Alguns livros simplesmente nos encontram e nos
surpreendem de um jeito delicioso. Ano passado fui pela primeira vez na Bienal
do Livro de Minas. Eram tantos livros espalhados por todos os estandes e tanta
gente, era difÃcil encontrar alguma coisa que não estivesse logo na sua frente.
Eis que no meio de uma multidão, enquanto eu estava indo para a fila pagar por
alguns exemplares que tinha em mãos, ouço com acanhado “com licença”. Uma
mulher com cara de menina se apresentou como Clara e me mostrou seu livro. Ela me
entregou um livro pequeno, fino e apaixonante. Nem precisou dizer muita coisa,
a capa já me conquistou (vocês já sabem o amor que sinto por capas). Clara
também me mostrou outro livro de sua autoria, mas alguma coisa no “Blog da
Clara” me cativou. Tinha um bom pressentimento a respeito e estava certa. Se
tornou um dos meus favoritos.
“Neste livro, a escritora piauiense
cativa o leitor por sua capacidade de sentir, de expressar sentimentos com uma
leveza peculiar e comovente. Sua maturidade é enternecedora. Transforma temas
corriqueiros em poesia, prosa, contos e versos.”
Assim que comecei a ler, sabia que não iria conseguir
parar até virar a última página. O livro é pequeno, cheio de poemas, contos e
crônicas, mas não foram eles que me fizeram concluir a leitura tão rápido.
Foram suas palavras. Clara Mello tem o dom da palavra. Já em sua apresentação
sabia que ela era uma escritora diferente. Algumas pessoas sabem escrever,
outras escrevem bem, mas existe uma terceira categoria, aquela em que se
encaixam as pessoas que criam sentimentos mais do que juntam palavras.
Não conhecia os textos da Clara até ler o livro e hoje não
entendo como ela não está na lista dos mais vendidos do paÃs. Seus poemas são
profundos, suas crônicas são deliciosas e suas palavras me conquistaram. Seus
textos são fáceis de ler, é quase como se a autora estivesse conversando
consigo mesma e compartilhando seus pensamentos com o leitor. A autora não
enfeita as palavras, não complica o que deveria ser fácil de ser entendido. Você
nem percebe que vai passando as páginas e quando se dá conta está sendo levado
por suas palavras.
Como é uma coletânea de textos postados em seu blog, o
livro é diferente. Não é um livro de contos, não é um livro de poesia, não é um
livro de crônicas. É um livro de tudo. Os temas também são variados e muito
fáceis de se identificar, indo desde uma crônica sobre gatos (não deixei de
pensar nos meus por um segundo e compartilhar cada pensamento dito) a um poema
a respeito da fragilidade do coração. Desde temas corriqueiros como cabelos a
temas mais profundos como a morte.
O livro também tem várias cartas endereçadas a uma mulher
chamada Laura, o que me fez amá-lo ainda mais. Raramente encontro livros com
histórias cuja personagem principal se chama Laura, e ler cartas tão lindas e
bem escritas fez com que eu me sentisse ainda mais envolvida com as palavras,
de uma maneira pessoal. Não sei qual a história e/ou a intenção por trás das
cartas para Laura – e adoraria saber – mas me apaixonei por todas.
Blog da Clara é um daqueles livros para se ler de novo e
de novo e de novo. Para buscar inspiração, para passar o tempo, para ler textos
bonitos, para suspirar. É um livro inspirador, a autora consegue transmitir
tanto com tão pouco, como aspirante a escritora me senti motivada a escrever
mais e melhor.
É difÃcil publicar um livro no Brasil, ainda mais difÃcil
é vendê-lo significativamente. Existe muito preconceito com autores nacionais –
e não me excluo desse preconceito, confesso – e, por isso, faço questão de
divulgar um livro tão bom escrito pelas mãos de uma brasileira. Seja por conta
das palavras apaixonantes ou da coletânea tão bem organizada, Blog da Clara me
inspirou a ir juntando minhas coisinhas (nada que se possa comparar às suas) e,
quem sabe, publicá-las num futuro próximo.
Minhas – muitas – partes favoritas do livro:
♦ Alguma carta a Laura
♦ As linhas
♦ Gatos
♦ Carta a Laura
♦ Bandoleiros
♦ Aos que ficam
♦ Laura, de novo
♦ Errada
♦ Cheirosa
♦ Garrafa ao mar
♦ A mulher mais linda do mundo
♦ Saudade
♦ Primeira carta a Laura
Ao autografar meu livro Clara escreveu “Laura, espero que
você goste das minhas pequenas grandezas”. Clara, obrigada por esse pequeno
livro gigantesco, vou guardar com muito carinho.
Se você adora ler textos e crônicas, o livro Blog da
Clara com certeza vai te encantar tanto quanto me encantou e vai se tornar um
dos seus favoritos. O livro é como uma carta que a gente esquece na gaveta e
depois se delicia com as palavras. Indispensável na estante de quem adora
mergulhar nos devaneios alheios.
Blog da Clara foi escrito por Clara Mello e publicado pela editora Cidade Verde.
Classificação: 5/5
estrelas.

“Antes eu
estivesse triste do que apenas inerte. Eu queria qualquer sentimento, ainda que
fosse mesquinho ou melancólico. Estou indiferente, e isso me sangra sem dor.
Sinto
saudades das minhas batalhas perdidas, das minhas revoltas de causas pesadas ou
até pouco importantes, das minhas angústias amargas, da minha vontade de correr
o mundo, da minha ingenuidade poética, dos meus sorrisos com alma, dos meus
choros sentidos. Sinto falta das mil pelejas em vão que me motivavam a
continuar tropeçando e levantando, caindo e me reerguendo.
Estou
mergulhada em ausências, e tudo que sobra é um silêncio vazio. Grito dentro de
mim, e acoa... Sou oca e acústica, mas não faço melodia, só sopro ventos mudos
e permaneço quieta, caladinha e quase inexistente.
Minhas asas
andam enferrujadas do sonho de voar, e minha garganta economiza utopias.
Andodesanimada e solitária, sem aquilo que outrora me acompanhava como sombra.
Estou só.
Quero
qualquer fervura, e até dissabores, se isso me fizer mais viva. Sinto falta do
meu coração inquieto, das curvas do meu caminho, da minha vontade de viver. Eu
sinto falta de mim.” (Saudade, p. 125)
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