não vão ajudar agora. Aqui, a força e a única moeda.” Página 83

É uma história para ser lida por jovens, adolescentes e adultos. A narrativa permite que diversos públicos se sintam imersos na história e se identifiquem com as personagens e suas escolhas. O livro levanta questões interessantes como o papel dado à mulher na sociedade em razão do medo da força feminina, além de discutir a sororidade.


Graça e Fúria é uma história de irmandade feminina. É sobre retomar o controle, mesmo que as mulheres não saibam que o controle sempre foi delas. É uma história gostosa de ler, que nos faz passar as páginas curiosas para saber o que acontecerá em seguida e cheia de reviravoltas que, aliadas ao desenvolvimento de cada uma das personagens, constrói uma narrativa interessante e intrigante.

Graça e Fúria é o primeiro volume e já estou ansiosa para ler a continuação. Tracy Banghart conseguiu criar um mundo aparentemente fantasioso, mas que poderia muito bem ser uma metáfora para a sociedade em que vivemos e as transformações que ela está vivenciando.

Gostou da resenha e quer conhecer outro livro que aborda a força feminina e a quebra de paradigmas? Então confira a resenha de O Poder.

“Sempre pensara que não havia valor em resistir, que não adiantaria nada.
Mas sua irmã sempre esteve certa. Valia a pena se rebelar. Só o ato de resistir podia mudar o mundo.
E elas iriam mudar o mundo. Serina garantiria isso.” Página 291

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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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