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Nostalgia Cinza


“Que droga”, ele pensou enquanto passava o pedido para o computador. Geralmente não se importava em passar as noites trabalhando, mas aquele era o último lugar em que gostaria de estar naquela noite em especial.
– Troca de seção comigo? – Uma das garçonetes limpava as mãos no avental preto que cobria seu colo. Seu tom de voz era gentil, mas seu olhar parecia refletir um ânimo tão bom quanto o dele.
– Tanto faz – ele respondeu com um suspiro.
– Valeu – ela sorriu e se moveu para tocar na tela do computador e digitar alguma coisa também.
Ele guardou no avental o aparelho digital que usava para anotar os pedidos e se dirigiu até sua nova seção.
Aquela seria uma longa noite.
Sempre gostou de saber que tinha um trabalho que ajudava um pouco nas despesas. Era jovem, não precisava se preocupar tanto com algum salário alto e, até o momento, não tinha muitas pretensões. Normalmente o restaurante ficava mais agitado, era o point preferido de metade da cidade. Pensava que teria distrações o suficiente para conseguir fazer o tempo passar rápido, mas pelo visto não seria bem assim.
O restaurante estava cheio de famílias com crianças e, aparentemente, todos os casais da região decidiram marcar encontros ali e naquela noite. Enquanto ele precisava sorrir amigavelmente e prestar atenção para cada mísero detalhe dos pedidos para que não recebesse reclamações de pais aborrecidos, todos os seus amigos assistiam à final do campeonato se embebedando na casa de alguém. Não que ele fosse a favor de ficar bêbado, não era muito a sua praia, mas realmente preferia ficar com seus amigos a servir comida para estranhos.
Passou a hora seguinte dando o seu melhor para esconder seu humor e conseguir o maior número de gorjetas generosas que conseguisse. Ninguém tinha nada a ver com seus problemas, ele pensava, o mínimo que poderia fazer era sorrir e ser extremamente educado com quem atendia.
Após registrar mais alguns pedidos no computador, se dirigiu até uma mesa para atender um casal que parecia estar comemorando alguma coisa. Bom, ele pensou, esses aí estão no clima, talvez estejam no clima para me dar mais que 10% também.
– Boa noite – ele se apresentou. – Vou atender vocês hoje. Já conhecem a... casa?
Ele se atrapalhou um pouco com as palavras quando olhou por cima da mesa e seu olhar parou na pessoa que entrava no restaurante.
O curto vestido azul balançava de forma provocante conforme a mulher andava atrás de uma das garçonetes. Não conseguia ver seu rosto, seus longos cabelos claros escondiam suas feições enquanto ela se focava na tela do celular que tinha em mãos. Carregava uma pequena bolsa branca que quase caía de seu ombro enquanto ela andava. Passou a alguns metros de onde ele estava e não pôde evitar acompanhar o balanço de seus quadris à medida que ela era acomodada em uma mesa ao fundo. Tinha pernas incríveis, tinha que admitir. Quando ela se sentou e ergueu o rosto para agradecer à sua colega de trabalho, ele podia jurar que seu coração bateu um pouquinho mais rápido. Ela era muito linda.
O homem à sua frente pigarreou tirando sua atenção da recém-chegada. Percebeu que ficou em silêncio por alguns longos instantes. Balançou a cabeça e se desculpou pela interrupção antes de continuar a conversar com o casal.
Ela havia sido colocada na seção que deveria cobrir naquela noite. Mas ele havia trocado. Droga.
Terminou de anotar os pedidos do casal e se apressou para serví-los antes de procurar a garçonete que havia trocado com ele. Ela tinha acabado de colocar um suco em cima da mesa da mulher, disse alguma coisa que a faz gargalhar. Deus, até a risada dela era bonita. Ele bufou com aquele pensamento ridículo e esperou impacientemente que sua colega de trabalho fosse em sua direção.
– Qual a chance de você trocar de volta comigo?
Ela ergueu as sobrancelhas surpresa.
– Nenhuma, desculpa. Por que?
Ele não respondeu de imediato, estava preocupado demais observando a jovem e pensando em como se aproximaria dela. Será que tinha a mesma idade que ele? Parecia um pouco mais nova.
A garçonete olhou por cima do ombro e riu quando acompanhou o olhar dele.
– Ah, entendi. – ela cruzou os braços em divertimento. – Desculpa, mas já consegui a mesa que queria – Ela apontou para uma mesa há alguns metros de distância. Um grupo de cinco universitários havia acabado do ocupar aquele lugar e já parecia estar na segunda rodada. Percebeu com certo desgosto que um deles olhava para a mulher que ele mesmo admirava com fogo nos olhos.
– Merda – ele murmurou. – Valeu.

Passou os minutos seguintes servindo as mesas que fora designado para atender enquanto observava atentamente aquela mulher. Parecia que cada vez que olhava ela ficava mais bonita e ele não fazia ideia de como aquilo era possível. Ela parecia olhar para seu delicado relógio de pulso o tempo inteiro e mexia inquieta em seu celular. Droga, talvez estivesse esperando alguém. Ela ainda não havia pedido nada para comer e seu suco estava quase intocado. Ele se viu rezando para que não fosse nenhum namorado.
Qualquer um que deixasse uma mulher daquelas esperando tanto tempo sozinha num restaurante não podia ser nada menos que um completo idiota, pensou.
Foi chamado em uma das mesas e se apresentou prontamente. Quando terminou de passar a conta da família que atendera quase tropeçou quando procurou a mulher e encontrou um par de olhos claros o encarando de volta. Ele não fazia ideia de quanto tempo passaram se olhando daquele jeito, mas ela foi a primeira a cortar o contato visual ao olhar para baixo constrangida. Debaixo daquela luz pôde perceber que seu rosto estava corado.
Ele não conseguiu esconder o sorriso que se formou em seus lábios. Aquela era a sua chance.
Mal havia começado a caminhar em sua direção quando um casal mais velho se aproximou da mesma mesa na qual ele quase corria para chegar. Eles pareciam ricos e muito educados, o terno do senhor com certeza custara mais do que ele ganharia naquele ano inteiro. A jovem se levantou rapidamente e abraçou com carinho primeiro a mulher, depois o homem. Ele reprimiu um palavrão. Ótimo, como diabos ele poderia ir até lá e conversar com ela na frente do que pareciam ser seus pais?
Esperou que ela se virasse e olhasse para ele, mas foi em vão. Era quase como se ela estivesse fazendo força para não procurá-lo. Ele suspirou resignado. Aquela noite só melhorava.
Voltou ao serviço e até que estava feliz com as gorjetas. Aparentemente conseguia esconder seu humor melhor do que ele pensava.

Sempre que procurava pela jovem encontrava seus olhos fixos nos pais ou na comida. Talvez não estivesse mesmo interessada, talvez ela só o olhara com medo da forma como ele a observada atentamente. Ou talvez só fosse tímida, ele pensou sem conseguir evitar que seu peito se enchesse de esperança.
– Idiota – murmurou para si mesmo enquanto fechava mais algumas contas no computador.
Quando se virou para observá-la como vinha fazendo a noite toda, se surpreendeu ao encontrar a mesa vazia. Correu os olhos pelo restaurante e até mesmo para a porta dos banheiros, mas nem sinal dela. Passou uma mão pelo cabelo tentando se recompor momentaneamente.
– Ei, bonitão – A mesma garçonete chamou. Ele suspirou e se virou para encará-la.
– O que?
– Mandaram te entregar isso aqui – ela mordeu os lábios sorrindo de forma brincalhona e lhe entregou um pedaço de papel.
Com a testa franzida ele desdobrou o papel e, um tanto quanto atordoado, encontrou um nome e um número de telefone rabiscados ali. Ergueu os olhos e procurou novamente até que encontrou uma figura em pé na porta do restaurante.
A mesma mulher que o distraíra a noite inteira segurava a bolsa no ombro com uma mão enquanto o observava atentamente. Quando seus olhares se encontraram ela sorriu de uma forma que ele com certeza não esqueceria tão cedo e acenou timidamente com a outra mão antes de sair do restaurante.
Ele deixou que um sorriso idiota se formasse em seus lábios antes de balançar a cabeça. Pegou um pano que pendia em seu ombro e limpou uma das mesas enquanto ria satisfeito.

Aquela noite não tinha sido tão ruim assim, afinal. Nem um pouco.

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente. Fonte: Pinterest.
08:26 2 comments

            O inverno daquele ano havia chegado de forma rigorosa. A lua cumpria seu papel e prateava aquela noite assustadoramente negra. Pequenos pontinhos brancos caíam do céu e se encaixavam em tudo o que estivesse ao seu alcance pintando a paisagem. A temperatura parecia cair cada vez mais. O asfalto estava coberto de gelo e as casas mal podiam ser vistas por baixo do grosso manto de neve.
            Ele estava no seu lugar de sempre, escolhido entre jornais, papelão e alguns trapos que um dia foram considerados cobertores. Há algumas semanas havia encontrado esse shopping center a céu aberto e tomou pra si um beco coberto entre duas lojas; uma de ferramentas, outra de cosméticos. Todo dia prometia a si mesmo que encontraria outro lugar, mas parecia que o inverno não perdoava e cada vez que a noite chegava perdia a coragem de sair dali. Já havia desistido de encontrar um abrigo que o aceitasse, nessa época do ano não havia mais nem uma única cama disponível e as filas para uma noite também estavam longe de serem animadoras. Aquele era seu canto no mundo, feio, precário e esquecido, mas ainda assim era seu canto.
            Ajeitou seus trapos e se encolheu quando viu os flocos de neve caindo do céu. Seria mais uma noite daquelas, pensou. Não era muito tarde ainda, mas o fluxo de pessoas que estavam passeando ali estava surpreendente. Podia ouvir risadas e trechos de conversas banais.
            As pessoas que passavam por ele apressavam o passo com medo e desconfiança, mas não as julgava, também sentiria um certo desconforto se não fosse ele naquela situação. Não se sentiu incomodado, só queria um lugar para descansar um pouco e não pensar no que faria no dia seguinte. Assim que se sentiu razoavelmente confortável, seu estômago roncou alto e ele se permitiu murmurar uma reclamação alta.
            Uma mulher muito bem vestida e devidamente agasalhada passou por ele e, assim como os outros, andou mais rápido. Nem se deu ao trabalho de prestar atenção em suas feições, as pessoas eram como sombras que passavam por ele. Como se nunca pudesse tocá-las, tampouco pertencer ao mesmo mundo que elas.
Tentando esquecer o frio e a fome, se obrigou a dormir um pouco, talvez quando abrisse os olhos estaria tudo um pouco menos pior. Como não podia contar com a chegada da primavera tão cedo, tinha a esperança de que quando abrisse os olhos seria acordado com a luz do sol aquecendo sua pele e driblando um pouco o inverno.
            Algum tempo depois foi acordado com o barulho de passos desajeitados. Droga, ainda não era dia, pensou com desprezo. Ergueu o rosto buscando o ruído e tentou distinguir com olhos cansados os contornos da pessoa que andava em sua direção. Reconheceu a mulher que havia passado por ele por causa de suas roupas escuras que pareciam ser muito quentes e confortáveis, lembrava de ter pensado. Ela carregava várias sacolas nos braços enquanto tentava se equilibrar nos saltos que definitivamente pareciam caros. Por alguns segundos considerou a hipótese de ajudá-la, mas teria que sair de seu canto e temia que ela fosse gritar ou agredi-lo se chegasse perto demais. Estava enganado.
Chegando perto dele, a mulher se agachou e, apesar do frio congelante, deu um sorriso capaz de aquecê-lo de dentro para fora. Ela tinha um sorriso bonito, pensou.
– Boa noite, senhor, desculpe incomodá-lo. Não é muito, mas espero que seja do seu agrado. A noite de hoje está castigando de verdade. – Com isso ela se levantou, sorriu novamente e se afastou, dessa vez andando de maneira mais segura.
Ele abriu as sacolas e arfou surpreso. Não pôde deixar de olhar em volta para ver se havia algo errado. Ela havia lhe dado dois novos e espessos cobertores, várias meias que pareciam bem resistentes, um casaco preto bem grosso, luvas de couro e dois gorros. Ao abrir as outras sacolas quase queimou a mão com as embalagens quentes de sopa e café.
Não esperou nem um segundo para atacar o primeiro pote de sopa, nem se importou em queimar os lábios. Encontrou na sacola de comida algumas fatias de pão e quase gemeu de satisfação. Estava louco para vestir o novo casaco e se encolher nos cobertores, mas o frio teria que esperar, aquilo estava bom demais. Depois de se esbanjar com a comida e se deliciar com o café, arrumou seu canto da melhor maneira possível e se sentiu satisfeito ao deitar. Não se sentia assim há muito tempo.
Os flocos de neve continuavam caindo e ele deixou sua mente vagar pelo inverno. Que engraçado, ele pensou. “Não é muito”, ela havia dito, mas para ele ela havia dado tudo.


Escrevi esse conto para uma prova da faculdade e decidi postar aqui. O que achou? Gostou do conto? Já escreveu algum parecido? Não deixe de comentar!
18:17 No comments
O cheiro de biscoitos e comida no forno aqueciam a cozinha e sua ansiedade. Ela pulava nas almofadas e o banco rangia, só faltava escalar a mesa para o desespero de sua mãe e de sua avó. Ela olhava para fora da janela tentando enxergar algo na escuridão através dos grossos flocos de neve.
A cozinha ainda estava relativamente vazia. Sua mãe ajudava sua avó a terminar de preparar a grande ceia da noite, seu pai zanzava pela casa observando tudo e seu avô sentava imponente na cabeceira da mesa. Logo a casa estaria cheia e barulhenta; ela mal podia esperar.
Seu avô, percebendo a ansiedade da pequena, tentou distraí-la. Esticou seu único braço e pegou três nozes com sua mão. Sua mão era grande e seus dedos grossos e fortes, não demorou muito para capturar a atenção da neta. Em questão de segundos um estalo forte preencheu o relativo silêncio da cozinha e ela viu estupefata as três nozes rachadas e abertas na mão do velho. Correu com suas perninhas pelo banco até chegar ao avô e pediu, como só crianças sabem, para que ele repetisse o ato de novo e de novo. Tentou fazer o mesmo mas nem com as duas mãos conseguia fazer força. Pronto, ela estava distraída.
A neve caía grossa e constante do lado de fora. Aquele seria um inverno longo e rigoroso. Com certeza a autobahn estaria arisca nos dias seguintes, mas ela sabia que muita neve significava muitos bonecos de neve e vizinhos construindo iglus em que ela poderia entrar para brincar.
– Acho que ele chegou – Ela ouviu sua avó dizer em alemão. 
A menina saltitou no banco derrubando algumas almofadas e correu até a janela. Faróis altos e grandes se aproximaram o enorme celeiro e o som grave do caminhão cessou. Ela não conseguiu enxergar muito naquele breu, mas alguns instantes depois viu um vulto se aproximando da porta. Ela deu um gritinho infatil e pulou do banco correndo em direção à porta da cozinha. Pôde ouvir os sons das botas pesadas sendo tiradas e deixadas de lado e de todos os casacos de inverno sendo pendurados.
Quando seu tio abriu a porta da cozinha, ele só teve tempo de cumprimentar os outros com sua voz grossa antes que a menina puxasse a barra de sua camisa tentando conduzí-lo até a sala. Seu pai riu e foi atrás dos pequenos cabelos loiros saltitantes. Sua avó pegou o telefone e, logo após encerrar a ligação, empurrou a cadeira de rodas do avô até a sala do carpete verde.
Alguns minutos depois outro tio chegou e finalmente a menina pôde comemorar e ficar plenamente feliz. Um pinheiro gigantesco aos seus olhos estava esperando por eles na sala. Seus galhos finos abraçavam o tronco que ia até o teto, era uma imensidão. Seu tio mais alto pegou a menina e colocou-a sobre os ombos. Era hora de montar a árvore.
Durante as horas seguintes, os três homens e a garotinha enfeitaram o pinheiro sob a supervisão do avô. Foi preciso uma escada bem alta e muitas e muitas caixas de enfeite para vestir o pinheiro. O verde e o marrom que antes predominavam, ficaram mais esbeltos com os enfeites de todas as cores que ela podia imaginar e ficaram mais felizes por causa dos fios intermináveis que faziam os galhos piscarem cheios de cor. Para ela, nunca era o suficiente, a árvore precisava estar mais decorada e colorida, tinha que ser a mais bonita de todas para agradar o velhinho de vermelho que chegaria mais tarde naquela noite.
Mesmo depois de ter colocado todos os enfeites empoeirados, ela ainda podia sentir o cheiro inigualável do pinheiro vivo. E o cheiro de comida que vinha da cozinha só melhorava. Ela não percebeu durante o tempo que passou ali, mas agora a casa já estava enchendo e alguns espectadores haviam se reunido na sala para observar a árvore sendo enfeitada.
            Quando o trabalho por fim estava feito, todos voltaram para a cozinha para beber e começar a comer; menos ela. A garotinha ficou parada por um tempo admirando o pinheiro várias vezes maior que ela. Ele brilhava e piscava e era simplesmente maravilhoso. Para a pequena, ele era a coisa mais linda que ela já tinha visto.
            O som das conversas e risadas na cozinha ficou mais alto, mas ela ainda demorou um tempinho para voltar pra lá. Sentou no carpete e, debaixo da árvore, ficou pensando que seria ali que seus presentes logo estariam. Ela mal podia esperar. Olhou para a lareira e viu satisfeita que as meias também estavam devidamente posicionadas na parede. Tudo estava perfeito.
Ouviu as vozes de seus primos e saltitou para a cozinha sem olhar para trás. O cheiro de comida pronta e servida também foi um belo atrativo. Sentou-se junto às outras crianças em meio ao mundo de brinquedos no chão da cozinha e esqueceu-se da árvore; agora tinha outras prioridades.

Na sala do carpete verde o majestoso pinheiro ecoava os sons vindos da cozinha. Suas luzes e enfeites iluminavam o cômodo enquanto alguns flocos de neve caíam e tentavam se agarrar ao vidro da janela para admirar as cores e beleza daquele lugar e daquela véspera de Natal.

Essa é a minha lembrança de um dos meus Natais com a minha família, você tem alguma marcante também? Me conta! 

Desejo a todos um feliz Natal, que aonde quer que você passe, que passe com pessoas que você ama e que te amam também. Desejo uma noite muito aconchegante e colorida. Feliz Natal <3

13:37 3 comments
Sobre o eterno “e se” e quase lembranças.




Ela estava sentada numa cadeira alta de bar feliz por ter escolhido seus coturnos ao invés de um salto alto. Ela adorava aquele lugar; ótima comida e rock estourando nas caixas de som, do jeito que ela gostava. 
            Enquanto ela ouvia as conversas banais de seus amigos, sentiu sua presença. Foi algo fraco, quase insignificante, mas fez com que sua cabeça virasse em sua direção. Não conseguiu ver o resto do homem direito e logo se esqueceu de sua presença.
            À medida que o show começava, ela foi com seus amigos até perto do palco, e assim que passou pelas mesas de bilhar, aquela presença fez com que sua cabeça virasse de novo. Lá estava ele, quase solitário, dedicando sua atenção à mesa à sua frente. Agora ela podia vê-lo claramente.
            Ela era um homem de verdade, ela pensou, macho. Usava calças jeans escuras e uma camisa azul escura de mangas compridas. Todos os seus músculos estavam visíveis na medida certa. Ele segurava o taco de bilhar deixando seus bíceps à mostra. A maneira como ele pegou uma garrafa de cerveja e tomou um gole foi como um afrodisíaco para ela. Ele tinha uma barba mal feita que fez com que ela pensasse em todos os lugares perfeitos para raspá-la contra sua pele. Seu cabelo era comprido, o que normalmente não faria o tipo dela, mas não importava. Naquele momento, ele a atraía de uma maneira inexplicável, em todos os sentidos.
            A partir daquele momento, ela praticamente não conseguiu tirar os olhos dele. Durante o show, ela o procurava com o olhar, precisava olhar para ele por alguns instantes antes de deixar sua atenção voltar para a música que vinha do palco. Queria ter a certeza de que aquelas feições másculas ainda estavam focadas no jogo ou na banda que tocava. Queria ver onde seus olhos estavam se focando, se estavam claros naquela luz.
            Por quase duas horas ela o observou indo para a frente do palco quando alguma música que ele gostava estava tocando e depois voltando para seu jogo. Ela podia ver seus lábios se moverem para acompanhar a letra das músicas. Ele sabia todas, por sinal. Por nenhum momento seus olhos se cruzaram, a atração permanecia sempre platônica.
            Quando o show terminou, ela não o encontrou. Puxou sua amiga pelo braço insistindo em dar uma volta no lugar. Em vão; ele não estava em lugar nenhum, não estava à vista.
            Sentindo-se frustrada, juntou-se aos seus amigos na fila do caixa. Algum tempo depois, ela viu com o canto do olho quando ele saiu do banheiro. Ele caminhou até onde ela estava ainda sem cruzar com seu olhar. De um instante para o outro, isso mudou.
            Ele olhou para ela e foi como se faíscas começassem a surgir entre os dois. A tensão no ar era praticamente palpável. A troca de olhares foi tão intensa que ela chegou a pensar que era impossível que ele não estivesse sentindo aquilo também. Mesmo enquanto andava, ele sustentou seu olhar até o fim. Ela podia quase sentir o cheiro da testosterona exalando dos poros dele. Apenas quando ele se virou ela conseguiu respirar normalmente de novo. Jurou que seu coração abriria um buraco em seu peito.
            Esperou alguns minutos e pôde vê-lo falando com um amigo enquanto sorria e apontava em sua direção. Sentiu seu corpo inteiro se aquecendo de expectativa.
            Sentiu seu olhar sobre ela e não pôde deixar de sorrir. Pagou sua consumação no caixa e quando se virou para procurá-lo, ele já não estava mais lá. Procurou com os olhos, mas não conseguiu encontrá-lo. Seus amigos a chamaram e, após olhar uma última vez para o interior do pub, seguiu frustrada o pequeno grupo.

            Quando estava chegando à escada que conduzia para a saída, sentiu uma mão grande e forte segurando seu braço. Virou-se prestes a empurrar o imbecil quando seu olhar encontrou o dele.
            Por um instante ela se esqueceu de como respirar. Os olhos dele estavam negros naquela luz e ela sentiu arrepios tomando conta de sua pele. Ele entrelaçou suas mãos e a puxou para dentro do pub novamente. Foi até um canto e a prendeu entre a parede e seu corpo másculo.
            Ela queria sorrir porque era assim que se sentia, mas o calor do corpo dele era embriagante demais. Ele tinha cheiro de carvalho, cravo e homem.
            Ele segurou sua cintura apertando de uma maneira deliciosa e bruta. Não foi ele quem tomou a iniciativa, mas colocou uma mão em sua nuca puxando-a um pouco para si. Foi ela quem passou os braços ao redor do pescoço dele e se inclinou selando seus lábios.
            Ela agradeceu mentalmente por ter os braços dele e a parede para sustentá-la porque não confiava mais em suas pernas. Quando ele colou seu corpo no dela, ela gemeu e pôde sentir o sorriso dele em seus lábios. Seus ombros eram largos e seu peitoral era forte, aconchegante.
            Ela pôde sentir o gosto de cerveja em sua língua e se lembrou dele jogando bilhar. Ele se afastou apenas o suficiente para que ambos pudessem respirar por um instante. Deixando seu lado bruto de lado, ele brincou um pouco com o cabelo dela e riu. Sua risada rouca fez a pele dela arrepiar. Ao mesmo tempo em que ele era bruto, ele sabia ser gentil. Era um contraste novo e incrível.
            Ela encostou a testa na dele quando ele puxou-a para si novamente. Quando seus lábios se encontraram de novo e seus corpos se colaram numa fome de calor, ela pensou em como aquilo era fantástico, em como aquele belo estranho era incrível contra seu corpo e como aquilo ainda podia melhorar muito mais.
            Suas mãos firmes percorriam as coxas dela e subiam até a curva de seus seios. Ela já não se contentava mais em apenas sentir suas costas quentes e musculosas por baixo da camisa. Agora ela colava suas mãos no peito dele do mesmo modo que a camisa azul havia feito pouco antes.
            Naquele momento, não estavam no meio de uma multidão, se agarrando contra a parede de um pub de rock qualquer.
            Quando se afastavam pelo mínimo de tempo possível, sentia o peitoral dele encostando nela à medida que ele ofegava. Quando a boca dele tomava a sua e sua língua explorava a boca dela possessivamente, ela podia jurar que derreteria ali mesmo. E quando a boca dele desceu até o seu pescoço, sorriu pensando em onde aquilo iria parar.
            Ela sentiu quando ele apertou seu quadril, sentiu quando ele puxou seu cabelo e quando ele a empurrou ainda mais contra a parede. Ela sentiu tudo. E não estava perto de ser o suficiente.

            Olhando mais uma vez ao redor do pub e ouvindo as batidas pesadas da música, ela colocou a jaqueta e desceu as escadas até a porta de saída. O vento gelado a atingiu assim que ela colocou os pés na rua. Cruzou os braços abraçando a si mesma tentando se aquecer pelo menos um pouco. A realidade foi como um punho de ferro gélido.
            Ela olhou para a porta do pub mais uma vez, observando as luzes piscando e os vultos que circulavam lá dentro. Uma corrente de ar jogou alguns fios de cabelo em seu rosto e ela nem se incomodou com aquilo. Esperou alguém sair por aquela porta. Alguém.
            – Ei! – Uma amiga a chamou quando o táxi parou na rua.
            Olhando uma última vez por cima do ombro, ela sentiu seu coração, antes acelerado e inquieto, se acalmando e, pesadamente, voltando ao seu batimento regular. Agora o frio da noite percorria e tomava conta de todo seu corpo, inclusive de seu coração.
            Fechou o zíper de sua jaqueta e com um suspiro obrigou seus pés a caminharem até o táxi que a aguardava. Sem olhar mais nenhuma vez para a entrada do pub, ela entrou no carro e se lembrou das feições másculas do homem.
            À medida que o carro dava partida e se distanciava do lugar, ela olhou pela janela e pensou em como às vezes o famoso “e se” pode ser delicioso e amargo. Sabia que não iria se esquecer daquele rosto por um bom tempo, por mais que tentasse.
Vez ou outra ela encontrava alguém diferente, alguém que capturasse seu olhar por mais de alguns segundos. Alguém com um caminhar diferente, com um olhar mais intenso, com um jeito mais profundo. De vez em quando ela encontrava um ou outro capaz de esquentar seu coração frio e revirar seu estômago sempre tranquilo. Constantemente ela levava consigo memórias daquilo que poderia ter sido e não foi.
Por mais que ela se revoltasse, se indignasse e se chateasse, algumas coisas não acontecem, algumas lembranças não se formam e o jeito é aceitar que aquilo que está simplesmente fora de seu alcance. Ela teria que sorrir e guardar consigo uma quase lembrança e torcer para não demorar a encontrar um novo belo estranho numa noite qualquer. 
17:13 2 comments


Alguns dias são mais difíceis que outros, ela pensou enquanto se trancava no banheiro para fugir dos murmúrios.
Aquilo não era novidade, estava começando a fazer parte da rotina. Era um cotidiano bem nostálgico para dizer a verdade. Ela sabia muito bem que havia pessoas que naquele momento estavam bem piores do que ela. Muitos estavam famintos, machucados, morrendo. Ela tinha consciência de que o inferno de verdade não era nada parecido com aquilo que ela vivia. Mas para ela, aquele era seu inferno particular.
Mesmo com a porta fechada e devidamente trancada, o som de vozes abafadas passava por entre as frestas e chegava até ela. Palavras indecifráveis, mas ainda assim pesadas e maculadas. Antes de entrar no banheiro, ela pôde sentir o cheiro do álcool e das cinzas dos cigarros. Um cheiro familiar, mas que ainda lhe causava náuseas.
O que acontecia na sala estava fora de seu alcance. Pelo menos era isso que ela queria acreditar. As pequenas grandes discussões corriqueiras eram algo que ela evitava a todo custo fazer parte. De um lado, o pai desfrutando dos efeitos da bebida e dos pensamentos intensos acumulados. Do outro, a mãe com as mágoas e frustrações sempre contidas.
Sentada com as costas na porta do banheiro ela se perguntava por que isso era tão comum quando não deveria ser. As pessoas não deveriam fazer as outras se sentirem um lixo, principalmente aquelas que juramos amar até que a morte interfira.
É incrível como alguns goles são capazes de transformar uma pessoa. De onde vieram todas essas palavras duras? De onde veio essa face raivosa e cheia de ressentimentos? Por que para ele tudo estava errado e todos não eram o suficiente? Por que para ela se tornou mais fácil ficar calada e esperar todos os desabafos acabarem rápido? Não deveria ser assim. Então por que era?
Ligando o chuveiro, ela não conseguia parar de se perguntar de quem era a culpa de verdade. Do pai, por não medir as palavras e não olhar para os defeitos que ele próprio carregava? Ou da mãe, por abaixar a cabeça e segurar todo aquele amor sem fronteiras na esperança de que ele lhe desse força? Ou quem sabe, era ela mesma a culpada por não ser o suficiente para apagar toda e qualquer derrota do passado?
Enquanto a água quente caía sobre sua pele, ela pedia para que algum dia aquilo tudo acabasse. Ela estava cansada de semana após semana ter que ouvir discussões sem base e carregadas de apelos vãos. Aonde tudo aquilo poderia chegar? Ela não queria mais ter que passar horas procurando defeitos em si mesma que justificassem toda aquela confusão que sua casa havia se tornado. Será que era ela a responsável por tudo aquilo? Será que foi ela quem não correspondeu às expectativas e agora eles sofriam com aquilo? Ou será que ela não tinha responsabilidade nenhuma naquela confusão e só podia observar enquanto tudo começava a desmoronar? Honestamente, não sabia o que era pior. Ser protagonista ou espectadora. Ela só queria alguns bons momentos em família. Momentos alegres, cheios de risadas e sorrisos e puro amor. Ela não queria mais o álcool envolvido. Em nada.
Ela detestava aquela substância maldita. Chegara ao ponto de fugir de todos que diziam amá-la. Ela cresceu com um trauma e sabia que ele nunca deixaria seus pensamentos. Era triste. Sim, era.
Sentou no chão frio e deixou que a água caísse em seu corpo e escorresse por sua pele. Talvez a água quente fosse capaz de lavar aqueles sentimentos gélidos.
O lado bom era que a violência física nunca havia acontecido. Nunca acontecia. Ainda bem.
Mas, ela suspirou, o poder das palavras é algo que sempre a surpreendeu. Ainda mais ditas por quem sabe como dizê-las.
Um homem forte usa os punhos. Um homem inteligente usa a voz. Dê a um guerreiro uma arma e ele saberá exatamente o que fazer com ela. Dê a um general a oportunidade e ele comandará todos os guerreiros que puderem ouvi-lo. Quem luta, fere. Quem fala, marca. Ela aprendeu aquilo e era algo que nunca mais esqueceria.
Às vezes simples palavras mudam tudo. Um soco não é para sempre. Os hematomas perdem a cor e a sensibilidade eventualmente vai embora. Palavras não. O poder do vento que traz os sons daqueles que não pensaram antes de soltar suas próprias verdades é imensurável. Quem pensa mais, sempre terá uma vantagem sobre aquele que age mais. É uma verdade injusta, mas ainda assim é uma verdade. Ela saberia se curar de um soco, não de um grito.
O medo de não ser o suficiente sempre pairava sobre ela. Não havia nada que pudesse fazer para conter as insatisfações e os lamentos. Ela não podia fazer nada naquele momento e duvidava que pudesse fazer algo algum dia. Simplesmente era assim. Ele dizia que aquilo não era um problema. Como aquilo poderia não ser um problema?
Desligou o chuveiro e sentiu a corrente de ar arrepiar os pelos de seu corpo. Apropriado.
Quando começou a se enrolar na toalha, sentiu as familiares lágrimas rolarem por suas bochechas. Ela quase não percebia mais quando isso acontecia. Ela quase recebeu as lágrimas com um sorriso camarada. Quase.
As vozes abafadas haviam cessado. Uma porta havia sido fechada com desgosto. Naquele momento apenas a televisão preenchia o silêncio ensurdecedor de sua casa. Era sufocante.
Enquanto sua mãe fazia um sudoku na varanda e bebericava seu copo de vinho e seu pai apagava no quarto, ela chorava olhando para seu reflexo no espelho.
Ela não chorava de tristeza, ela não chorava por causa da mágoa. Ela chorava de raiva, frustração. Impotência. Ela se perguntava quando tudo aquilo mudaria, quando tudo enfim chegaria ao fim. Ela queria risadas, em troca ouvia vozes exaltadas. Ela queria sorrisos, mas via apenas olhares distantes. Tudo o que ela queria era que aquela constante tensão se dissipasse e desse lugar à paz e à calmaria.
Olhando em retrospecto, aquelas noites não pareciam nada demais. Até acontecerem.
Ela queria fugir. Mas fugir para onde? As pessoas fogem para casa quando precisam, mas e quando sua própria casa é o lugar do qual você quer escapar?
Secando as lágrimas como havia se acostumado a fazer, ela destrancou a porta e foi para o quarto. Naquele dia, não foi checar sua mãe. Receberia um sorriso murcho e o mesmo discurso de exaustão e comodidade. No fundo, ela sabia que sua mãe ficaria bem. Era uma mulher forte, apenas um pouco ferida, mas forte. Ao contrário dela mesma.
Deitou na cama e se enfiou debaixo de seu grosso cobertor. Abraçou um travesseiro e esperou que as últimas gotas caíssem ali. Com um suspiro profundo ela apagou as luzes e se encolheu naquele emaranhado de calor.
Fechou os olhos e abraçando a si mesma jurou que algum dia tudo ficaria bem. A névoa da mágoa daria lugar a raios de satisfação e aquela presente tensão não existiria mais. Não seria preciso estar constantemente preparada para uma luta, ela poderia abaixar a guarda e trancar sua armadura em algum esconderijo de pedra. Algum dia, tudo se encaixaria e ela perceberia o quão tola foi por sofrer daquela maneira. Algum dia, tudo ficaria bem.
Algum dia. 
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Um conto sobre renascimentos diários


Ser mensageira da morte era realmente algo deplorável.
Praticamente todo dia ela se via naquela mesma situação. Não importava se os corredores do hospital estavam iluminados pelo sol da manhã, alaranjados por causa do crepúsculo ou sombrios devido à lua da madrugada. O sentimento era sempre o mesmo, a tarefa era sempre igual.
Às vezes a morte vinha diferente. Não estava sempre trajada com surpresa e espanto diante daquilo que ninguém esperava. Às vezes ela aparecia suave e grave como alívio para os que já não suportavam mais sofrer. Outras vezes ela era aguda e cruel para com aqueles que foram pegos desprevenidos. Ela não poupava ninguém, nem mesmo aqueles que nem tiveram a oportunidade de abrir os olhos, nem os que já estavam com os olhos abertos por tempo demais. A morte era o que era e pronto. Todos tinham um dever a cumprir e a morte não era exceção.
Era assim que ela via a morte, como mais uma trabalhadora que tem um motivo para fazer o que faz. Ou talvez não tenha motivo nenhum, apenas faz. É que pensar dessa maneira era um pouco menos amargo, um pouco mais sutil.
Ser uma enfermeira como ela era não estava na lista dos melhores trabalhos do mundo. Não sabia se era karma ou qualquer desculpa do gênero, mas definitivamente não era um trabalho muito feliz. Ela sabia amaciar as palavras, tinha o fardo de saber confortar. Nunca pensou que essas qualidades lhe custariam parte de sua sanidade, mas a vida podia ser bem irônica.
No hospital em que trabalhava, toda vez em que algum paciente morria, era ela a encarregada de levar as boas novas aos pacientes do falecido. Não sabia ao certo como fora encarregada dessa deprimente função. Não sabia como tudo havia começado. Talvez alguma outra enfermeira tenha reparado como ela era com as palavras e tenha lhe pedido uma ajuda. Talvez algum médico ocupado tenha lhe cobrado um antigo favor. O tal do talvez não importava mais. Ela acabou presa àquilo e não tinha mais como escapar.  
Enquanto caminhava por um dos longos corredores a caminho de mais uma família, não conseguia deixar de pensar em como o mundo era imperfeito.  
Aquela sensação de vazio, de solidão para com a humanidade não podia ser normal e ter que ser aquela a semear a notícia de morte várias vezes ao dia não estava fazendo bem à sua sanidade. Não mesmo.
Enquanto observava um pequeno brilho se apagando nos olhos da irmã de um falecido, se perguntou mais uma vez se aquilo era justo.
Trabalhava naquele mesmo hospital desde que se lembrava e nunca havia visto algum paciente corrupto morrer. Não sabia de um décimo da vida daqueles que entravam ali, mas o que sabia não lhe causava repulsa. Tinha um sexto sentido para com as pessoas e podia ver claramente quem de fato merecia o destino que lhe aguardava e quem simplesmente estava no lugar errado na hora errada. Ou talvez no mundo errado, vai saber.
Cada vez que via uma família de bem se despedindo de um ente querido e amado, se perguntava se algum dia sobrariam pessoas amáveis e gentis no mundo. Na sua lógica, se tanta gente boa deixava o mundo todos os dias, como é que ele continuaria se estivesse repleto de maus elementos?
Já havia visto acidentes de carro acabarem com famílias inteiras; assistiu ao câncer sugar lentamente a vida de algumas das pessoas mais interessantes que já conheceu; teve que dizer a um esperançoso pai que sua mulher havia morrido ao dar a luz ao seu primeiro filho; foi aquela que notificou uma família que seu filho mais velho havia cometido suicídio; e várias vezes deu o ultimato de que o ancião da família havia finalmente descansado.
A morte nunca cansava de inventar maneiras de dar as caras num eterno carnaval de escuridão. A morte praticamente se reinventava a cada dia.
Crises existenciais profundas já estavam virando rotina pra ela. Não era nada fácil sentir o que sentia no meio de tanta tragédia. Rezava para ser chamada em alguma emergência, queria poder agir e não apenas falar. Se pudesse escolher seria muda, talvez assim ela não fosse designada para tal tarefa.
Suspirou enquanto caminhava por outro extenso corredor. Colocou as mãos nos bolsos da calça para tentar aquecê-las. Nem estava tão frio.
Enquanto filtrava os sons ao seu redor para se concentrar apenas nos seus passos que ecoavam pelo piso, andou até o único lugar capaz de lhe assegurar sua sanidade num dia como aquele. Assim que chegou àquela ala específica, parou diante do vidro e encostou a palma das mãos ali.
Não se contentando apenas com aquele toque impessoal e gélido, caminhou mais um pouco e abriu a porta da sala de tamanho razoável. Outra enfermeira que estava ali sorriu amigável – ela entendia porque sua companheira de trabalho precisava ir para lá no final de todos os dias. Pousou uma mão em seu ombro num gesto camarada e se dirigiu até o canto da sala onde ainda pudesse prestar atenção em tudo que fosse necessário.
Deixada ali quase sozinha por uns instantes, fechou os olhos por um momento respirou fundo. Ao abrí-los novamente, pôde sentir uma onda de plenitude percorrer seu corpo. Os sons de pequenas respiraçõezinhas preenchiam a sala. O cheiro característico de talco e lavanda era como um bálsamo. Alguns bebês fungavam e se debatiam num sono profundo, outros tentavam se manter acordados para explorar esse mundo diferente e completamente novo. Ela se aproximou de uma incubadora e observou atenta à pequena vida que havia acabado de dar as caras.
Seus olhinhos se abriram lentamente e se focaram nela. De repente bracinhos e perninhas começaram a balançar e se debater insistentemente procurando alguma coisa, alguém. Ela correu os dedos delicadamente pelo rostinho que lhe dedicava toda atenção. Talvez fosse por causa do sono, talvez fosse pela curiosidade, mas o brilho nos olhos daquela criaturinha era inspirador. Aquela inocência, aquela excitação pelo desconhecido era algo que ela sentia falta mais do que tudo no mundo.
Encostou sua mão na pequena mão estendida e sentiu dedos minúsculos se fechando em volta de seu indicador. Sentindo aquele aperto quase insignificante e olhando para o brilho daqueles olhos, ela lembrou o porquê de acordar todos os dias mesmo vivendo no meio de tanta escuridão.
Assim que levantava da cama ela sabia que nada do que aconteceria a partir daí seria fácil. Muito pelo contrário. Ela encontraria dor, sofrimento, vazio e escuridão. Ela sabia que teria que enfrentar tudo de peito aberto porque simplesmente não existia outra alternativa. Sabia disso. Sabia que corria o risco de perder sua sanidade assim que colocasse os pés pra fora da cama. Mas se pudesse se apegar àquela pequena faísca, ela não se importava.
Desde que pudesse, no final do dia, correr para seus portos seguros e respirar fundo, ela sobreviveria. Daria um jeito. Enquanto houvesse algo para empurrá-la abismo abaixo, haveria algo para puxá-la de volta pra cima. Enquanto existisse escuridão, existiria luz.
Olhando para aquela criaturinha recém-nascida, ela sabia que sempre existiria morte. Mas sempre existiria o nascer de algo novo, algo lindo e simplesmente esplêndido. Enquanto soubesse aquilo, estaria segura. Sua sanidade continuaria protegida.

No meio de todos aqueles pensamentos finalmente suaves e calorosos, ela sorriu. 
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O dia em que o mundo renasceu
            Pensaram que a humanidade chegaria ao fim no dia 21 de Dezembro de 2012, o que não foi bem assim. O que ninguém esperava, era que algo grandioso aconteceria no ano seguinte em um laboratório de física na Alemanha.
            Um tal de Mark, insatisfeito com os rumos de sua vida, cansado de conviver com a solidão e viciado nas redes sociais, construiu uma máquina capaz de fazer sua mente entrar na internet. Literalmente.
            A verdade é que seus amigos e membros de chat estavam longe demais e aquela distância não estava lhe fazendo o bem que deveria. Conseguiu, depois de meses sem cessar, fazer com que a máquina escaneasse seu cérebro e transmitisse sua essência para o computador com a ajuda de alguns fios conectados ao seu crânio. Um scaner fazia uma “cópia” de seu corpo como uma câmera 3D e, em menos de alguns segundos sua imagem se formava na tela. O corpo digital, combinado com a mente, funcionava como um – inocente – vírus, compatível com todas as redes sociais nas quais quisesse se instalar. Como um efeito placebo, Mark pensou que havia encontrado seu caminho para o paraíso. Assim como muitos passaram a acreditar pouquíssimo tempo depois.
            Não demorou muito para que cientistas do mundo inteiro pusessem as mãos em sua invenção e patenteassem aquela descoberta incrível. Ocupado demais para se importar com as repercussões de sua criação, o físico se perdeu em meio ao Novo Mundo.
            Ao final do ano, setenta por cento da população mundial já portava aquela máquina e vivia plenamente e conectada. A economia passou a se basear nos frutos gerados pela Colheita Feliz, o Twitter se tornou o novo Jornal Nacional transmitindo notícias curtas e em tempo real, a Wikipedia se transformou no centro educativo mundial, o Flickr concentrava as maiores galerias de arte da atualidade, todos os maiores e melhores escritores migraram para o Tumblr para dividir suas mais recentes criações e o Youtube já estava entrando em curto devido ao número de espectadores ansiosos pelo mais novo lançamento de Felipe Neto. O eHarmony virou o grande ponto de encontro de solteiros desiludidos, o WeHeartIt se tornou o maior guia turístico de todos e o Fashiolista representava tudo que havia de mais novo e badalado nas passarelas.
            A humanidade havia encontrado outro lugar para se estabelecer. Com o passar do tempo, os corpos, esquecidos do outro lado da tela, começavam a definhar e falecer. Consequentemente, a mente no interior do computador se perdia e inevitavelmente sumia. Não demorou muito para que a seleção natural entrasse em cena e terminasse seu trabalho. Os espertos que percebiam algo “errado” se desconectavam a tempo e tentavam ressuscitar sua rotina há muito esquecida. A grande invenção de Mark se tornou a peste negra atual – não apenas o novo controle biológico como tecnológico.
            Luce, de vinte e um anos foi uma das poucas conscientes que decidiu se desconectar quando percebeu que por mais que comesse, seu estômago continuava insatisfeito. Por mais que visitasse o mundo todo dentro das fotos no Instagram, o calor do sol ou o toque de uma brisa nunca eram como se lembrava. Após se desconectar do Novo Mundo, comeu uma deliciosa pizza com a mais gelada Coca-Cola sem se preocupar, pela primeira vez em muito tempo, com a necessidade de postar a foto do prato. Desceu – pelas escadas – até a portaria de seu prédio e percebeu, com infelicidade, que não apenas o edifício, mas as ruas estavam vazias e desertas. A não ser por alguns animais contentes por finalmente terem se livrado do domínio humano.
            Sem se preocupar em olhar para os lados ao atravessar a rua, Luce caminhou até a praia e, descalça, apreciou a sensação da areia sob seus pés, se regozijando com os finos grãos tocando seus dedos. Andou mais um pouco e sentou-se ali mesmo de frente para o mar. Fechou os olhos suspirando ao sentir o sopro do vento lhe acariciando o rosto e bagunçando alguns fios de seus cabelos. O sol se punha indo ao encontro das águas e lançando sobre Luce cores vermelho-alaranjadas. Ela podia sentir o suave calor lhe tocando as bochechas e os braços. O gostoso barulho das ondas se quebrando rompia aquele silêncio quase absoluto. Ao abrir os olhos novamente, sorriu. Sorriu diante a sua realidade, sorriu diante aquele mundo – desta vez real – que lhe mostrava todos os seus simples e maravilhosos encantos. Luce se deliciou com aquilo e, sem tirar os olhos da imensidão na sua frente, pensou que não podia existir nada mais belo do que a simplicidade daquele momento.


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Laura Brand. Editora, jornalista, produtora de conteúdo e apaixonada por contar histórias. É apaixonada por livros e acredita que cada página guarda uma história incrível que merece ser contada. Atualmente você pode encontrá-la falando sobre narrativas por aí, contando histórias escritas e ajudando a transformar sonhos em livros.

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