Tem
gente que parece ser um livro, daqueles que chamam a atenção logo de cara na
mais completa – e incompleta – estante da vida. Com aquela capa engraçada, toda
enfeitada e cheia de cor. Aquelas paletas de cores que em qualquer outro alguém
ficariam ridÃculas.
De
vez em quando acabamos esbarrando em pessoas inexplicáveis, pessoas com um
brilho único, um quê de individualidade incomparável. Pessoas com o sorriso
sincero, a risada aguda e gestos honestos. Algumas pessoas parecem a
materialização da felicidade pura, o reflexo de todos os sonhos que ainda desconhecemos.
Enquanto parece que estamos sempre tentando nos encontrar de algum jeito
complicado e exaustivo, algumas pessoas sabem simplesmente... ser. E ela era.
Não era uma metade, não sabia ser pedaço. Ela era intensa mesmo quando parecia
querer ser pouco.
Um
reflexo nos olhos, um vento no cabelo, uma melodia no coração. Ela não
precisava de muito pra brilhar. Desde o primeiro momento ela me deixou
intrigado; como pode uma pessoa ser tanto em tão pouco? Será que ela não via
que quase me cegava com tanta luz? Parecia quase errado ficar próximo de tanta
pureza. Errado e inevitável.
De
inocente ela não tinha nada. De incoerente muito menos. Sabia por onde andava,
com quem falava, como deveria fazer. Sabia sorrir de um jeito... Sabia olhar com
o canto do olho, sabia enfeitiçar com as mãos, sabia exatamente como arrastar a
voz da maneira certa para deixar um homem aos seus pés. Só não sabia o poder
que tudo aquilo tinha em mim.
Sempre
me perguntei se toda essa história de anjos tinha um quê de verdade, e toda vez
que eu olhava pra ela tinha certeza de que estava cada vez mais perto de
descobrir.
Daquelas
passantes, viajantes, desgarradas, brilhantes. Me fez um ignorante por tentar
entender e um idiota por acreditar que poderia acompanhar. Aquela mulher tirou
esse homem do sério. Era desconcertante olhar para uma metáfora viva, para
versos andantes. Criou um poeta que queria mais do que tudo escrever sobre sua sutileza adorável.
Minha
vontade era de prendê-la, capturá-la só pra mim. Porque eu sabia que ela estava
escapando, porque sabia que aquele pouco tempo com ela tinha data de validade.
Mas ela foi feita pra ser livre, pra tirar meu chão em dois dias e mandar um
beijo por cima do ombro na despedida do terceiro. Como um pássaro que deixa
para trás uma pena, ela deixou comigo uma lembrança. E eu fiquei ali todo bobo
tentando entender onde eu havia me metido, quem eu seria depois dela.
A
minha flor tinha sede de luz, fome de vida. Do mesmo jeito que veio ela se foi,
se abriu e se fechou, pousou para alçar voo de novo. Pássaro não se prende em
gaiola, e eu adorei vê-la voar.

