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Nostalgia Cinza


Sempre invejei os desapegados, aqueles que, de uma hora pra outra, conseguem abrir mão do seu conforto e se aventurar por outros cotidianos. 

Tenho uma amiga que mudou a vida inteira, difícil dizer quantos anos no máximo ela passou em algumas cidades. Já morou em Belo Horizonte, no Rio, em São Paulo, voltou pra BH, quase foi pra Curitiba e hoje mora na capital paulista de novo. Sabe-se lá quantas cidades ficaram perdidas nesse meio tempo. Outro amigo meu também quase vive de mudança, mesmo que essa eventualmente seja mais demorada. Já morou em Nova York, no Rio, Cambrige, voltou para a capital mineira onde nasceu e atualmente vive em Tulsa, capital do estado de Oklahoma, no meio de um nada bem desértico, diz ele. Meu namorado é outro caso incrível, morou a vida inteira no interior de Minas, nasceu e cresceu em Oliveira, uma cidade adorável há uns 100 quilômetros de Belo Horizonte. Foi morar na capital por um ano até se mudar para Cuiabá para estudar. Hoje ele faz planos para morar um tempo nos Estados Unidos, o lugar ao certo nem sabe ainda. 

Quem me conhece sabe que uma das coisas que mais amo na vida é viajar, sair por aí de malas prontas para conhecer lugares novos, conversar com pessoas diferentes e acumular histórias pra contar. Sempre pensei em mim mesma como uma alma livre, uma pessoinha com vontades gigantes e um desejo insaciável de viver a vida. Sair por aí sempre foi muito fácil pra mim. Viajar sozinha? Nem hesito mais. Mas hoje percebo que, por mais que eu ansiasse por me aventurar durante algumas semanas, a ideia de me mudar para outro lugar além daquele que estou acostumada me embrulhava o estômago.

 Me sentia como um passarinho que sabe que precisa voar uma hora ou outra, mas ainda não dá aquele pulinho essencial. Ele sabe que tem asas, sabe para quê elas funcionam, mas sente que elas ainda são pequenas demais para alçarem voo, elas ainda são frágeis. Imaturas. 

Acho que meu maior medo é a mudança. Não ela em si, mas a ideia de mudar. Moro em Belo Horizonte, nasci e cresci em terras mineiras. Sempre disse que não moraria em nenhuma outra cidade brasileira, não me via caminhando por outras ruas muito menos chamar aquele lugar de casa. Não que eu amasse a capital mineira com todas as minhas forças, eu adoro, mas eu simplesmente não me via em outras esquinas sem ser as minhas conhecidas belorizontinas. Já viajei bastante para alguém da minha idade, mas, por mais que eu me encantasse por um lugar, não conseguia pensar em me mudar sem sentir um desconforto gigantesco. Para alguém que vive reclamando de rotina, a ideia de abandonar a minha parecia nauseante. 

Nova York sempre esteve nos planos, até pouco tempo era o único lugar que me atraía como moradia, desde que pus os pés lá pela primeira vez, se tornou um dos poucos lugares que não fazia meu estômago embrulhar de ansiedade e se contorcer de nervosismo. Foi então que fui ficando mais velha de corpo, mente e alma e percebi que algumas coisas mudaram. Eu só não tinha notado o quanto. 

Passei uma semana em São Paulo por causa de um congresso de jornalismo e, pela primeira vez em muito tempo, me vi andando por aquelas ruas voltando de um supermercado, de um curso qualquer, de um barzinho com a galera, de um café com letras bem recatado. Me vi parada no trânsito sintonizando em uma rádio qualquer antes de começar a Voz do Brasil. A ideia de uma kitnet na Vila Mariana não era nada repugnante. Arrisco até em dizer que parecia... Aconchegante. 

Logo em seguida fui para Cuiabá passar umas semanas com meu namorado. Não sei bem o que aconteceu comigo de uns tempos para cá, mas não sinto mais como se não tivesse um lugar. Acho que percebi que qualquer lugar pode ser meu de alguma forma. Jamais passou pela minha cabeça a possibilidade de morar no Mato Grosso, nem por um instante. Mas quando me dei conta estava analisando as casinhas do bairro Boa Esperança e pensando em como morar ali deve ser gostoso, uma calmaria em uma capital quente e acolhedora.  

Percebi que meu medo não é me mudar, é a ideia de mudança. E quando percebi que mudar não é abandonar, parece que as cosas fizeram um pouco mais de sentido pra mim. Sempre anseio por novidade, por aquela quebra de rotina, aquele arrepio temporário que sobe pela coluna com uma promessa de lembranças inesquecíveis e deliciosas. Mas, de alguma forma, pensar em mudar quase que irreversivelmente alguma parte da minha vida era o suficiente para me causar ataques de pânico. 

Não sei bem o que mudou, é difícil apontar o dedo para o momento exato em que eu percebi que fazer as malas e chamar outro lugar de casa não parecia mais o fim do mundo. Sei que acabei percebendo que casa realmente não é um lugar, é um estado de espírito, é um conforto sem endereço e telefone. Poucas coisas me libertaram mais do que essa percepção, pois entendi que o mundo é meu não só pra visitar de vez em quando, pra turistar nas horas vagas. O mundo pode ser meu, nosso, e de quem quer que esteja disposto a se descobrir e redescobrir em cada esquina diferente. 

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Google imagens.
09:54 8 comments

Sabe, a vida é bem engraçada. Sempre adorei essas surpresas que ela reserva para cada esquina que viramos. Existe algo de delicioso e excitante em não saber o que vai acontecer a todo instante. É assustador e incrível. Sempre disse que as melhores coisas acontecem quando não estamos esperando e, mesmo assim, sempre fico maravilhada com essas reviravoltas loucas.
Sabe, algumas coisas tão sutis acabam virando seu mundo do avesso e mudando completamente tudo aquilo que você tinha tanta certeza. Acho que se tem algo que eu tenho certeza, é de que é impossível estar cem por cento certa sobre alguma coisa.
Tenho dificuldade em acreditar que uma coisa tão sutil pode se tornar o mundo de alguém. Mas acontece.
Difícil acreditar que são as pequenas coisas que tornam tudo tão delicioso. Um cachorro me seguindo foi um abraço apertado num dia péssimo que só precisava de um pouquinho de carinho. Um sorriso na rua já me fez repensar uma infinidade de coisas que eu tinha enraizadas em mim. Uma troca de olhares num restaurante se tornou meu primeiro amor. É delicioso saber que algo pequeno pode ser aquilo que vai mudar sua vida. É apavorante também, bastante inclusive. Mas não deixa de ser incrível.
Acho que é por isso que eu vivo pelos detalhes, que me perco naquilo que algumas pessoas chamariam de insignificante, de irrelevante. Pra mim, são as irrelevâncias que dão sentido para um todo que não canso de tentar entender.
Se eu não tivesse prestado atenção no bichinho que imitava cada passo meu, talvez não tivesse feito um novo amiguinho. Se eu não tivesse dado atenção ao sorriso que me cumprimentava inesperadamente, talvez meu dia tivesse seguido uma monotonia inquietante. E se eu não tivesse retribuído uma troca de olhares, talvez não tivesse conhecido o homem mais incrível da minha vida.
Passei a prestar atenção em tudo, aprendi a me deliciar com cada mísera coisinha que me acontecia. Seja um cheiro diferente, um presente delicado, um elogio inesperado, uma paisagem nova, uma coisa que aprendi ou uma conversa esclarecedora. Por um lado, é difícil dar tanta atenção às coisas pequenas, fica muito mais fácil se machucar. Mas é tão mais fácil ser feliz... E acho que é isso que importa no final.
De alguma forma, aprendi a ser mais feliz. Aprendi mais sobre mim mesma e construí minhas filosofias diárias enquanto me deliciava com os detalhes que coloriam meu cotidiano. Esperar por algo maior, algo brusco, me parece um suicídio diário. Uma morte constante.
Sou feliz em me contentar com os detalhes, são eles que me voltam à mente com um calorzinho delicioso no peito ao final do dia. E são eles que me fazem viver todo dia, a todo instante. E nada supera a sensação de saber que a cada minuto algo maravilhoso pode aparecer sorrateiramente e mudar seu mundo completamente.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest. Sinopses: AdoroCinema.
07:02 8 comments

É engraçado voltar para o exato lugar em que você esteve há algum tempo e ver como tanta coisa mudou, como você mudou. Irrevogavelmente. E é melhor ainda quando você pode olhar pra trás com um baita sorriso no rosto. E que sorriso... É tão gostoso ter o prazer voltar um pouco a memória e poder parar para refletir sobre todas as escolhas que você fez num intervalo de tempo.
Vivo refletindo sobre as coisas, faz parte desse meu jeito meio nostálgico, meio emotivo de ver e viver a vida. Às vezes preciso me frear de tantos pensamentos, me obrigar a olhar para o agora e parar de comparar e planejar. Mas, de vez em quando, me permito parar um pouco no tempo e mergulhar em lembranças que vivem ecoando na minha mente.
Acredito muito que nossas escolhas não nos definem completamente, mas dizem um bocado a respeito de nós. Afinal, no fim da vida, somos aquilo que escolhemos fazer até chegar ali e o que vivemos para tal. E às vezes é assustador pensar assim.
Sabe quando você encontra um lugar que te marca de tal forma que te faz sentir incrível pensando sobre cada escolha que te levou até ali? Por isso adoro viajar, adoro carimbar lugares na mente, criar lembranças que vão me pegar desprevenida numa tarde de domingo. E é melhor ainda quando voltamos naquele mesmo lugar algum tempo depois e percebemos quanta coisa mudou. Quando piso no mesmo chão que pisei há algum tempo e olho para a mesma paisagem que apreciei, tenho vontade de colocar a mão no ombro da pessoa que fui e dar uns tapinhas. “Você não faz ideia do que a vida tem guardada pra você”, morro de vontade de dizer.
Vivo repetindo para mim mesma que tentar voltar no tempo não muda em nada o nosso futuro. Tento nunca me arrepender de nenhuma escolha, são elas que me tornam um pouco do que sou, foram elas que me trouxeram até onde estou. E voltar ao mesmo lugar com novas lembranças, novos aprendizados e novos sorrisos é uma daquelas sensações impagáveis e simplesmente inexplicáveis.
Recentemente voltei a um dos lugares mais incríveis que já estive. O assombro de olhar para todas aquelas luzes e sentir como se o mundo estivesse acontecendo debaixo dos meus pés me surpreendeu como se fosse a primeira vez. Mas eu sabia que não era e isso foi tão incrível quanto a vista em si. O mundo pareceu parar de rodar exatamente como da primeira vez que senti aquela brisa gélida acariciar minhas bochechas e jogar meu cabelo para trás, mas eu era uma pessoa completamente diferente e sabia disso.
Lembro que meus olhos se encheram de lágrimas daquela vez. Eram lágrimas de felicidade, nostalgia, solidão, independência, tudo misturado de uma forma confusa e maravilhosa. Dessa vez meus olhos se encheram de lágrimas de novo. E eu deixei que caíssem. Eram lágrimas de alegria, de surpresa, de orgulho. E de um sentimento que não conseguiria nomear nem se quisesse.
Exatamente um ano depois, voltei para o lugar que significou um ponto decisivo para mim. O ponto de virada para a pessoa que eu fui. Olhando para todos aqueles pontinhos luminosos de cima daquele prédio grandioso, eu olhei para mim mesma alguns meses antes. Olhei para as escolhas que fiz, para as pessoas que conheci, para os momentos que vivi e para tudo o que me aconteceu depois que pus os pés no chão de novo. Percebi que tudo o que se sucedeu, aconteceu por causa daquele momento, daquela epifania que tive quase 365 dias atrás. E senti orgulho. Me senti contente. E feliz, muito feliz.
Antes de descer dali pensei que mal posso esperar para voltar àquele lugar de novo. Enquanto da primeira vez eu olhava para o passado, naquele momento eu também ansiava pelo futuro. Daria tudo para conhecer a pessoa que olharia para trás e me veria parada ali. Porque ela com toda certeza é uma estranha que vai me reconhecer de um jeito ou de outro. “Será que alguém vai colocar os braços ao redor do meu corpo enquanto aprecia a vista também? Será que vou voltar sozinha por algum motivo qualquer?”, foram algumas das perguntas que me fiz. E mal posso esperar para descobrir essas e outras respostas que só o tempo dirá.
Naquele momento, parece que a vida fez um pouquinho mais de sentido, parece que o destino me sorriu de novo. E eu lhe sorri de volta.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinteres.
11:00 5 comments
 
As pessoas me perguntam por que eu amo viajar. Pra quê esse desespero todo de sair por aí querendo largar tudo o tempo todo? Como se nada fosse suficiente, sempre querendo mais. Já viajei algumas vezes, mais que muita gente, menos que várias pessoas e nem perto o suficiente do quanto ainda pretendo viajar se tiver oportunidade. Com dois meses de vida já estava dentro de um avião cruzando o Atlântico para conhecer minha família. Quando ainda nem era amiga das palavras já comecei a entender que aquilo era algo maravilhoso. Acredito que assim que respirei um ar diferente daquele que eu estava acostumada há tanto pouco tempo – minha recém conhecida pequena eternidade – nasceu em mim uma vontade de sair por aí sendo dona de mim mesma. Agradeço às minhas raízes por me apresentarem o mundo tão cedo, por me mostrarem as possibilidades.
E se teve uma coisa que eu aprendi nesse meio tempo é que nunca me sinto tão eu como quando estou por aí. Às vezes penso que o meu lugar é não ter lugar nenhum. Se tem algo que faz sentido para mim é que a gente se descobre onde menos esperamos. Eu me descubro um pouquinho mais sempre que entro em um carro ou avião, me conheço mais um pouco toda vez que dou de cara com algum lugar novo e diferente de tudo que estou acostumada.
A verdade é que não quero largar nada, de desapegada tenho pouco, quero acumular. Acumular sorrisos sinceros e olhares encantados. Quero guardar momentos inesquecíveis, ter uma história para contar sobre cada dia da minha vida e que cada um seja diferente do outro. A sensação de pisar por um chão novo e aprender a dar os passos certos pra não tropeçar é algo que não troco por nada nesse mundo.
Gosto de viajar, de sair da rotina, de buscar conhecer, de procurar entender aquilo que, às vezes, simplesmente não tem explicação. Descomplicar o que já era fácil e simplificar esse confusão emaranhada. Sozinha, acompanhada, planejando ou deixando acontecer.
Por isso eu viajo. Pra conhecer, pra procurar, pra redescobrir. Pra viver. Pra sair de mim e me encontrar.
Vou voltar para a cidade que me encantou e que, com toda certeza, vai me encher de amores mais uma vez. Irrevogavelmente. Dessa vez vou acompanhada e vai ser uma experiência nova e – sempre – única, tão incrível quanto antes. Sempre volto um pouquinho diferente das viagens que faço. Sempre melhor. Sempre mais de bem com a vida e com vontade de viver. Mal posso esperar para andar de novo por essa cidade apaixonante e para viver as histórias que terei pra contar daqui a alguns dias.
Boa viagem pra nós <3
*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest.
10:55 9 comments
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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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