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Nostalgia Cinza


Há alguns dias me vi de pé em frente à minha estante tentando encontrar um espacinho para colocar os últimos livros que havia lido e me assustei ao ver como ela havia crescido. Lembro que, há poucos anos, estava reformando meu quarto para poder colocar minha primeira estante que seria só minha, no meu cantinho. Quando a reforma terminou fiquei levemente assustada pensando que nunca conseguiria preencher todos aqueles nichos e que precisaria ficar olhando para espaços vazios por muito tempo. Nem percebi quando cada canto foi sendo ocupado até que me vi parada ali, sem saber direito o que fazer com os livros que ainda não havia lido, mas que precisariam, eventualmente, caber ali também.

E enquanto encarava aquele espaço tentando encontrar uma solução, percebi que havia muito mais ali do que livros. Sempre acreditei que aquilo que escolhemos guardar mostra um pouco das coisas às quais nos apegamos, àquilo que, inconscientemente, nem sempre compartilhamos com o mundo. Me perguntei que tipo de mensagem traria a minha estante e, em alguns segundos, me vi sugada por lembranças, anseios, desejos e reflexões.

Que tipo de imagem criariam de mim se pudessem ver apenas os livros que já li? Veriam uma Laura bem romântica? Uma mulher imaginativa? Uma feminista cada vez mais consciente? Uma pessoa indecisa e com um gosto bem eclético? Alguém que busca respostas? Uma yogi dedicada aos estudos?

E foi quando percebi que minha estante falava mais de quem eu era do que, talvez, eu mesma poderia explicar.

Vários espaços guardavam todos os romances que eu já li, aquecendo meu coração e me levando para um tempo em que histórias de amor eram tudo o que dava sentido para noites solitárias na minha própria companhia. Um nicho todo reservado para a minha saga preferida me mostrou como, por mais que eu tenha mudado, ainda carrego comigo as lembranças e os segredos de uma mulher que sempre buscou respostas em si mesma. Outro cantinho só para meus quadrinhos continua me incentivando a sair de mim e me aventurar em mundos alheios. Um espaço para todos os livros de jornalismo me levou de volta para os primeiros períodos da faculdade, quando me maravilhei com indicações de leitura e saídas da minha zona de conforto, naquele que seria um caminho inteiramente novo. Vários outros nichos guardavam histórias que me ajudaram a passar pelos mais diversos momentos, que me ensinaram mais do que eu era capaz de absorver, que me inspiraram a sair do lugar, que me moldaram de formas indescritíveis e irreparáveis. E até mesmo alguns livros para doação se empilhavam atrás de algumas caixas, revelando uma Laura que não existe mais, mas que já esteve ali. Percebi que, por muito tempo, tentei separar todas as partes de mim, como se pudesse viver uma de cada vez da mesma forma que organizava os meus livros. Hoje, algum tempo e vários livros depois, preciso mesclar as leituras e colocá-las onde elas podem se encaixar melhor. E vejo como isso reflete a pessoa que me tornei, alguém que entende que pode ser tudo o que ela é, por inteiro. Não consigo mais me dividir em partes porque cada uma delas deixou sua marca em mim. Minha estante me lembra disso todo dia, eu apenas não havia reparado antes.

E cada livro está ali, exposto, querendo se mostrar, querendo ser visto e tocado, amado, sentido. E cada cantinho de mim se viu ali, acolhido. Há algum tempo eu havia entendido que ser mosaico era melhor do que ser quebra-cabeça e minha estante, sem que eu percebesse, passou a servir de espelho para quem eu havia me tornado. Acompanhando processos que eu nem percebia, conscientemente, que estava vivendo.

Enxergar a minha estante com esse olhar me fez perceber que existem mais formas de olhar para mim também. E é tão gostoso quando a gente descobre novas maneiras de se apaixonar por si mesma. Naquele momento eu amei um pouco mais a minha estante e, fazendo isso, me amei um pouco mais também.


13:34 No comments

2018 foi um ano meio louco. Desde o começo eu sabia que seria um ano de transição. De últimos começos e primeiros finais. Na virada do ano eu já olhava para 2018 com apreensão, entusiasmo, receio e ansiedade. Seria o último ano de muita coisa e é um tanto quanto esquisito viver um momento que você sabe que representa as últimas páginas de um capítulo.

Comecei o ano com um estágio que foi se mostrando o início do que pretendo fazer no futuro, apresentei meu TCC e recebi nota máxima, terminei a faculdade da forma mais natural e inconsciente possível, transformei um estágio em um emprego, terminei o ano me preparando e torcendo por possibilidades de estudar e mora fora, e vou passar a virada de ano em um país que sempre sonhei em conhecer.

Comecei o ano buscando mais sobre mim mesma, buscando aquilo que conversa com uma parte intrínseca a mim. Descobri a deeksha e me tornei uma doadora, me aprofundei mais nos meus estudos de Yoga e dos Sutras, fui pra São Paulo para conhecer um templo budista, consegui, pela primeira vez, entrar em contato com algo dentro de mim que eu nem sabia que existia.

Investi mais tempo no blog e nas leituras, consegui novas parcerias fixas e parcerias pontuais com editoras que amo, ultrapassei a minha meta de leitura no meio do ano, li alguns dos livros mais incríveis da minha vida, mergulhei ainda mais no meu amor pelos livros e até criei um clube do livro na minha cidade.

Passei a cuidar mais de mim, do meu corpo, da minha mente e do meu coração. Passei a olhar com mais carinho para mim mesma e busquei refletir isso todos os dias de alguma forma. Comecei a não comer carne uma vez por semana, passei a praticar yoga quatro vezes por semana, cultivei o hábito de meditar com mais frequência, enchi um potinho da gratidão, comecei um scrapbook, busquei me exercitar mais do que já fazia, passei a tomar chá todos os dias, adotei uma rotina de skin care, me dediquei mais aos meus bichinhos, procurei aprender mais sobre a natureza e o ambiente à minha volta.

Aprendi a ouvir mais e melhor a voz que existe na minha mente e a respeitar aquela que me guia de dentro do peito. Me abri para novas oportunidades e reuni coragem para colocar em prática sonhos e desejos que eu guardava há algum tempo. Me libertei de traumas e sentimentos que me acompanhavam desde que eu era nova demais para entender o que significavam. Levei alguns tapas na cara da vida e das expectativas que coloquei em mim e nos outros. Perdi um pouco a ilusão de que algumas coisas deveriam ser perfeitas e entendi que eu também jamais poderei corresponder a qualquer ideal de perfeição.

Aprendi mais sobre minha condição de mulher e sobre o propósito da minha existência como ser humano. Abri os olhos para o que o universo queria me mostrar e direcionei minha atenção para o que minha alma tentava me dizer. Fiz as pazes comigo e com muita gente que às vezes nem sabia que precisava perdoar e ser perdoada. Me abri um pouco mais para o mundo e para a vida. Amadureci muito em pouco tempo.

Tive um final de ano turbulento, com tudo o que me dispus a fazer se acumulando e me exaurindo. Me desviei um pouco daquilo que gostaria de ter feito e senti que perdi um pouquinho do que havia conquistado nos primeiros meses no ano. Senti velhas inseguranças voltando com força e descobri novos anseios que me tiraram o chão por diversas vezes. Deixei de aproveitar vários momentos porque simplesmente não consegui fazer tudo de uma vez. Temi me perder de vez enquanto não tinha mais tempo para continuar me encontrando.

Mas a vida é feita de processos e todo dia vivo um diferente. A vida é feita de ciclos e muitas vezes eles se repetem e precisamos reunir coragem, força e disposição para enfrentar os mesmos demônios de novo e de novo.

2018 foi um dos anos mais intensos que já vivi. 2018 foi um dos anos que mais me proporcionou aprendizados. 2018 me aproximou de pessoas incríveis, me afastou de outras e estreitou ainda mais os laços com pessoas essenciais pra mim. 2018 me bateu, me amou, me derrubou, me reergueu, me tirou o chão e me deu o céu. 2018 me deu o maior presente que a vida poderia ter me dado: me devolveu pra mim.

Em 2018 eu aprendi o real significado da palavra Gratidão.

Começo 2019 ainda tentando absorver tudo o que 2018 significou pra mim e com a certeza de que muitos outros anos vão passar antes que eu consiga. Começo o ano tendo a certeza de que me tornei uma pessoa completamente diferente daquela que observou os ponteiros marcarem meia noite no dia 31 de dezembro de 2017. E sei que, daqui a 365 dias, serei outra mulher olhando para o ano que termina. E isso aprendi esse ano.

2018 me ensinou que cada mudança pode ser desafiadora e linda, que cada virada de página do calendário pode representar o fim de algo que tinha que acabar e o começo de algo que precisa começar. Não preciso ser as nuvens que viajam o mundo em busca de algo maior. Eu sou o céu que as observa passar. Permanente. Presente. Consciente.

2018, gratidão. 2019, estendo a mão.

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07:37 1 comments

Me senti um tanto quanto perdida nos últimos tempos. Às vezes a gente espera demais das pessoas e esquece que não temos o direito de esperar nada de ninguém além de nós mesmos. E é bem ruim esperar sempre o bem de outras pessoas e só enxergar o mal, só receber aquilo que é ruim. Pra quem sempre teve o coração aberto para o mundo, viver em uma época de ódio não é uma das tarefas mais fáceis.

Fácil é ver que tudo está fora do lugar, que pouca coisa faz sentido. E quando algo não faz sentido pra mim, dói. Às vezes dói bastante. Mas quanto mais me recolho em mim, mais entendo que as coisas acontecem como devem acontecer, por mais que a compreensão esteja fora do alcance. Em momentos e lucidez eu percebo que tudo acontece da forma que deveria, percebo que o caminho está traçado, basta ter coragem para percorrê-lo e humildade para aceitar que ele não será da forma que eu espero.

O caminho para a compreensão é infinito e tortuoso, mas é certo e exige resiliência. E mesmo em momentos de desespero e fadiga emocional, consigo entender que é preciso força. Força para continuar bem quando o mundo está mal, força se manter de pé quando todos querem ruir, força para encarar com bondade toda a maldade do mundo.

Quanto mais abro mão de certezas e me curvo à descoberta daquilo que não sei, mais me parece claro que se sentir perdida e desamparada faz parte do processo. E dá sim pra enxergar beleza tudo. Mesmo agora. Precisa de muito pra me tirar o chão, mas pouco para me devolver a sanidade.

Me sinto sã de novo.
15:21 No comments

Ela podia sentir aquele pulsar ecoando em seus ouvidos
Era um som com textura e sensibilidade
Úmido e aveludado, quente e asqueroso
Atrás de suas pálpebras ela podia enxergar aquele vazio
Ela podia reconhecer aqueles sussurros intangíveis
Ela podia sentir aquilo que sequer chegava a tocá-la
Mas estava ali e ela tinha certeza disso
Aquele pulsar era um lembrete constante de um eterno passado presente
Era um alarme que não a deixava esquecer do que jamais ficaria para trás
Do que era uma parte intrínseca de si
Ela podia quase sentir a saliva da besta escorrendo por seu rosto
Percorrendo um caminho tão conhecido até a fenda entre seus seios
Onde se alojaria e contaminaria tudo o que era
O que sentia era uma escuridão que ela acreditava ter se livrado
Mas que só adormecera enquanto ela brincava de felicidade
A verdade é que ela estava sempre ali
Pulsando, salivando, desejando, espiando
Esperando pelo momento certo para se aproximar de novo
E quando a besta chegava, era de fininho, na ponta do pé
A besta chegava por trás, abraçando sua cintura
Colocava seu cabelo para trás e expunha seu pescoço
E quando ela estava vulnerável, a besta se mostrava casa
Se mostrava o aconchego que ela tanto ansiava
Aí ela se perdia de novo
Porque acreditava que a escuridão era tudo o que tinha e tudo o que merecia
E depois de tanto tempo, ela realmente se sentia em casa
E ela se tornava a escuridão que tanto temia

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05:09 No comments


O mais difícil é deixar ir
Pessoas, momentos, sensações, sentimentos
Porque a gente sempre acha que pode tirar mais daquilo
Que tudo isso ainda pode render mais lembranças,
Mais lições, mais alguma coisa
E a gente acaba se prendendo naquilo
Que não faz mais tão bem assim
Acaba deixando ficar
Aquilo que já deu tudo o que tinha que dar
Não porque tenha sido algo ruim
Mas porque já não acrescenta mais o que era bom
E nessa insistência nostálgica,
A gente se prende num limbo
Daquilo que não chega porque o que está aqui
Não quer ir embora
Daquilo que já não nos pertence mais
Mas que continua presente
Porque a gente tem medo de perder
Porque a gente não deixa ir


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09:47 1 comments

Todo final de ano a gente para, faz um balanço de tudo que aconteceu nos últimos 12 meses, tenta encontrar soluções, respostas e, quem sabe, algumas perguntas que a gente quer responder na virada do ponteiro. É um exercício saudável e muito gostoso de fazer, mesmo que nem tudo tenha acontecido como a gente esperava. Saber que em alguns minutos vamos recomeçar uma contagem simbólica que representa tanta coisa nos dá um empurrãozinho que não nos permitimos dar o ano inteiro. É como se o universo abrisse uma porta dourada e dissesse "vai, tenta de novo, tá tudo certo".
Ao longo de vários réveillons eu me peguei olhando pro céu se colorindo de fogos de artifício e pensei no que eu gostaria de desenhar nas páginas em branco que surgiam à minha frente. Durante várias noites de ano novo eu me perguntei quem eu gostaria de ser, quantos começos eu gostaria de tentar e quais recomeços estariam me aguardando. Sempre pensei na virada de ano como uma tentativa de começar algo novo, uma oportunidade para ser alguém diferente. Dessa vez eu pensei em fazer diferente. Se novos começos e eternos recomeços quiserem me surpreender, serão extremamente bem vindos, mas não vou buscá-los.

Em 2018 quero dar continuidade a tudo de bom que consegui alcançar em 2017. Quero me permitir ser quem eu comecei a me tornar e continuar a me transformar em quem quero ser. Ao final de 2018 terei encerrado alguns capítulos bem importantes da minha vida. Já que 2019 vai ser um verdadeiro ano de começos, quero que 2018 seja lindo em toda a sua permanência, em toda a sua constância.  Em 2018 quero me tornar uma versão melhor de mim mesma. Em 2017 aprendi a me amar um pouco mais, a cuidar de mim mesma como nunca havia feito antes e espero que em 2018 eu me apaixone por mim como nunca me permiti antes. Em 2018 quero cuidar ainda mais do meu corpo, desse instrumento que abriga meu ser e me permite viver meus dias aqui na terra da melhor forma possível. Em 2018 quero mergulhar ainda mais naquilo que me entreguei em 2017; eu que sempre vivi de forma racional e calculista, deixei que a vida me amansasse um pouquinho e o resultado foi uma delicia que merece bis. Em 2018 quero me desafiar ainda mais a ser a profissional que descobri que posso me tornar; descobri que tem tanta coisa me esperando e eu nem sabia.  
Em 2018 quero me permitir ser ainda mais criativa, espontânea e sensível; eu tinha um universo de possibilidades grudadas dentro de mim e só agora comecei a materializá-lo e mostrá-lo pro mundo. Em 2018 quero continuar presente, amando o tempo que me permito viver, o momento em que me permito estar; descobri em 2017 que fazer planos é importante sim, mas que a vida acontece agora, aqui, não depois, não lá. Em 2018 quero me permitir amar os detalhes que me fizeram quem sou; num mundo de tanta grandeza, enxergar as nuances é um privilégio que amo com fervor. Em 2018 quero continuar correndo atrás daquilo que me faz bem, continuar me colocando como prioridade e buscando aquilo que acalma minha alma. Em 2018 quero me aprofundar em tudo aquilo que toquei apenas na superfície e já me transformou positivamente de alguma forma.
Nem só de inícios e pontos finais se contam histórias incríveis. Tudo aquilo que está no meio é o que dá volume e significado àquilo que começamos ou estamos prestes a terminar. 2018 começa agora, mas será mais que um primeiro ou último capítulo de algo, será uma continuação daquilo que me permiti ser e que pretendo continuar sendo. Que 2018 seja um ano de constantes transformações e aprendizados, que seja um ano enriquecedor e lindo e que cada oportunidade seja uma chance de crescer como pessoa e como ser vivo.
Em 2018 quero ser tudo aquilo que almejo e tudo aquilo que nunca pensei que fosse capaz de ser. Bring it on!


*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: pinimg.


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12:14 No comments

Tem tanta gente que tem dificuldade em sair de si, procurar lá fora o que lhes falta por dentro. Procurar um brilho diferente nos olhos que as encaram de volta.

Tem tanta gente que procura a si mesmo nos outros, que busca querendo metade, que vai à luta pra se encontrar em alguém.

Tem tanta gente que quer mais de si, mais do mesmo, mais do que já sabe e conhece. Procura um espelho no colo de alguém que nada tem a acrescentar.

Ah, que pena daqueles que não se arriscam, que não se jogam, que não se machucam. Quem quer mais de si deixa escorrer um tanto do outro. Alguém que podia ser mais inteiro que uma metade qualquer. Alguém que vem pra mostrar, não pra refletir.

E, nessa descoberta do outro, a gente entende o que esconde lá dentro, o que escancara de fora. E não tem nada mais gostoso que aprender que ninguém precisa ser metade pra ser o inteiro de alguém.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Foto: bryanadamc. 
11:41 2 comments

Hoje estavam falando de você. Era uma dessas conversas cheias de risadas, lembranças, companheirismo. Escutei seu nome, claro. Perguntaram se eu te conhecia, estavam esperando histórias e recordações. Eles esperaram o que eu iria dizer, acharam que eu iria começar a falar e não iria parar mais. Eu disse que sim, eu te conheci. Não disse mais nada. Nem ousei dizer que ainda te conhecia, deixei claro o verbo no passado.
Acho que fiquei surpresa comigo mesma, normalmente deixo as lembranças falarem por si só. A verdade é que eu não quis demonstrar o quanto você foi importante para mim, não iria dar ao passado o gostinho de trazer aqueles sentimentos de volta. São sentimentos que eu tentei enterrar, sabe?
Mas estaria mentindo se dissesse que não me incomodou todo aquele silêncio. Eu senti orgulho de mim, mas senti saudade. Saudade do de você, saudade de nós, saudade de tudo que aconteceu. Senti saudade de mim, do que eu fui, do que eu era.
Perguntaram o que você era para mim. Normalmente eu teria feito uma piada estúpida, teria uma resposta na ponta da língua. Mas naquele momento eu simplesmente respirei fundo, engoli todas as malditas lembranças e disse: “Só um velho amigo”.
07:07 2 comments


Sabe, não tem nada de errado em não ser igual a todo mundo. Às vezes é difícil olhar para o lado e ver que talvez aquele não seja o seu lugar e que na verdade você não faz ideia de qual é esse lugar. É ruim se sentir sozinho no meio daquele tanto de gente e não poder fazer nada além de desejar que tudo fosse diferente, que você fosse diferente. É estranho estar rodeado de gente e ao mesmo tempo sentir como se não houvesse mais ninguém no mundo além de você. Aquele olhar vazio que preenche as pessoas nunca vai ter aquele brilho que você tanto procura. Entende?
Mas numa dessas divagações de fim de tarde, me lembrei de algo que havia esquecido. Algo que não deveria nunca esquecer.
Não tem nada de errado em não gostar das mesmas músicas que todo mundo gosta. Não tem nada de errado em não saber de cor a letra daquele clássico nacional que todo mundo canta na roda de violão. Não tem nada de errado com seu corpo só porque ele não parece com aquele estampado nas capas de revistas. Seu sorriso não se parece com os sorrisos platinados e iguais do resto, mas não tem nada de errado com ele. Não tem nada de errado com o seu cabelo só porque ele não prende do mesmo jeito que o cabelo daquela menina da escola. Não tem problema você não gostar de maquiagem, assim como não tem problema se você passa o dia se maquiando e aprendendo truques novos. Não tem nada de errado com seus desenhos meio tortos, eles são seus.
Não tem nada de errado com os filmes que você assiste ou com a maneira com a qual você passa os seus finais de semana. Tudo bem você não querer entrar na onda de todo mundo, tudo bem você não tentar seguir um padrão. Não tem problema se só você decidiu não aderir àquele penteado ridículo que todo mundo cismou em usar. Não tem nada de errado com o fato de você não gostar de beber e achar ridículo quem bebe só para conseguir aguentar uma festa, assim como não tem nada de errado se você adora aquela cervejinha no final do dia. Não tem nada de errado com a maneira meio desengonçada com que você pratica esportes, é sincera, honesta. Suas roupas expressam um pouquinho da sua personalidade, não tem nada de errado com elas.
Não tem nada de errado com os livros que você ama, com as citações que você sabe de cor. Não tem problema nenhum se você prefere se enrolar na cama e jogar videogame a noite inteira enquanto os outros vão em festas. Não tem nada de errado com o fato de você escolher ficar em casa, assim como não tem problema você preferir ficar em qualquer outro lugar além da sua casa. Não tem nada de errado com as suas particularidades. Não tem nada de errado com você.
Sinto que às vezes as pessoas se esquecem de que aquilo que nos difere é aquilo que os outros vão lembrar. Sempre me lembrei mais daquela pessoa espontânea, que se expressava da sua própria maneira, do que daquela que fazia de tudo para agradar aos outros. Sempre me apaixonei por excentricidades. O diferente é tão mais bonito...
Aquelas pessoas que não se deixam apagar por causa das outras são tão lindas, tão lindas... Pessoas diferentes nos marcam, nos tocam de maneiras que aquelas xerocadas jamais vão conseguir. Pessoas parecidas a gente encontra em todo canto, pessoas especiais a gente guarda no bolso, nem que esse bolso esteja escondido na memória. Às vezes tentamos tanto esconder aquilo que nos difere, que deixamos passar pessoas que nos amariam justamente porque somos diferentes. Acho que o que eu quero dizer é: não esconda aquilo que te faz... você! Não tem nada de errado em ser diferente. Nada.
Aquilo que é seu, e só seu, será aquilo que vai te iluminar por toda a sua vida. Pessoas diferentes se reconhecem e quando isso acontece... é mágico. Diferente. Sempre me encantei por risadas estrondosas, piadas sem graça, roupas esquisitas, penteados loucos. Não tem nada de errado em não se esconder, em aceitar quem você é e se amar por isso. Não tem nada melhor do que olhar nos olhos de alguém igualmente diferente e ver aquele brilho e saber que a pessoa vê o mesmo em você. Porque vocês não se esconderam. Porque vocês se entendem. Porque vocês são diferentes.
17:16 1 comments

O momento em que você percebe que vai amar uma pessoa parece um daqueles momentos pequenos mas, de alguma forma, extremamente decisivos. Você já está se apaixonando, é delicioso, estranho, novo e incrível.
É como estar se desequilibrando à beira de um precipício e olhar para baixo. Você sabe que vai cair, é inevitável, já fugiu ao seu controle. Mas você olha para baixo mesmo assim e tenta imaginar como será a queda. Você sabe que não consegue, você vai ter que cair para descobrir.
É como tentar se segurar em algo enquanto mergulha em queda livre. É aquele último momento de lucidez antes de se entregar completamente à loucura de se dar à alguém. Você tem medo de estar sozinho nisso tudo, se sente mergulhado em tanta imensidão. Parece que aquele vai ser o fim de alguma parte de si, você sabe que já é tarde demais para voltar atrás. A partir daquele momento você nunca mais vai ser o mesmo. Alguém vai ter um pequeno poder sobre você. E é completamente aterrorizante.
Então os segundos passam e tudo muda. O chão some sob seus pés e o vento acaricia sua pele. Aquele pânico se torna um delicioso frio na barriga e aquele pavor se transforma em uma lembrança, em nada mais que um sorriso amarelo. Você percebe que, mesmo tendo perdido um pouco do controle, o entregou por um motivo. Entregou para alguém. Agora você tem braços que irão te segurar quando cair. E uma vozinha dentro de você sussurra que talvez valha a pena, que é preciso tentar para se arrepender. Ou não.   
Amar alguém é ter aquela certeza de que, por mais apavorante que seja olhar para baixo, a sensação que virá logo em seguida é de arrepiar todos os pelos do corpo. É saber que, no final, a entrega valeu completamente a pena.
14:51 No comments

Tudo o que eu queria era que você olhasse para trás uma vez. Apenas uma vez já seria o suficiente.
Queria que você olhasse para trás e me procurasse no meio de todas as suas memórias e estradas. Que me procurasse no meio dessa imensidão de pessoas que andaram ao seu lado, no meio de todos esses borrões que te esbarram na esquina.
Queria que seus olhos percorressem as ruas das suas memórias ávidos pela lembrança que você tinha de mim. Queria que olhasse para trás, algo maior que uma simples olhadinha por cima do ombro. Queria ser uma espécie de âncora te puxando delicadamente para um passado nem tão distante assim. Queria ser a razão de alguns dos seus devaneios, o motivo para alguns dias serem mais nublados que outros. Queria que você olhasse para trás à minha procura. Que tentasse me achar no meio dessa tormenta sem fim. Queria que seu coração palpitasse um pouquinho mais pesadamente sentindo a minha ausência. Mesmo que minha presença não tenha sido tão forte assim.
Queria que sua mente trabalhasse um pouco como a minha, montando milhões de cenários com medo das cortinas se fecharem cedo demais. Não estou pronta para os aplausos ainda. Você está?
Se seus olhos sinceros me procurassem ligeiramente desnorteados pelo menos um pouco, seria perfeito. Meu bálsamo. Você olha para trás à minha procura da mesma maneira que eu procuro sua sombra encarcerada em meu coração? Sei que não, o destino não nos sorri duas vezes da mesma maneira. Mas ainda assim ouso pensar que sim. De vez em quando. Você já olhou para trás alguma vez nesse meio tempo que a vida decidiu nos pregar essa peça? Pois deveria. Eu sei que eu olho. O tempo todo. Mas mente de poeta faz isso, procura os momentos em que o coração se sentiu livre mesmo estando preso em uma gaiola de ossos. Procura aqueles momentos que lhe renderam emoções únicas, porque são esses sentimentos que derramam palavras nos papéis que alguém como eu segura com pesar.
Eu olho pra trás porque é no passado que me encontro, são aqueles momentos inesquecíveis que fizeram meu coração voar. Tudo o que eu queria era que você olhasse para trás uma vez. Apenas uma vez já seria o suficiente.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest.
11:17 6 comments

Hoje eu acordei com vontade de viajar. Vontade de conhecer lugares incríveis, andar por caminhos indescritíveis e deixar o destino escrever lembranças por toda a minha alma. Acordei querendo colocar toda a minha vontade de viver numa mochila e levá-la como única bagagem. Acordei querendo deixar pra trás tudo aquilo que me faz mal, que corrói a alma e polui a mente, que nefasta o coração. Acordei com vontade de ser livre, de poder ser eu mesma por todo canto.
Acordei com vontade de me perder um pouco em cada canto do mundo e querendo passar o resto da vida tentando juntar meus pedaços espalhados por aí. Essa gaiola da rotina aperta, espreme, sufoca.
Que vontade de conhecer novos sorrisos... De guardar novas risadas, me surpreender com quem ainda não habita a minha mente. Acordei com vontade de ser passageira, com vontade de ser chuva de verão. Daquelas que vem, faz um delicioso estrago e vai embora. Essa vontade de viver vai acabar me matando.
Acordei desesperada para fazer as malas. Para jogar todos os meus sonhos, desejos e ansiedades dentro de uma mala, fechar o zíper e sair arrastando por aí. Não preciso das rodinhas, dou um jeito de carregar esse peso todo nas costas.
Hoje eu acordei com vontade. Com vontade de conhecer o mundo, de explorar cada lugar incrível e inusitado que encontrar pela frente. De tentar conversar com quem não faz a mínima ideia do que estou querendo dizer. De mergulhar em águas turvas de incertezas e cristalinas de memórias. Hoje eu só queria sair por aí, sem rumo e sem medo. Porque às vezes a gente precisa disso, se deparar com uma estrada sem fim, um horizonte de possibilidades bem na sua frente. Perto e longínquo. Assustador e delicioso.
Hoje eu acordei com vontade de viajar. Viajar por lugares, por caminhos, por pessoas, por sonhos. Por estradas. Acordei querendo voar um pouquinho, um bater de asas bem intrépido. Libertador. Acordei com vontade de ser alguém, de ser eu mesma, de ser. Só de ser. Hoje acordei com desejo de possibilidade, de alternativa.
Hoje eu acordei com vontade de poder ser.

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13:11 12 comments

            Olhar para os números que marcam o passar dos meses sempre lhe trazia um sorriso travesso aos lábios. Ela conta as estações pelos amores que encontra no caminho. Ou quase amores. Nada banal, ela não aceita banalidades. Ama gestos simples desde que não sejam simplicidades.
Cada passar dos dias é uma promessa de uma nova chance. Quem sabe vai ser dessa vez?, sussurra o destino em seu ouvido. Nunca é, mas ele adora tentá-la. Ela se encanta fácil, encontra vários deliciosos desvios pelo caminho. Nada forte o suficiente para prendê-la. Infelizmente?
A magia das estações parece um constante recomeço. Colorido, novo, diferente. Ela quer sempre um pouco mais. Quem é preto e branco sabe dar valor a uma pincelada de cor. Procura um romance em cada passar de páginas do calendário que sempre leva consigo. Procura uma história diferente para cada verão de seu ano. Por que não? Um amor de verão em todas as estações.
No verão conheceu um daqueles machões, aquele que já conheceu todo tipo de mulher e faz questão de continuar conhecendo. Ele era garanhão, quente, intimidante, conquistador. No outono conheceu um daqueles proibidos, sua história favorita na sua estação favorita. Ele era tudo o que ela não esperava no momento que mais precisava. Misterioso, lindo, apaixonante, inexplicável. Finito. No inverno conheceu o mais charmoso de todos. Resolvido, de tirar o fôlego, sorriso perfeito e jeitão de menino. E, assim como as flores voltam a desabrochar na primavera, um brilho de esperança voltou a se acender. Ela conheceu um daqueles gentis, engraçados, com aquele olhar tenro e carinhoso. Para mostrar que talvez existisse esperança, afinal.
Mas, assim como um pássaro sempre sabe para onde migrar, ela sabe voltar para seu caminho. É a única coisa que sabe com certeza. Seu caminho meio incerto, meio tortuoso, meio cinza, meio ela. Seu caminho.
Define as estações pelos romances que quer viver, pelos sorrisos que lhe conquistam, pelas palavras que brincam em sua língua quando vê uma nova oportunidade. Ela quer ser feliz.
As pessoas tentam se encontrar, ela adora tentar se perder. Se perde para esperar que alguém a encontre. Se perde e se procura em cada sorriso torto que parece conter a resposta para aquilo que procura. Para aquilo que ela sequer sabe o que é.
Enquanto isso, risca os dias, se abana, guarda uma folha, se aquece, colhe as flores. Esperando pelo dia em que irá conhecer alguém que a faça mudar de ideia. Porque, no fundo, tudo o que ela não precisa é ficar sozinha. Porque ela não quer ficar. Alguém que lhe mostre que sua própria companhia não é a melhor de todas, afinal. Alguém que a faça se sentir como se não estivesse melhor solitária. Alguém que não apareça de forma diferente em cada mudança de ares.
Alguém que seja todas as estações em uma só.

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E, como uma tola, ela escrevia textos pra ele, para aquele que simplesmente não se importava, para o fantasma de um tempo que há muito ficou no passado. Enquanto ele seguia com a sua vida, ela se via estagnada num eterno pretérito bem mais que imperfeito. Ele remava em águas rasas, sentindo o vento acariciar-lhe a face e soprar seus cabelos. Ela tentava não se afogar na tormenta de mares desconhecidos, tentava não naufragar em si mesma. Sem olhar pra trás, ele era feliz, sempre com aquele maldito lema de "viver o momento". Enquanto ela tentava entender porque logo ele tinha sido a pessoa a fazê-la sentir algo diferente, ele vivia a melhor fase de sua vida. Ele a fez se sentir viva, mas agora quem vivia era ele.
Enquanto ela se via pensando naqueles dias o tempo inteiro, ele sequer se lembrava daquela mulher independente e sonhadora. Ela era a outra.
Enquanto ela se preocupava em tentar extravasar tantos pensamentos, ele pensava em tudo menos na mulher que marcou. Ela, que sempre foi livre, tentava não enlouquecer dentro daquela gaiola de lembranças e saudades. Enquanto ela se via sendo puxada pra baixo, tinha que assisti-lo subir cada vez mais e não havia nada que pudesse fazer para acompanhá-lo.
Doía ser aquela que ficou para trás. Sentia o gosto amargo em sua língua e jurava que ainda podia ouvir o deboche em sua memória. Ela não merecia aquilo, sabia que não. Enquanto escrevia a carta de despedida de um amor de verão, tentava enganar a si mesma, jurava que aquilo não havia significado nada. Mas sabia que era mentira. “Você me devolveu”, ela pensou com um sorriso de partir o coração. As lembranças daqueles dias eram boas demais.
Ele havia lhe devolvido o ar, havia feito brilhar uma luz que ela nem sabia que existia. E aquele brilho era encantador, simplesmente apaixonante. Mas no processo, ele havia levado um pedaço dela, e ela não fazia a menor ideia de como seguir em frente. 

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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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