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13 de dez. de 2017

Palavras perdidas


Hoje voltei a escrever. Não sei bem o que aconteceu. Peguei uma caneta velha que estava jogada no canto da mesa e voltei a rabiscar algumas palavras num papel meio amassado, meio rasgado que encontrei em baixo de alguns livros. Pareceu apropriado.
Não sei há quanto tempo estava engasgada com palavras que simplesmente não queriam sair de mim. Parece que enquanto tudo o que eu mais queria era colocar no papel sentimentos e angústias que me sufocavam, tudo o que as palavras precisavam era do meu mais completo silêncio.
É uma sensação de despertencimento enorme quando algo que você sempre fez tão naturalmente se torna quase que um suplício. Eu, que sempre tive as palavras como melhores amigas, me vi encarando dezenas de páginas em branco sem saber como preencher espaços vazios. Eu, que sempre senti prazer inventando versos e imaginando cenários, me vi presa a uma realidade que não mostrava nada além do que estava bem na minha frente. Eu, que vivia escrevendo e escrevia a vida, não disse mais nada por um tempo. E, assim como minhas palavras, me calei.
Não sei bem explicar a falta que me fez despejar pensamentos, principalmente aqueles que rabisco com urgência e escondo em bolinhas de papel no fundo de minha gaveta secreta. Quando é tão difícil se sentir parte de algo e saber que existe um pedaço de si que encontrou um propósito, a gente quer se agarrar com unhas e dentes à tudo aquilo que traz uma paz interior, por menor que seja. E quando isso vai embora... é como se todo aquele esforço para fazer sentido já não tivesse mais razão de ser.
Quando as palavras me deixaram me senti desamparada, confusa e solitária. Elas se foram sem aviso prévio, sem explicações, sem razão. Quando dei por mim já não conseguia preencher uma linha em nome da emoção. Então é assim que se sentem aqueles que não conseguem transformar uma dor numa poesia? É assim que se sentem aqueles que não conseguem materializar um sentimento? É assim que se sentem aqueles que não conseguem rasgar o próprio peito e pintar de vermelho uma folha em branco?
Escrever é uma das poucas coisas que me fazem sentir que existe beleza em tanta coisa ruim que faz questão de bater à porta. Escrever é transformar em arte aquilo que poderia ser visto com escárnio.
Durante algum tempinho eu me senti meio vazia. Como se tudo aquilo que eu continuava a sentir não tivesse mais para onde ir. Porque não me faltava emoção, ah, isso nunca falta. Mas eu não sabia o que fazer com as sensações que continuavam a agitar meu peito. Quantas vezes eu me vi sentada olhando para o computador enquanto o cursor debochava de mim? 
Me perdi em todos os momentos em que esquentei um chá, abri meu caderno favorito, peguei uma lapiseira novinha e continuei do mesmo jeito que comecei. Com a única diferente que o chá havia esfriado. Até o bloco de notas do meu celular já não era mais atualizado há semanas. Nem uma frase, nem um haicai, nem uma palavra inventada. Por algum tempinho toda a minha criatividade e inspiração se resumiram a incontáveis documentos em branco e uma frustração sem tamanho. Me senti perdida e, confesso, sozinha.
Passei a acreditar que eu nunca mais seria capaz de escrever uma lauda mantendo minha sanidade intacta. Em pouco tempo todos aquelas certezas de que eu logo publicaria um livro viraram sonhos distantes e inalcançáveis. Até um poeminha de canto de página já se fantasiava de dementador. E por um tempo eu simplesmente desisti. Depois de tanto me frustrar com o abandono das palavras eu deixei de tentar lhes dar forma. E por um tempo eu fiquei assim, perdida em pensamentos e sem conseguir formular uma frase a respeito do que se passava em minha cabeça. Foi um período quieto e solitário. Incompleto.
Então hoje, enquanto estava absorta em uma tarefa qualquer, senti minha mão tentando alcançar aquela caneta que falhava a cada sílaba e me peguei rabiscando aquele papel esquecido embaixo de coisas mais importantes. Eu estava escrevendo, libertando pensamentos em letras cursivas e me sentindo eu de novo, como há muito tempo não sentia.
Quando percebi já estava virando uma página e minha mão continuava a se mexer sobre a folha de papel. O calorzinho no peito veio aos poucos, pedindo licença e limpando os pés antes de entrar. Como um velho amigo que passa um tempinho fora e traz consigo histórias para contar, as palavras voltaram para casa, voltaram para mim.
Acho que me encontrei de novo.

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3 comentários:

  1. A pouco me senti assim. Solitária de palavras, inspiração e criatividade. Sozinha. Pensei ter esquecido como se escreve e até cheguei a concluir que não tinha o dom, que tinha sido um engano e que todos os textos esvaíram o máximo de mim; talvez fosse o fim. Mas felizmente não foi! No meio de um dia qualquer, naturalmente e sem planejamento, consegui retornar às minhas palavras e versos.
    Veio sem pretensão e espero que não me abandone mais uma vez [pelo menos não por agora].

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